Raça, gênero, classe, prisão: sete décadas de luta e teoria de Angela Davis

A necessidade de entender as histórias de forma coletiva e global marcaram a trajetória teórica e política de Angela Davis.

Do PCB

“Queremos o fim imediato da brutalidade policial e do assassinato de negros, de outras pessoas de cor e de todos os oprimidos no interior dos Estados Unidos”, dizia o Programa dos 10 Pontos do Partido Panteras Negras, em outubro de 1966. O documento incluía também a redistribuição da propriedade, reconhecendo a exploração aos escravos, o pleno emprego; habitação, saúde e educação dignas e mais. Após cinquenta anos do Programa, a acadêmica, membro do Partido Comunista, publicamente lésbica desde 1997, ativista e ex-membro dos Panteras Negras, Angela Yvonne Davis visita o Chile.

Davis vem no marco do “X Encontro do Instituto Hemisférico de Performance Política eX-Cêntrico: Dissidências, soberanias, performance”, organizado pela Vice-reitoria de Extensão e Comunicações e o Departamento de Teatro da Universidade do Chile e a Universidade de Nova York. Davis também encontra-se promovendo seus últimos livros: “A liberdade é uma luta constante: Ferguson, Palestina e as bases de um movimento” (Haymarket Books, 2016); “As prisões estão obsoletas?” e “Democracia da abolição” (2003 e 2005, editados em espanhol pela Trotta). Além do encontro, sua estada incluirá uma visita à comunidade Angela Davis – “A Angela na Angela”, organizado pelo Grupo de Estudos Feministas O Poder da Mulher a Subversão da Comunidade – batizada em sua homenagem em 1972, mantendo o nome apesar das tentativas da ditadura, neste domingo 17.

Sua palestra se intitula “Da abolição carcerária à #BlackLivesMatter: Movimentos sociais e a luta global pela justiça” e a menção à plataforma Black Lives Matter [As vidas negras importam] chegam em um momento de auge. Em 7 de julho, Alicia Garza, cofundadora do movimento, declarou à televisão “somos contra que nossa gente seja assassinada nas ruas (…) Black Lives Matter não está apenas preocupada com a polícia. A indiferença, a falta de respeito e de dignidade das vidas negras atravessam a estrutura da sociedade”.

Suas declarações foram dadas em meio a um estado de comoção nacional pelo assassinato de cinco policiais durante uma marcha da Black Lives Matter em Dallas, convocada em repúdio pelas mortes de Alton Sterling e Philando Castile pelas mãos da polícia da cidade. Por sua vez, quem disparou foi Micah Xavier Johnson, um afro-americano de 25 anos e veterano da guerra do Afeganistão, que morreu encurralado em um apartamento depois da polícia enviar um robô-bomba para não arriscar mais oficiais.

“A melhor maneira de lembrar o 50° aniversário dos Panteras Negras neste ano é reconhecendo que hoje precisamos de movimentos que reflitam as mudanças ocorridas nesses 50 anos, especialmente o auge das novas tecnologias de comunicação, a vasta influência das redes sociais e o aprofundamento das contradições de riqueza e pobreza”, declarou Angela Davis, elogiando o movimento Black Lives Matter.

Sobre o legado dos Panteras Negras, que foi uma de suas militâncias mais visíveis junto com o Partido Comunista estadunidense – pelo qual foi duas vezes candidata à presidência nos anos 80 – Davis reivindicou o poder histórico. “Temos que olhar de volta aos anos 60 e olhar as lutas e objetivos de uma forma relativamente estática. O fato é que conseguimos vitórias importantes e essas vitórias são visíveis até o dia de hoje. Por exemplo, o número de programas de estudos afro-americanos que existe nas universidades hoje. Essas mudanças institucionais são inconcebíveis fora do desenvolvimento do que foram parte os Panteras Negras e outras organizações”, analisou há alguns anos.

A presença na academia marcou a vida da doutora Davis. Após regressar para os Estados Unidos, lecionou na Universidade da Califórnia, fazendo as tese em torno do marxista Herbert Marcuse. Ali, participou da efervescência estudantil desses anos, e foi acusada em 1970 de entrara com uma pistola na prisão de San Quintín, para entregá-la ao Pantera Negra George Jackson. Fez parte da lista dos dez mais procurados pelo FBI em 1970 e passou dois anos presa, até 1972. Na época, o governador republicano da Califórnia declarou que “ela nunca mais ensinaria em uma universidade”. Era Ronald Reagan e se equivocou. Não só voltou à UCLA, como também nos últimos vinte anos ensinou nos cinquenta estados dos EUA, na África, Europa, Caribe e na União Soviética. É como acadêmica que volta hoje ao Chile, depois de sua última viagem em 1972, quando veio convidada pela Central Unitária Dos Trabalhadores após ser libertada da prisão.

“Se observarmos os 10 pontos do programa dos Panteras Negras, notaremos que os mesmos assuntos que eram levantados após o fim da escravidão estão no centro de um programa que foi formulado em 1966”, assinalou Angela Davis ao Ebony.com em janeiro. “Em 2008, quando Barack Obama foi eleito, esses assuntos não foram discutidos e certamente não teriam sido resolvidos, pelo qual a eleição de uma pessoa negra para este cargo não ia reverter automaticamente uma história de opressão econômica inspirada no racismo. Isto não significa que a eleição de Obama não é importante, porém essas lutas continuam”, acrescentou. E, precisamente, seriam lutas como a anticarcerária, pela dignidade dos migrantes, contra o racismo nos Estados Unidos, as que surgiram dentro da era Obama: “emergiram no espaço contraditório criado pelo fato de uma presidência negra e a aparente incapacidade dessa presidência em levar a cabo nenhuma grande mudança a respeito da persistência do racismo”, opinou Davis em El País.

