RACISMO NA ITÁLIA: Após briga de rua, Berlusconi radicaliza o racismo

Uma briga de rua num ponto de ônibus de Milão, que degenerou em choques entre imigrantes norte-africanos e latino-americanos, está servindo de pretexto para o governo Silvio Berlusconi endurecer a ofensiva contra a “imigração clandestina”. A Liga Norte, organização racista próxima de Berlusconi, exige medidas como “revistar e expulsar casa por casa”.


 

É o que prega Matteo Salvini, eurodeputado, vereador em Milão e secretário da Liga Norte em Milão. “As revistas já não bastam. É preciso blindar o bairro, revistar e expulsar casa por casa, andar por andar”, recomendou Salvini – que se tornou famoso no ano passado por defender o apartheid dos imigrantes em “vagões especiais”, no metrô da maior cidade do norte da Itália.

Na época, um vereador anrirracista do PD, Aldo Brandirali, respondeu: “O único modo de aplicar essa sua proposta é colocar estrelas no peito [dos imigrantes], com cores diferentes conforme a raça. Salvini, para ganhar votos, está disposto a enveredar pela ferocidade humanitária. Seu papel deseducativo é escandaloso.”

Antecedentes perigosos

O pretexto para a pregação racista em Milão começou com uma briga de rua, na noite de sábado para domingo (14). Ahmed Abdel Aziz, um jovem egípcio de 19 anos – aliás, com os papéis perfeitamente em ordem – foi morto a facadas por um também jovem peruano. Na sequência, tumultos de rua se sucederem num bairro do nordeste de Milão que concentra muitos trabalhadores estrangeiros. Quatro egípcios foram presos.

A reação racista ao incidente lembram o episódio de 20 de setembro de 2008 em Nápoles. Naquela data, seis africanos foram assassinados pela Máfia em Castelvoturno, um subúrbio da grande cidade do Sul. Centenas de imigrantes reagiram com uma manifestação de rua denunciando “o racismo dos italianos”.

Em 8 de janeiro último, outra onda de violência contra trabalhadores norte-africanos percorreu Rosarno, na Calábria. Cerca de mil imigrantes tiveram de fugir da cidade.

Por fim, na manhã desta segunda-feira (15), tratores acabaram de arrasar o que restava da favela de Casalino 900, às portas de Roma. O conglomerado de barracos abrigava há 30 anos mais de um milhar de ciganos, vindos principalmente da Península Balcânica. O prefeito de Roma, também da direita, felicitou-se com o desaparecimento dessa “vergonha para a Itália”. E prometeu que uma dezena de outras favelas da periferia romana vão ter o mesmo destino.

“Na Itália não há racismo”

A reação do governo Berlusconi beira o cinismo. No mês passado, dois pesquisadores da ONU sobre direitos migratórios e combnate ao racismo, Jorge Bustamante e Githu Muigai, pediram às autoridades italianas que “tomem todas as medidas necessárias para combater as crescentes atitudes xenófabas”. A reação do ministro de Política Europeia de Berlusconi, Andrea Ronchi: “Na Itália não há racismo. Esta é uma acusação de pessoas que não conhecem a Itália”.

A esquerda italiana, e uma ala minoritária da direita, liderada pelo presidente da Assembleia Nacional, Gianfranco Fini, tentam em vão deter a escalada racista. Propõem uma política de integração e uma lei que permita a obtenção da nacionalidade italiana depois de cinco anos de residência, em vez dos dez anos atuais. A direita majoritária, porém, enxerga na xenofobia uma oportunidade de ganhar votos, por exemplo nas eleições regionais marcadas para 28 e 29 de março.

Fonte: Portal Vermelho

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