Quando os europeus cantavam de galo

por Álvaro Domingos

A directora-geral do FMI, Christine Lagarde, lançou um apelo lancinante: o mundo tem que ajudar a Europa a sair da crise! E a única maneira de conseguir esse piedoso acto é atirar com montões de dinheiro para cima das dívidas soberanas dos países da União Europeia. O Presidente da Rússia já disse que vai dar para esse peditório. Pequim não só ameaçou como cumpriu e inunda a Zona Euro de fundos. O Brasil também foi convidado a abrir os cordões à bolsa, mas Dilma Rousseff, para já, ainda não decidiu se há-de ajudar os europeus a beber champanhe e a debicar caviar ou continuar a garantir ao bom povo brasileiro a sua dose diária de arroz com feijão.

A crise das dívidas soberanas na Europa e de uma maneira geral no chamado mundo ocidental deixa-me mergulhado na perplexidade. Já tenho idade suficiente para não acreditar no Pai Natal, ainda que, por vezes, tenha recaídas. Por isso sei que ninguém dá nada a ninguém. Também sei que entre os que recebem e que um dia hão-de pagar de qualquer maneira, há os mal-agradecidos e os que reagem aos credores com falta de humildade e sem subserviência. E finalmente há os que não pagam, nem por um decreto.

Os europeus andaram anos a abandalhar (este é o termo mais brando) os políticos africanos porque eram uns desgovernados, faziam dívidas astronómicas, desbaratavam os dinheiros públicos deixando os seus povos na miséria. Os mais radicais propunham cortes de crédito e castigos infernais para os países africanos endividados. Para os políticos, no mínimo, exigiam a prisão.

Agora vejo os países africanos como sempre vi. Sem infra-estruturas que lhes permitam voar por cima da crise, sem massa crítica, sem universidades de elevada qualidade, sem quadros técnicos qualificados, sem capacidade para transformar as matérias-primas de que dispõem em abundância. Mas sei que este quadro não é uma fatalidade. É filho dilecto das relações do colonialismo, que é só o mais hediondo crime que alguma vez foi cometido contra a Humanidade. Apesar de terem deixado África nas mãos da globalização, entregue à sua sorte, os europeus ainda reclamam que os políticos africanos façam milagres e produzam em fábricas que nunca existiram, usem as redes viárias que ninguém construiu, explorem as pescas sem meios nem técnicas, os minérios sem tecnologias nem técnicos. Querem que os africanos façam aquilo que eles não conseguem fazer com altíssimas tecnologias, economistas e gestores premiados com o Nobel, engenheiros sábios, médicos que fazem milagres, hospitais com equipamentos que nós nem sonhamos que existem.

Os europeus condenaram à fogueira centenas de políticos africanos porque não conseguiam fazer crescer os seus países por falta de quadros e de dinheiro. Para eles era tudo uma questão de corrupção. Hoje, mesmo com todas as maravilhas do progresso nas mãos, com empréstimos de milhares de milhões, a única coisa que conseguem é aumentar as dívidas soberanas, lançar milhões de trabalhadores no desemprego e na miséria absoluta.

Não vou cometer a indelicadeza de lhes chamar corruptos, agora que estão na mó de baixo. Mas são, no mínimo, incompetentes. Tantos estudos, tantas técnicas, tantas qualificações de alta gestão e altíssima direcção, afinal de pouco lhes servem. A dívida soberana dos EUA dava para pagar 100 vezes as dívidas todas dos países africanos. A do Japão, igualmente. A Itália tem que pagar em Março 300 mil milhões de euros! Não precisamos de uma calculadora para perceber que esse montão de dinheiro deixava África inteira sem dívidas.

Os europeus estão endividados mas a perspectiva de curto prazo é acrescentarem às dívidas níveis de desemprego humilhantes e a pobreza extrema. Tinham tudo para ser felizes e estão deprimidos. Estudaram tanto, aprenderam tantos truques económicos e financeiros, fizeram fábricas tão robotizadas, criam tantos sistemas informáticos, construíram tantas auto-estradas da informação e agora caíram na valeta das dívidas soberanas, pobres como os mais pobres.

Os países não acabam nunca nem podem fechar as portas. Têm de aguentar os dias maus, os dias bons e os dias de glória. Angola está a passar dos dias bons para tempos gloriosos. Afinal os nossos políticos, os nossos dirigentes, os que nos conduziram na guerra que nos impuseram e nos guiam na paz, são mesmo muito bons. Mesmo nos anos mais difíceis nunca perderam a cabeça nem puseram em causa a nossa soberania, com dívidas tão grandes que até se perdem de vista. Quem canta de galo, um qualquer dia acaba por piar baixinho.

Fonte: Jornal da Angola

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