Respeite sua jornada: olhe para dentro de si e perceba que você não está sozinha

Em sua nova coluna, Ísis Vergílio traz à tona as dores e delícia que viveu durante sua jornada, de bailarina e produtora cultural

Por  ÍSIS VERGÍLIO, da Revista Marie Claire 

Evento MC – Isis VergÍlio (Foto: Alexandre Virgilio)

Ano passado, desconsiderando o fator político que nos assombra neste momento, foi um ano de muitas realizações, de muito encontros potentes e de muitas conquistas. No entanto, durante a caminhada senti uma necessidade profunda de olhar pra dentro de mim e vi que essa caminhada não seria possível fazer sozinha. Foi então que tomei a decisão, e talvez a melhor decisão de 2018 e procurarei uma rede de psicólogas pretas para iniciar a tão sonhada, terapia.

Falamos sobre muitas coisas juntas, não somente sobre as angústias mas também sobre a vida em si, sobre quando eu era mais nova, sobre quando eu atuava como bailarina profissional e lembrei que esses dias compartilhei nas histórias do meu instagram um post que a página Obvious Agency soltou que dizia “Respeite a sua Jornada”.

Poucas pessoas sabem mas até premiada eu já fui quando atuava como bailarina profissional, aliás, poucas pessoas sabem que um dia eu fui bailarina profissional e conto isso com muito orgulho. Ganhei em um festival em São José dos Campos o prêmio de melhor intérprete do festival todo, não foi em uma categoria isolada. Eu arrasei! Viajei como bailarina para fora do país e quando comento isso com algumas pessoas, elas perguntam se era para sambar e, com todo respeito as passistas que também precisam de muito ensaio e técnica para seguir brilhando radiante na avenida, mas eu fazia dança contemporânea, ballet clássico com estudos em outras técnicas como o próprio Break e olha eu e minha irmã juntas éramos: A POTÊNCIA.

Quando me perguntam porque eu parei de dançar eu me questiono. Será que essa pessoa está no mesmo contexto de sociedade que eu? Aí lembro que infelizmente as pessoas não têm consciência do que significa ser mulher negra neste país. Abro um parênteses para dizer que me senti inspirada a escrever sobre isso depois que li “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” da magnífica Conceição Evaristo, pois logo no começo ela diz que em alguns momentos sente que as histórias que ela ouve se (con) fundem com a dela e por isso “quase” que a pertencem.

Sou eventualmente atravessada por histórias que poderiam ser minhas e conto na tentativa de fazer um exercício doloroso de revisitar lugares que me fizeram muito feliz mas que também provocaram uma enorme dor e cá estou, viva. Resolvi então escrever um pouquinho sobre isso pois quando me perguntam porque eu parei, esquecem de se questionar as razões que me levaram a parar. Logo quando fiquei grávida, no meio de 2009 para 2010 vivi o primeiro luto, uma gravidez que praticamente me enlouqueceu, eu passava muito mal, no nível desmaiar por conta da pressão baixa, honestamente, sem romance, foi zuado. Lembro das relações que mudam, daqueles que somem, daquela atleta que não consegue alcançar o nível da alta performance porque no final das contas o tempo passa e ficam aqueles que, por “escrotidão”, me questionam: “ Você tá sumida!”

Um casamento que ruiu e que o final foi uma grande merda, me vi deprimida mas sem tempo pra viver o luto, conheci todos os detalhes do que chamam de ‘fundo do poço’. Voltei pra casa dos pais e graças às deusas e aos orixás fui muito bem recebida e, num segundo momento, me reinventei.

Conto um pedacinho da minha história pra dizer que TODOS NÓS temos uma trajetória, não romantizo o sofrimento como vejo acontecer, muito por parte da grande mídia, pois eu sei e pude acompanhar o que significa ver inúmeros talentos, pessoas geniais, desistirem no caminho por falta de OPORTUNIDADE. Como diz minha amiga Djamila, oportunidades mudam vidas e, graças aos Orixás, eu tive muitas pessoas no caminho que me apoiaram para seguir neste caminho que estou agora que faz muito feliz, que me enche de tesão e vida que é de estar atrás dos palcos como uma produtora brilhante, maravilhosa e genial que sou. Falo de mim mesma dessa forma, pois quando olho pra trás e vejo onde estou sinto uma alegria enorme, sigo trabalhando para a construção de um mercado mais justo e com oportunidades dignas para as pessoas negras, em especial, as mulheres negras que de fato não soltaram a minha mão quando eu renasci. Não tem glamour, tem trabalho mas também tem descanso.

Passei as tão sonhadas férias em Manaus ao lado de pessoas incríveis e pude refletir em como sinto orgulho da mulher que reencontrei, pois ela já existia em mim, corajosa, inteligente, chorona, linda e acima de tudo integra e inteira. E que dois mil e dezenove seja de muita luta e resistência mas também de muito amor e afetos. Pois se cuidar, se amar, se conhecer e olhar pra si, é potente e revolucionário. Estou em um estado permanente de restituir a minha humanidade, não sozinha, mas coletivamente e trabalhando constantemente para isso.

Eu sou a Ísis Carolina, bailarina semi-aposentada e produtora cultural e quero ser reconhecida por isso. Dedico este texto a todas as mulheres negras em especial a minha irmã, Natasha Vergilio, bailarina, performer e uma grande sonhadora e como ela mesma diz, “O nosso corre é outro”, respeite a minha jornada.

Fecho com um fragmento da apresentação do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres  da maravilhosa Conceição Evaristo: “E, quando se escreve, o comprometimento (ou o não comprometimento) entre o vivido e o escrito aprofunda mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registrar estas histórias, contínuo no premeditado ato de traçar uma escrevivência.”

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