sábado, agosto 13, 2022
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Racismo e machismo na vitrine!

por Ana Rita Dutra

As vezes, quando ando por alguns corredores de lojas nos shoppings de Porto Alegre, sinto que não sou brasileira. Nos cartazes, nas propagandas, nas publicidades vejo apenas pessoas loiras ou ruivas, morenas de pele muito clara, extremamente magras. Elas estão sozinhas ou em família, e essa família é igualmente branca, magra e heterossexual. Eu enxergo a cor da minha pele nessas vitrines, enxergo meu cabelo liso, mas não enxergo 50,7% da população brasileira declarada preta e parda no Censo de 2010 essas vitrines, não me enxergo enquanto afrodescendente, não enxergo a população negra, que pelo fenótipo é considerada negra e sobre tal recai fortemente o racismo brasileiro.

Dia 27 de Junho me submeti a um teste, fui visitar um grande shopping recém-inaugurado em Porto Alegre. Este shopping é considerado um dos maiores da América latina. São ao todo 230 lojas, mais de 45.568 m² metros quadrados. Fui juntamente com meu marido ver se a população negra estava representada neste espaço, já que este é um dos maiores centros comerciais da América Latina. Para perceber esta presença, considerei os materiais visiveis para o público que circula pelos corredores do Shopping. Observei todo material que estava nas paredes e nas vitrines principais.

Logo na entrada principal, que fica na Avenida Assis Brasil, encontramos algumas placas com a Campanha Oficial deste shopping, estas placas estão cobrindo os espaços ainda vazios de lojas que não foram inauguradas. A direita de quem entra, encontramos uma grande parede com estas placas, com as frases de “em breve aqui mais uma loja”, etc.. E nestas placas algumas mulheres brancas, loiras e ruivas seguram estas palavras. Estas mesmas placas se repetem ao longo do shopping, trocando as frases e as roupas das modelos.

Vitrine criada pela empresa Criacittá, especializada em marketing cenográfico.

Em uma vitrine externa da loja C., temos um homem negro ilustrando determinada promoção de calças. Seguindo pelos corredores, encontramos um espaço onde em breve hospedará a loja J., este espaço estava coberto por uma foto de algumas pessoas abraçadas, nesta imagem havia cinco pessoas brancas e um homem negro. Seguindo minha caminhada me deparei com a loja R., que estava totalmente coberta com propagandas do Dia dos Pais e, esta propaganda estava sendo ilustrada por um esportista negro e sua família.Nesta loja a representação negra esta bem marcada, creio que não pelo fato de ser uma família negra, mas pelo homem ser um atleta em destaque no momento.

Das mais de 200 lojas abertas neste shopping, somente 3 tem em suas vitrines externas pessoas negras participando das campanhas publicitárias. Estes eram homens negros, neste dia não haviam mulheres negras ilustrando vitrines ou nos corredores do shopping. Os salões de beleza e suas fachadas estavam repletos de mulheres loiras, extremamente magras.

A publicidade oficial deste shopping NÃO possui negros e negras em suas campanhas, o que reforça a violência simbólica do “não estar” , do “ser invisível para a sociedade”, e também da desapropriação do espaço, instigando que aquele não é seu lugar. Este é o racismo brasileiro. Vale lembrar também que uma linha de supermercados vinculada a este mesmo empreendimento, já foi processada algumas vezes por não contratar negros para seus quadros funcionais.

Cito aqui a colocação da blogueira Lucia Leiro sobre a violência simbólica de gênero:

violência simbólica de gênero, uma forma de violência que é, indubitavelmente, uma das violências de gênero mais difíceis de detectarmos, analisarmos e, por isso mesmo, combatermos. Talvez até mesmo porque o ‘bombardeio’ é tanto, de todos os lados, que acabamos ficando anestesiadas, inertes, impassíveis, incapazes de percebê-la, bem como o seu poder destruidor. No texto: Discurso, Cerveja, Gênero e Raça.

Alguns anos atrás, provavelmente, eu não perceberia esta violência excluindo negras e negros de determinados espaços, a ausência estava em um status de normalidade na minha infância e adolescência. Dizem que a ignorancia é uma benção? Naquele momento estava tranquila e ignorante. Hoje, perceber o racismo com suas garras fortes e imobilizantes me tira o sossego, me incomoda e motiva. Lembro-me, que a ausência da representação negra nas vitrines deste shopping foi quebrada em um momento: próximo às vitrines, sem representação alguma da existência do povo negro, mulheres negras limpavam os vidros.

Políticas afirmativas são necessárias, projetos sociais são necessários, discussão e educação, engajamento e militância. Este shopping é apenas um dentre tantos pelo Brasil, essa experiência nos mostra um pouco do racismo brasileiro. Racismo este presente em todos os lugares e que fomenta tantas violações de direitos humanos.

 

Ana Rita Dutra

Pesquisadora, educadora, especialista em Memória Social e Identidades Culturais Blogueira e feminista! Defensora dos direitos sexuais e reprodutivos, da liberdade religiosa, dos direitos das mulheres e meninas! Lutadora e sonhadora! Acredito sim num mundo melhor agora!!!

Fonte: Blogueiras Feministas

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