quarta-feira, dezembro 7, 2022
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Quero ser professor

Segundo o Ministério da Educação, os professores da rede pública da educação básica em todo o Brasil tiveram aumento real (já descontada a inflação) de 18% entre os anos de 2003 e 2008. No entanto, a profissão ainda segue desvalorizada salarialmente, uma vez que profissionais com mesma escolaridade em outras ocupações recebem mais do que os docentes.

Fonte: Envolverde

Na semana em que se comemora o Dia do Professor, o EducaRede convidou José Carlos Antonio, educador há 27 anos, para falar aos estudantes que desejam seguir carreira, sobre as delícias e as agruras da profissão. “É possível e necessário transformar pessoas, formar bons cidadãos e mudar a sociedade como um todo.  Tenho me empenhado nessa transformação a cada novo dia”, diz José Carlos, que é formado em Física, professor efetivo do Ensino Médio da rede pública paulista e formador do EducaRede.
O profissional falou também sobre a formação do professor, mercado de trabalho, salário, a rotina de um docente e a importância das novas tecnologias para a educação. Confira a entrevista:

EducaRede – Qual é o perfil de um jovem que deseja ser professor de educação básica? É preciso ter vocação para ser professor?

José Carlos Antonio – Como em qualquer profissão, “ter vocação” significa querer muito e estar disposto a enfrentar os desafios e exigências da profissão. Ninguém nasce com dom para coisa alguma e é isso que nos garante o livre arbítrio de poder ser o que quisermos; mas só querer não é poder, é preciso muita dedicação, muito estudo e muita determinação. Ser professor é uma responsabilidade muito grande, pois o professor educa pessoas e se torna co-responsável pelos futuros papéis que elas vão desempenhar no mundo. Para vir a ser um bom professor, é preciso ser inteligente, comunicativo, criativo e dinâmico, pois será necessário estudar a vida toda e gostar disso, aprender a lidar com crianças, adolescentes e adultos e, acima de tudo, ter espírito inovador e gostar de enfrentar desafios.

EducaRede – Como é a formação inicial de um professor? O que ele aprende em uma faculdade de educação?

José Carlos Antonio – A formação depende do tipo de professor que ele será, ou seja, do público para o qual vai dedicar seu trabalho. Professores que lidam com crianças em idade pré-escolar e nas séries iniciais têm uma formação diferente dos que lidam com crianças maiores e adolescentes. Para a pré-escola e séries iniciais, é preciso cursar Pedagogia e alguma especialização (há várias modalidades), embora ainda existam cursos de nível médio para a formação de professores para as séries iniciais. Já para os terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental (5a a 8a séries/6o a 9o anos) e para o Ensino Médio, é necessário ter uma formação específica na disciplina que o professor escolher (Matemática, Letras, Química, Física etc.) em um curso específico para professores (Licenciatura). Evidentemente, dada a escassez de professores para algumas disciplinas (Química e Física, principalmente) ou em algumas regiões com poucos centros formadores de professores, temos ainda muitos profissionais com formação inadequada, incompleta ou insuficiente que, no entanto, estão lecionando. E é bom lembrar que, ao invés de culparmos esses professores por sua formação precária, devemos agradecê-los, apoiá-los e ajudá-los a completarem sua formação, pois não fossem eles não haveria professor algum ensinando para essas turmas.

EducaRede – É importante o professor estar sempre se aperfeiçoando? Como?

José Carlos Antonio – É fundamental que qualquer profissional se aperfeiçoe durante sua vida toda e, no caso do magistério, isso é uma exigência inata da profissão, pois o mundo muda, e muda rápido, e a escola educa para o mundo, e não para si mesma. Assim, é fundamental que a escola e seus professores estejam em constante mudança e aperfeiçoamento. Isso é uma necessidade, não é uma opção. No magistério público há quase sempre algum programa de aperfeiçoamento ocorrendo, muito embora nem sempre esses programas sejam suficientemente “inteligentes” para permitirem que a maioria dos professores possa usufruir deles. Mas tanto na rede pública quanto na particular, os professores devem encarar o seu aperfeiçoamento como um investimento em sua própria carreira; um investimento que traz como retorno um professor melhor a cada dia, ainda que seu salário nem sempre melhore proporcionalmente. Na verdade, o professor não tem que ser bom porque assim merecerá melhores salários, ele tem que ser bom porque seus alunos precisam de bons professores.

EducaRede – Como é o mercado de trabalho para o professor de educação básica e como ingressar na docência?

