Racismo não.

Nesta semana me deparei com uma postagem muito racista em um blog. A mulher (Mírian Macedo, jornalista e católica) dizia que, de agora em diante, não aceitaria serviços de NENHUM profissional negro. Afinal, ela não teria como saber se era cotista ou não.

postrecismo

O conteúdo rolou na internet, através do Facebook e de outras redes sociais, e ela começou a receber muitos comentários contra o discurso racista dela. Qual seria a melhor saída, então? Apagar o post, claro. Ela fez isso, provavelmente a fim de não ser mais incomodada. Mas, para o azar dela, a tecla print existe e o conteúdo continuou circulando através uma imagem que mostra todo o racismo destas palavras.

Mirían Macedo percebeu que precisaria se defender de alguma maneira. Criou outras postagens dizendo que sua ama de leite foi negra, que era fã de artistas negros etc. Até que ela decidiu escrever um texto grande em que explica os seus pensamentos retrógrados. No post “Clareando as idéias” ela diz que escreveu aquilo sem prever tamanha dimensão, que acha que nem todos devem ir para a universidade, além de criticar políticas afirmativas como o ProUni e comparar o Brasil aos Estados Unidos. Para continuar acompanhando este post que eu escrevo, vale a pena ler o que ela escreveu no blog dela.

http://blogdemirianmacedo.blogspot.com.br/2012/05/clareando-as-ideias.html

Eu li aquilo e não me contive, senti a necessidade de respondê-la através um comentário. Antes de enviar o que eu havia escrito, salvei o texto no meu computador, suspeitando que ela não aceitaria publicar alguma ideia que fosse de encontro ao que ela “prega”. E foi o que aconteceu. Para isso, publico aqui para vocês as palavras que eu escrevi a ela e que ela menosprezou. Talvez por perceber que eu tenho argumentos convincentes ou por eu ser negra e não merecer créditos. Não sei. Provavelmente não fui a única que foi “rejeitada” por ela, mas eu com certeza não vou ficar quieta diante de tamanha falta de respeito. Abaixo estão as minhas palavras.

Olá, Mirian. Acho o seu discurso muito bem construído, (parabéns pela retórica) mas não me convence. Diferente dos outros que você diz que leram apenas as suas oito linhas de racismo injustificável no outro post, fiz questão de encarar essas muitas linhas de visão fechada e retrógrada. O que mais me incomodou em tudo foi perceber a necessidade que você tem de provar que não é racista. (Não precisa tentar, a gente já sabe que é sim) Esta é a mesma necessidade que se vê em todo o Brasil. Já reparou? Todos querem mostrar que o país é igualitário, mas quem nunca sofreu preconceito pela cor da pele ou pela opção sexual não sabe que isso se trata de um mero discurso de inclusão, que segue os moldes da globalização que nunca atinge todos do globo.

Sou negra e me formo este ano pela PUC-Rio. Não entrei por cotas, mas entrei pelo ProUni. No meu primeiro período, uma professora repetiu o seu discurso: “Não vamos rebaixar a qualidade por causa de alunos de Enem”. E não rebaixaram. E não precisaram. Os alunos “de Enem” se apresentaram muito mais interessados em se destacar na universidade e conquistar o espaço que nunca tiveram. Tiraram notas boas, algumas ótimas, melhores até do que muitos dos pagantes brancos e de boa educação que não precisariam de cotas ou bolsas para entrar. E aí eu te pergunto: devem estes profissionais serem julgados pela oportunidade que tiveram?

Já não basta a dificuldade de terem estudado em colégios péssimos nos quais os professores faltavam sem nenhuma piedade? Não basta o esforço que foi feito para pagar a passagem para chegar de casa até a faculdade? (Já vi amigos faltando aulas por falta de dinheiro para o transporte). Vale realmente a pessoa se formar com honra, mérito, esforço e coragem para depois de 4, 5 ou 6 anos ouvir que NÃO merece ser levada a sério? Isso é um absurdo.

Não sou coitadinha, nunca fui. E não quero mesmo ser uma aqui. Consegui tudo com ESFORÇO e AJUDA, meu, da minha família e de amigos que viam que eu merecia e precisava. Acho que para o preto/pobre/excluído, as coisas ficam mais fáceis quando ESFORÇO e AJUDA andam juntas. A cota, o ProUni e as políticas afirmativas funcionam como essa ajuda que outras pessoas não poderiam ter como eu, felizmente, tive.

Se o ProUni não existisse, eu estaria estudando na UFRJ, na UFF ou na Uerj, afinal fui aprovada no vestibular de todas, em 2008. Na Uerj, entraria por cotas sociais. Na PUC, entrei através do ProUni. Se fosse no ano que vem, entraria em todas por cotas raciais. Mas será que isso muda a minha capacidade intelectual? Pergunto a você. Eu tenho certeza que não.

O que vale ressaltar é que não se pode comparar EUA e Brasil. São realidades totalmente diferentes, a começar por um preconceito assumido que existe lá e ainda nas diferenças entre o sistema universitário brasileiro e o norte-americano. Enquanto aqui, milhares se esbofeteiam por poucas vagas nas faculdades públicas, lá as universidades mais conceituadas são as particulares.

Não prevejo futuro e não posso – nem você – dizer que as cotas raciais serão um sucesso ou um fiasco. No entanto, acredito que qualquer política de inclusão é válida, contanto que não seja eterna. Estamos muito acostumados a reclamar do bom só porque ele não é perfeito, mas em se tratando de Brasil o bom é ótimo.

PS: Não me subestime. Eu sou negra e também sei clarear as ideias.

Eu sei que às vezes pode parecer que o racismo não existe mais, principalmente para quem está longe e não sente o cheiro dessa merda. Mas quem está perto sabe o quanto é fedorento e incomoda muito. Vamos trocar o “Preto não” pelo “Racismo não” e tentar diminuir o cheiro forte desta bosta.

 

 

 

Fonte: Viaduto Madureira

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