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Respeito

Fonte: Jornal Correio Braziliense – Coluna Opinião

A cor da pele já impede de achar trabalho, a roupa que você usa, o nome”, relata um branco de origem argelina, o casaco salpicado de tinta. “Não tenho trabalho, respeito, não tenho nada.

Os jovens revoltados na França prometem continuar “queimando tudo até serem respeitados”. Descartam motivações religiosas para os seus atos. O tripé em que eles se apóiam são: pobreza, discriminação racial e ausência de projeto para a vida. As manifestações que se espalharam pela França ecoam em outros países europeus, demonstrando potencialidade para se alastrarem, como um rastilho de pólvora no continente europeu e outros. A descrença no diálogo, no cumprimento das promessas pelos políticos fazem emergir as novas modalidades de enfrentamento. Um deles afirma: “Vou continuar queimando tudo. Tudo o que for do Estado, do governo ou de empresas vai ser queimado”. Outro confirma: “Se algum dia nos organizarmos, teremos granadas, explosivos e kalashnikovs”. Outro expõe o grau do dilaceramento que os consomem, considerando que as explosões são a única maneira que eles têm de se fazer ouvir.

A pretensão de ferir o poder com as queimadas esbarra no alcance real das ações. Elas terminam por atingir bens e pessoas das próprias comunidades excluídas. Eles explicam o paradoxo: “Não temos escolha. Estamos dispostos a sacrificar tudo, já que não temos nada”. O que se pode esperar do futuro do mundo quando, em toda parte, se encontram jovens e adolescentes que sentem que não têm mais nada a perder.

Entre as respostas do poder público francês à revolta destaca-se a do ministro do Interior do governo, para quem esses jovens constituem “escória” que ele se encarregará de “limpar”. Recebe como réplica dos revoltados a seguinte formulação: “Já que somos a escória, vamos dar a esse racista o que limpar com seu aspirador”.

No Brasil, grande parte dos jovens e adolescentes submetidos ao mesmo tripé da exclusão não teve tempo de “queimar tudo”. Rapidamente foram recrutados e alocados. Por meio de uma eficiente tecnologia higienista, foi-lhes dada uma função heróica e um futuro escrito nas estrelas e nas estatísticas de homicídio: são soldados do tráfico, cabras marcados para morrer.

Torram-se a si mesmos ou são queimados pela ação policial. Os que escapam dessa carreira se consideram sobreviventes até a próxima revista policial, até o próximo encontro com os mesmos, os manos que estão do lado de lá, até …. quem sabe. Culpados ou inocentes, o destino ou o tratamento em geral os classifica de escória, tanto para os órgãos de controle e repressão quanto para parcelas da sociedade brasileira.

Uma palavra comum aproxima os jovens de lá dos jovens de cá: a necessidade e o desejo de receberem respeito. Os de lá dizem que o conquistarão queimando tudo, os de cá dizem que sua garantia de respeito está no portar uma arma.

Em entrevista ao jornal Agora, o rapper Mano Brown, do Racionais MCs, falando sobre o desarmamento, expôs toda a desesperança que o referendo encerrava. É a frustração de quem, como ele, buscava sensibilizar as potenciais vítimas das armas de fogo a renunciarem ao seu uso. As respostas às suas pregações contrárias ao uso de armas mostraram os limites que uma realidade social cruel interpõe para os que buscam a paz social. Limites que o referendo esteve longe de atravessar. Para Brown, “o jovem da periferia vê na arma um instrumento para ascender na sociedade de alguma forma, de ganhar respeito, coisa que ele não conseguiria, ou não da forma que ele queria”.

A imagem usada por Mano Brown sobre o momento em que os jovens entram na vida social relembra a de gladiadores que são jogados na arena para travar uma batalha da qual sobreviverá o mais forte, mas somente e apenas até o próximo combate. Uma arena onde eles não vislumbram ao redor piedade ou compaixão. Onde a violência está inscrita como modo de construção da identidade, posto que dela depende a possibilidade de realização de expectativas que compõem, em especial, o imaginário que envolve a masculinidade, ainda que ao preço do encurtamento da esperança de vida.

Lutando contra esse atavismo, parcelas da juventude negra insistem no diálogo e na ação política organizada e pacífica junto ao poder público para reclamar o direito à vida. É esse o sentido da campanha de mobilização contra a violência racial sofrida pela população negra, que tem como lema “Reaja ou será Morta, Reaja ou será Morto”, cujo lançamento se deu em frente à Secretaria de Segurança Pública da Bahia com a “Vigília pela Vida”. Segundo apontam seus coordenadores, a média de jovens mortos nos bairros de Salvador é de sete a cada fim de semana. Documento foi entregue ao relator especial da ONU Doudou Diêne, denunciando a escalada de mortes que atingem os jovens negros, na sua maioria vítimas de grupos de extermínio nos bairros da periferia.

Seria bom que os nossos jovens fossem ouvidos e respeitados antes que, como afirma um dos jovens franceses em revolta, o seu pedido de socorro possa vir a adquirir o som de coquetéis molotov.

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