Reinvenção do futebol: bola e arte para vencer o racismo

Em comemoração ao dia da Consciência Negra, o jornal CORREIO lançou o caderno especial ‘BahiÁfrica – sonho presente’ que traz artigos envolvendo literatura, esportes e humanidades sobre o continente africano e o reflexo no nosso dia-a-dia e na Bahia. Confira na íntegra o artigo do doutorando em cultura e sociedade, Paulo Leandro.

Por Paulo Leandro, do Correio 24 Horas 

Getty Images

QUEM É ‘NEGRO’ NO FUTEBOL BRASILEIRO?

Este paper tem propositalmente seu título inspirado e até decalcado na tradução do título de um texto do pesquisador jamaicano Stuart Hal, referência para os estudos culturais. O objetivo é realizar uma transposição de algumas das idéias, conceitos e questionamentos de Hall, tomando como base uma manifestação da cultura popular brasileira, talvez a que mobilize um maior número de pessoas durante todo o ano e que a academia, antes avessa a temas tidos como de baixa cultura , vinha negligenciando, mas já se torna possível trabalhar em um ambiente de pós-graduação: o futebol.

Crianças brincam de bola no bairro de Batho, em Bloemfontein, África do Sul

 

Tendo como cenário este jogo importado da Grã-Bretanha em fins do século XIX, vamos pensar como se percebe o negro dentro deste ambiente. Antes de tudo, aproveitando ainda os ecos da discussão em classe orientada pelas professoras Eneida Leal Cunha e Florentina Souza, vamos pensar o negro não como um ser essencial ou essencializado.

Rejeitamos a idéia de considerar o negro pelo fenótipo, mas sim pela construção que se produz do afro-descendente ou afro-brasileiro com a bola no pé. O futebol é um cenário de como o jogo das culturas, a hegemônica e a popular, pode ser visto em uma constante disputa, na qual as apropriações, deslizamentos de sentido e interpenetrações levam a um resultado fugaz, em constante reconfiguração, a depender da relação de poder que advém da contínua refrega.

O esporte, como toda manifestação cultural, se constrói em um contexto híbrido, no sentido da impossibilidade de se determinar com exatidão os limites de uma e outra instância. O ‘nobre esporte bretão’, como o futebol era chamado nos primórdios, começou como alta cultura, praticada pelos brancos hegemônicos integrantes da burguesia.

O brinquedo caiu no gosto popular 3 quando a bola saía dos primeiros ‘fields’ e os negros pobres apanhavam o chamado ‘balão de couro’ do lado de fora e começavam a bater pontinho, como se diz do ato de manter a redonda equilibrada no ar, sem cair ao chão, enquanto a pessoa toca suavemente com o pé ou a cabeça, em lances sucessivos.

Era vedado aos ex-escravos e seus descendentes a delícia de jogar futebol. Quando o esporte, dentro do campo cultural, necessitou de difusão para se estabelecer, já não era possível deter a vontade desta população que era obrigada a se divertir no improviso de bolas de meia ou bexigas de boi costuradas com algum recheio para dar peso.

Como nova demonstração de como a relação entre culturas hegemônica e popular é intensa e móvel, foi um clube formado por pessoas de pele branca, o Clube de Regatas Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, quem se dispõs a contratar os primeiros negros.

Fundado e mantido por ricos portugueses emigrantes, o Vasco tornou-se popular ao rejeitar o racismo, enquanto, no mesmo período, os anos 1910/1920, o Fluminense Football Club, era ridicularizado pelos torcedores de outros clubes, com o apelido de ‘Pó-de-arroz’, ainda vigente hoje, por exigir que um jogador mulato chamado Carlos Alberto reduzisse a intensidade do tom escuro de sua pele, ao aplicar doses exageradas de talco, além de usar um gorro estratégico para esconder o cabelo impossível de pentear como o de seus colegas brancos do bairro classe média das Laranjeiras.

Em Salvador, neste mesmo período, o Esporte Clube Ypiranga acolhe artesãos, soldados, comerciários e estivadores negros: escandaliza a alta sociedade baiana do Corredor da Vitória, reduto dos primórdios do futebol baiano.

O resultado é uma crise que culmina na retirada do Sport Club Victoria, representante da alta burguesia, e o fim da primeira Liga de Futebol, chamada ‘Liga dos Brancos’, por alusão à cor da pele dos atletas pioneiros, jovens que resolveram fundar os times baianos para se opor às equipes formadas pelos ingleses, fechados em suas chácaras ou ‘cantonments’.

O primeiro ídolo do futebol baiano, como se convencionou chamar o jogador que se destaca em campo e é capaz de atrair torcedores, foi o negro Apolinário Santan a 5, um dos raros futebolistas homenageados com nome de rua, no bairro do Engenho Velho da Federação, um dos maiores agrupamentos de afro-descendentes de Salvador.

A fama de Popó Baiano, como era conhecido, ultrapassou as fronteiras da Bahia, por sua capacidade de realizar difíceis manobras com a bola nos pés, além de jogar em diversas posições das equipes em que atuou, com destaque para o Ypiranga, tido como o ‘clube do povo’, em conseqüência da adesão dos trabalhadores negros a sua torcida, a maior do Campo da Graça, estádio onde eram realizados os jogos.

