terça-feira, julho 5, 2022
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Representatividade é para já

Como publicitária, me sinto particularmente afrontada com a lógica de comerciais e mensagens que não representam a população com a qual querem se comunicar

Por Luana Génot, do O Globo

Luana Génot. (Foto: Alex Cassiano/Divulgação)

Coisa mais fofa é o vídeo da pequena Maria, de 2 anos, vendo a jornalista Maria Júlia Coutinho na TV e falando: “Olha o meu cabelo aqui!”. Neurocientistas afirmam que, na primeira infância, ainda não temos o nosso cérebro completamente formado. Mas Maria já consegue se identificar e reconhecer que algo acontece quando vemos pessoas que se assemelham a nós. Lembro que, quando pequena, meu sonho era ser paquita. Mas só havia louras, e aquilo era um tapa na cara da minha autoestima.

Representatividade importa e muito para Maria e para todas nós. Nos dá a possibilidade de nos projetarmos em múltiplos espaços. Vale sempre lembrar que, em um país 55% negro, representatividade no mínimo proporcional não deveria nem ser uma questão. Celebramos Maju com orgulho, mas não era mais para contarmos o número de jornalistas negras com os dedos das mãos. Na publicidade, o mesmo se repete. Apenas 7% das campanhas são protagonizadas por mulheres negras, segundo pesquisa da Heads.

Trata-se de um tópico global. No México, mais de 80% da população tem a pele não branca como aponta o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi). No entanto, ver a atriz de origem indígena Yalitza Aparicio representando a Cleo como protagonista do filme “Roma” causou espanto. Caminhando pelas ruas dos bairros de Roma ou Condessa, quando estava na terra de Frida Kahlo, mulher bissexual com deficiência, mestiça, de mãe de origem indígena, sinceramente, mal pude ver propagandas com indígenas como protagonistas.

Como publicitária, me sinto particularmente afrontada com a lógica de comerciais e mensagens que não representam a população com a qual querem se comunicar. Acredito que, literalmente, o buraco é mais embaixo e precisamos questionar quem pensa e mantém esse padrão. Quando vemos Zozibini Tunzi, mulher negra sul-africana, vencer o concurso de Miss Universo, ganhamos mais um sopro de esperança. Mas também não podemos ser ingênuas.

A escolha de quem deve ser escalado para estar à frente de um programa de TV ou de uma campanha publicitária vai além da beleza ou da competência. É também uma escolha de quem deve ser representado ou não, e essa opção ainda é majoritariamente feita por pessoas brancas, que não querem abrir mão de seus privilégios.

O que muda na era digital é que exercer o papel de aliado agora está na ponta dos dedos. Há possibilidade de a sociedade como um todo, não apenas os negros ou indígenas, cobrar por espaços mais justos de representação. E isso já está acontecendo. Hoje, quando empresas divulgam os eleitos de seus processos seletivos e há apenas brancos causa-se um estranhamento. Pelo amor, pelo diálogo ou pela dor da exposição negativa, cabe aos subrepresentados e ainda mais aos aliados cobrarem daqueles que têm o privilégio da construção de narrativas o entendimento de que representatividade não é favor. E é para já.

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