O feminismo e Angela Davis: olhares específicos para uma leitura coletiva

Em seu último livro, insiste em uma premissa: nossas histórias não se desenvolvem individualmente. É uma ideia que a acompanhou por anos, a mesma que a levou, por exemplo, a constatar as tensões entre o movimento de libertação negra e o feminismo no contexto da luta pelos direitos civis nos anos 70 e 80. Em seu livro “Mulheres, raça, classe”, de 1980, enunciou que “o ponto de partida para qualquer exploração sobre as vidas das mulheres negras sob a escravidão seria uma avaliação de seu papel como trabalhadoras”, respondendo ao ideal delicado da dona de casa branca da classe média.

“Durante um período importante no movimento de libertação da mulher, um dos problemas principais era a tendência a assumir que as mulheres brancas da classe média eram o modelo mais típico de mulher e ele excluía as da classe trabalhadora, as mulheres negras, as nativas americanas e as latinas. Porém, é claro, isso mudou. Era uma crítica a um movimento emergente em fins dos anos 60 e princípios dos anos 70. Alguns destes problemas continuaram durante muito tempo, porém as ativistas feministas e as estudantes conhecem estas críticas e tentam afrontá-las, com mais ou menos êxito”, declarou em 2005 com um olhar retrospectivo.

Efetivamente, a necessidade de pensar as diferentes problemáticas articulando vetores das matrizes de dominação como raça, gênero, classe foi retomada. Um dos conceitos mais populares hoje entre os diferentes feminismos (comunitários, queer, trans, latino-americanos, autônomos do estado, lésbicos, chicanos e mais) é o de interseccionalidade, entendendo que diferentes vetores de opressão e de privilégio criam variações tanto nas formas como na intensidade na qual as pessoas experimentam a opressão. Assim, o diálogo se dá hoje mais a partir de uma diversidade de olhares parciais e não de uma pretensão de universalidade que por anos invisibilizou àquelas que não eram mulheres heterossexuais, educadas e brancas da teoria e ação feminista.

Migrações, conflitos e o complexo industrial-carcerário

A prisão é uma experiência que marcou Angela Davis juntamente a toda uma geração de ativistas para qual o FBI criou uma unidade especial (a COINTELPRO). E embora permaneça ativa na luta pela libertação dos presos políticos (em janeiro esteve na Espanha tentando visitar Arnaldo Otegui no País Basco e é uma das porta-vozes da BDS, a iniciativa de Boicote, Desinvestimento e Sanções ao estado de Israel), sua produção do último tempo se enfoca no que denomina como o complexo industrial carcerários e seus efeitos globais.

A conferência de Davis ocorre a um momento especial no Chile, no qual se discutem reformas às leis de segurança como a Agenda Curta Antidelinquência, enquanto os organismos privativos de liberdade, como o SENAME, colapsam. Assim, enquanto há poucos dias a ministra Blanco revelou que 185 crianças a cargo da instituição foram mortas desde 2005, o numero nas prisões de adultos permanece invisível: 558 pessoas privadas de liberdade foram mortas apenas entre 2011 e 2014. Na análise dos abolicionistas da prisão, não existe reforma possível: é preciso desmantelar o sistema e reconstruir a justiça penal e os sistemas policiais.

Assim, a abolição da prisão representa um movimento mais complexo que o fechamento das prisões. Para Angela Davis “o complexo industrial carcerário consiste em uma serie de relações entre cárceres, polícia, empresas, mídias e o Governo”, que teria uma presença global. Em seus últimos três livros, a acadêmica estabelece uma linha de continuidade entre a escravidão e a situação penitenciária atual, citando os estudos da também acadêmica e ativista Michelle Alexander, cujos números dizem que existem mais homens negros em prisão sob o controle da justiça criminal dos que foram escravizados em 1850. A maior parte dessa explosão se deu entre os anos 70 e hoje, em meio da “guerra contra as drogas”: a população nas mãos do sistema penal dos EUA passou de 300 mil em fins dos anos 70 para 2,3 milhões de pessoas hoje.

Para Davis, além disso, o complexo industrial carcerário dá elementos para a análise da chamada “crise migratória” na Europa. “Deveria reconhecer-se que os refugiados da África seguem as mesmas rotas do comércio de escravos. Certamente, a Europa está experimentando agora os resultados de uma longa história de escravidão e colonização”, declarou em janeiro.

Sua palestra de segunda-feira será transmitida via streaming pela Universidade do Chile, tratará disso: a luta global por justiça. Em fevereiro, consultada pela revista Ebony sobre qual é o nervo central de seu livro “Ferguson, Palestina e as bases de um movimento”, respondeu assinalando que “estou muito interessada em que os militantes pela libertação dos negros considerem que nossas lutas nunca obteriam a universalidade que têm hoje sem a solidariedade que existiu na África, Ásia, América Latina, Europa e Oceania. Nossas lutas são globais: é importante incorporar uma visão global dentro de nós e nos espaços de disputa”.

 

Fonte: http://www.resumenlatinoamericano.org/2016/07/18/raza-genero-clase-prision-siete-decadas-de-lucha-y-teoria-de-angela-davis/

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

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