O Vitória manteve-se oito anos afastado, por causa da ‘mistura étnica’, enquanto o Esporte Clube Bahia, fundado em 19316, sucede o Ypiranga como o time de maior apelo popular, e acaba por assumir a proposta de tornar-se multiétnico.

No plano nacional, neste jogo de concessões e avanços entre os negros em busca de afirmação e os brancos que se tornavam dirigentes dos clubes, prevalecendo no espaço social de poder, surgiu um craque reverenciado como o maior da época amadorista: Friedenreich, chamado de El Tigre, por sua garra, velocidade e senso de oportunismo.

Filho de uma cozinheira negra com um alemão, escondia o cabelo com uma touca para não deixar que sua etnia fosse reconhecida com facilidade, o que poderia contrariar o mito da eugenia da raça pelo esporte, muito em voga nesta época.

Nos anos 1930/1940, o principal craque do País é um negro, Leônidas da Silva, tido como o maior divulgador da acrobacia chamada ‘bicicleta’, lance espalhafatoso, típico do que se construiu como marca da afro-brasilidade.

A bola vem pelo alto, Leônidas se atira na horizontal, em pleno ar, e estica uma das pernas para a frente, enquanto a outra vem em seguida e alcança a bola com maior força, como se estivesse pedalando ao desafiar a gravidade.

Leônidas é rebelde e torna-se líder dos jogadores, na luta pela afirmação do profissionalismo no futebol. Por jogar apenas por dinheiro, é chamado de mercenário na imprensa e sua vida pessoal vira assunto constante, associado à etnia, como aquele ‘pretinho abusado’, que chegou a ser preso pelo Exército por falsificar a carteira de reservista.

Na busca por construir uma identidade para o País, ou buscar um perfil de nação, autores como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda tentam dar sua contribuição para identificar o que é Brasil.

No ambiente futebolístico, este papel é desempenhado pelo jornalista Mario Filho, autor de ‘O negro no futebol brasileiro’, um marco na literatura esportiva brasileira, por tentar reconhecer aos afro-descendentes o seu papel na construção da popularidade daquele jogo que já empolga multidões, cria um mercado consistente de produtos e serviços amparado por uma mídia crescente e ensaia dar sua grande contribuição para a construção de uma idéia do que é ser brasileiro.

Esta fantasia tem contra si o mito da mestiçagem como um traço de fraqueza, que o futebol ajudou a construir, graças às seguidas derrotas da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo.

O adolescente negro Pelé e o mestiço Garrincha, portador de uma deficiência física por ter uma perna maior que a outra, um herói que representava bem a idéia de um povo sofrido e ‘ misturado’ etnicamente, foram entronizados como os principais responsáveis por ajudar o Brasil a reforçar sua auto-estima e construir o sentimento de nação capaz de vencer suas dificuldades históricas.

A conquista das Copas de 1958 e 1962 fez o Brasil acreditar, como cantavam as multidões, que ‘com brasileiro não há quem possa’. O negro e o mestiço bateram os louros suecos, os branquíssimos russos e os pálidos franceses, além de terem reinventado o jogo que os ingleses exportaram para o mundo, na bagagem de seus construtores de estradas de ferro e das companhias de gás e energia.

As crônicas de José Lins do Rego, Mario Filho e de Nelson Rodrigue s 9 fortalecem no imaginário do brasileiro a proeza da ‘pátria em chuteiras’, enaltecendo a competência do negro.

Como problemática deste contexto sinuoso, o jeito peculiar de jogar mais alegre, criativo e artístico, associado aos negros, não permaneceu como exclusividade dos mais bem-dotados de melanina.

Os jogadores de pele mais clara também adotaram este estilo, como os exemplos extremos de Tostão, Rivelino, Zico e Falcão, exibindo-se de forma tão ‘negra’ quanto os craques pioneiros, no sentido cultural, prático, vivencial, construído durante os jogos, e não essencialista, de um ‘negro’ original, cuja atribuição criativa, artística, espetacularizada de jogar futebol seria determinada pela cor da pele.

Atualmente, já se observa a aceitação em larga escala, embora não sem ressalvas racistas, de jogadores africanos e brasileiros nos clubes e até seleções da Europa, como a da França, que ganhou a Copa de 1998 com a maioria de jogadores imigrantes de ex-colônias, fortalecendo outra perspectiva oferecida por Hall, quando defende que o pós-colonialismo continua ressignificando situações vivenciadas na época do domínio político dos países do centro do mundo sobre a periferia.

Para se ter uma idéia da expansão do negro nos campos eurocêntricos, grande parte dos contratados para a Liga dos Campeões da Europa deste ano é de países periféricos. O Brasil contribui com 103 jogadores, o que daria para formar 9 dos 32 times. Esta vitória do futebol-arte originalmente ‘negro’, em contraponto ao antes hegemônico futebol-força ‘branco’ da Europa não permite estabelecer com segurança, quem é negro e quem é branco.

O futebol demonstra que não há formas culturais puras: a fórmula é ‘uma e outra’ e não ‘uma ou outra’. Prevalece o hibridismo no espaço social em que os significantes vivem em permanente estado de reelaboração. O resultado é a vitória da diversidade sobre a idéia etnocêntrica de homogeneidade ou autenticidade do ‘negro’ ou do ‘branco’.

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