Guest Post »
Relação entre China e África caracteriza-se pela extração e predação – filósofo camaronês
Créditos da foto: Yves Krier/Divulgação

Relação entre China e África caracteriza-se pela extração e predação – filósofo camaronês

O filósofo e teórico político camaronês Achille Mbembe considerou hoje que a relação entre África e China se caracteriza pela “extração e predação”, defendendo que os africanos devem organizar-se para mudar a situação.

Do Diário de Notícias 

Achille Mbembe (Yves Krier/Divulgação)

“A relação que a China tem com África, neste momento, tem sido caracterizada pela extração e pela predação”, afirmou Mbembe, durante a II Cimeira Pan-africana, na Associação Cultural Moinho da Juventude, na Amadora.

Mbembe sustenta que a forma de alterar a situação passa pelo equilíbrio entre os dois lados.

“Isto irá mudar se formos capazes de estabelecer uma relação mais equilibrada entre as elites africanas e as pessoas, e se formos capazes de responsabilizar os proprietários” das empresas, disse Mbembe, acrescentando: “Cabe-nos organizarmo-nos para alcançarmos um ponto de viragem”.

O filósofo remete para o capitalismo a responsabilidade da atual situação.

“Isto sempre foi um grande efeito do capitalismo: extração e predação. Extração de corpos [escravatura], recursos naturais e extração da própria vida. O que temos testemunhado recentemente é uma intensificação destas práticas”, constatou Achille Mbembe

Ruth Wilson Gilmore, diretora do ‘Center for Place, Culture and Politics’ e professora de geografia na Universidade da Cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, defendeu por seu turno que a África não deve aceitar todas as ofertas oriundas da China.

“[África] deve evitar uma nova situação colonial (…) e não deve aceitar todas as ofertas de melhorias de infraestruturas e uma nova rota da seda em troca de recursos naturais para a China”, disse a professora norte-americana, defendendo, ao invés, um investimento “crucial” na educação e o afastamento das bases militares dos Estados Unidos da América.

O senegalês Mamadou Ba, da direção da associação portuguesa SOS Racismo e ativista dos direitos humanos, partilha a preocupação quanto à situação de hoje.

“A longo prazo, acho que a natureza da relação da China com África é insustentável, porque ela não pode copiar – e mal – o modelo predatório e de saqueamento das riquezas, porque as riquezas não são infinitas”, salientou.

Mamadou assinalou ainda a questão do ecossistema.

“A forma como a China lida com a questão africana é, em si, um problema para a sustentabilidade ambiental do planeta todo, porque o continente africano é um dos pulmões do mundo”, acrescentou.

Para o ativista, a solução passa pela sustentabilidade ambiental e na igualdade das relações entre os países.

“Tem de haver outra forma de relação entre China e África, e esta nunca poderá ser sempre à base da extração, tem de ser com base na sustentabilidade ambiental, mas também na equidade das transações bilaterais”, disse.

A China é um dos maiores parceiros comerciais de África tendo, desde 2015, uma média anual do investimento direto no continente fixada em 3.000 milhões dólares (2.500 milhões de euros), com destaque para novos setores como indústria, finanças, turismo e aviação.

Dados oficiais divulgados no mês de agosto, apontavam que a cooperação com Pequim deverá levar ao continente africano 30.000 quilómetros de autoestradas, uma capacidade anual portuária de 85 milhões de toneladas e uma capacidade de produção elétrica de 20.000 megawatts.

Quanto ao assunto principal da cimeira, o pan-africanismo, os três oradores salientaram a importância da luta pelo povo africano e descendente de africanos.

Ruth Gilmore acredita que o pan-africanismo está a crescer devido à pressão que os povos africanos têm sofrido.

“Julgo que o pan-africanismo está a crescer, porque as pessoas têm sido tão apertadas e isoladas que não há alternativa”, considerou.

Mbembe defendeu que um reagrupamento com base na história é a forma que os negros têm de alcançar maior segurança, uma vez que enfrentam “problemas existenciais” dada a falta de segurança.

“Não há lugares no planeta em que a vida dos negros esteja assegurada. Não conseguimos ir dormir hoje com a certeza de que amanhã vamos estar felizes e contentes”, afirmou o filósofo, que utilizou o argumento para salientar a importância de movimentos como o ‘Black Lives Matter’, criado para enfrentar a violência contra negros.

Artigos relacionados