José Carlos Antonio – O mercado de trabalho para o professor de educação básica é amplo, estável e sempre promissor, pois educação é uma necessidade permanente e a cada dia que passa torna-se mais prioritária. Não há desenvolvimento, igualdade e paz social, segurança e padrões razoáveis de qualidade de vida em países onde a educação não tenha sido priorizada. Os países desenvolvidos não o são por decreto próprio ou por herança histórica, o são porque em dado momento passaram a priorizar a educação como meio eficaz de desenvolvimento. O Brasil tende a ingressar no grupo dos países desenvolvidos e já começa a perceber que só conseguirá esse ingresso quando investir pesadamente em educação. Todo esse cenário é bastante promissor para a carreira do magistério em geral e, em particular, para o professor do ensino básico. Há muitas formas de ingressar na docência. A mais comum consiste em fazer um curso de licenciatura ou outro que o capacite a trabalhar com o tipo de público para o qual pretende se dedicar. Hoje em dia já é um consenso estabelecido que os professores devam buscar também especializações e pós-graduações.

EducaRede – Quanto ganha em média um professor de educação básica?

José Carlos Antonio – Depende do professor, de sua formação, sua competência, da localização geográfica onde trabalha e do tipo de escola (pública ou particular) onde leciona. Portanto, não há um único salário, mas sim um leque imenso de possibilidades. Os salários variam desde valores irrisórios e ilegais (abaixo do valor do salário mínimo) até números bastante significativos e da ordem de 10 a 20 salários mínimos mensais. Evidentemente que entre os dois extremos existe uma grande massa de professores que vivem com salários intermediários e baixos em relação à importância estratégica de seu trabalho. Na média, considerando o país todo e os valores correspondentes aos salários de início de carreira, o valor recebido por 40 horas semanais gira em torno de R$ 1.500,00 (cerca de 3,2 salários mínimos).

EducaRede – Como é o dia-a-dia de um professor? Quais as principais características da profissão?

José Carlos Antonio – Para alguns o dia-a-dia é cansativo e estressante, para outros é divertido. Isso depende muito do perfil do professor e do perfil da escola onde ele trabalha. Professores mais bem preparados e escolas mais bem geridas e cuidadas costumam resultar em um dia-a-dia tranquilo. Já no outro extremo temos um estresse às vezes insuportável. O trabalho do professor não ocorre apenas dentro da sala de aula. Na verdade ocorre, em grande parte fora dela, na preparação das aulas e atividades que serão vivenciadas com os alunos. Há também uma parte burocrática do trabalho que é feita fora da sala de aula (corrigir provas, tarefas, trabalhos etc.) e é preciso dedicar um tempo razoável ao aperfeiçoamento constante.

EducaRede – Você mantém um blog chamado Professor Digital, no qual discute e reflete sobre o papel do professor nesse contexto das novas tecnologias. Quais são as principais mudanças que as tecnologias trouxeram para a docência?

José Carlos Antonio – As tecnologias digitais em geral, e os computadores e a Internet em especial, trouxeram para o professor ferramentas que potencializam e facilitam seu trabalho. Ensinar usando os computadores e a Internet é muito mais fácil e divertido do que fazê-lo apenas com giz e lousa. Eu, particularmente, uso os computadores e a Internet porque sem eles meu trabalho seria mais cansativo, menos produtivo e, principalmente, mais chato para mim e para meus alunos. O uso das Tecnologias de Comunicação e Informação (TIC) é relativamente recente, tem cerca de duas décadas apenas, e só começou a se disseminar para valer nos últimos anos, mas já permite que se conclua que é um instrumento facilitador para o professor e para o aluno. É claro que computadores não geram bons professores, mas bons professores podem ser ainda melhores se usarem bem os computadores.

EducaRede – Quais as dificuldades e as vantagens (prós e contras) em ser professor atualmente no Brasil?

José Carlos Antonio –  Acho que uma grande dificuldade que os professores enfrentam atualmente, e que os coloca em desvantagem, diz respeito a sua própria auto-estima. De tanto ouvir dizer que a Educação vai mal, que a escola é ruim e que os professores são os culpados, muitos passaram a acreditar nisso e se sentem impotentes, incapazes e debilitados. Isso é o que chamamos de “profecia autorrealizável”, ou seja, acaba-se acreditando na mentira e tornando-a uma verdade. Eu conheci milhares de professores e vi todos os tipos diante de mim. Para alguns, a profissão é excelente, embora sempre queiram mais e melhores condições de vida e trabalho. Para outros, a profissão é péssima e eles sentem que só vai piorar, porque nada podem fazer senão lamentar. Portanto, os prós e contras estão muito mais desenhados nas lentes de quem vê do que na realidade que está diante dessas lentes. É possível e necessário transformar pessoas, formar bons cidadãos e mudar a sociedade como um todo, mas isso passa muitas vezes por uma transformação pessoal anterior, pois é difícil mudar o mundo se não somos capazes de mudar nem a nós mesmos. Eu vejo possibilidades onde alguns vêem problemas. Tenho me empenhado nessa transformação a cada novo dia. Nem sempre obtenho o sucesso que gostaria, mas posso dormir sossegado toda noite, pois penso que sei qual é meu papel e tento realizá-lo todos os dias, em todas as aulas, com todos os alunos.

 

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