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Rodrigues Alves rebatia o racismo na porrada

Nos anos 80 troquei várias cartas (e dele recebi livro). Falo do saudoso líder negro Sebastião Rodrigues Alves, colega de juventude de Abdias do Nascimento, falecido quase centenário, há pouco tempo. Nos anos 30, em São Paulo, Abdias e Rodrigues Alves (como gostava de ser chamado, jamais de Bastião, uma forma de discriminação, achava ele) não levavam desaforo de branco racista para casa. Respondiam com golpes de capoeira. Certa feita, bateram num delegado que dera razão a um racista que os desacatara. Dele me aproximei, creio que por informação do amigo Alaor Eduardo Scisínio, que depois escreveria o “Dicionário da Escravidão”, único no mundo. Scisínio foi um dos apresentadores de seu modesto livro “Os Dez Brasis”, que chegou à 6ª edição. Com Rodrigues Alves aprendi que não poderia conhecer o nosso povo de origem afro se não estudasse os cultos afro-brasileiros. Mandou-me livros e bibliografia. Certa feita, em visita a seu fraternal amigo Abdias do Nascimento, em Buffalo, nos Estados Unidos, mandou-me livros sobre o negro nos Estados Unidos. Contei lhe que na minha meninice passava a metade do dia sob cuidados de Maria de Bastiãozinho, uma negra prendada, que morreu nonagenária e daí minha profunda simpatia pela raça negra, de tantos serviços prestados ao Brasil.

Quando andei pelo Amapá, pela segunda vez, num pequeno grupo na ANA (Associação dos Negros do Amapá), no Laguinho, acompanhado pelo piloto do Bandeirantes do Governo do estado, meu amigo Vandeler do Nascimento, falei sobre a obra de Eduardo Scisínio e de Sebastião Rodrigues Alves. Por pouco, no 13 de maio, não recitei A Dança, de Martins Fontes, na ANA. Através de Rodrigues Alves conheci o belo poema de Áttila Nunes sobre o candomblé: “Ma Lime Pra Janaina”, que certamente agradaria a Mário de Andrade e a Martins Fontes.

Rodrigues Alves falou-me, certa feita, sobre o negro no Brasil. Leiamos: Há segregação e racismo no Brasil? Fale sobre isso. (Consciência da Segregação do Negro?)

“O Branco, inconscientemente, outros conscientes, manipulam o negro e fomentam a discórdia, entre os próprios negros, para assim continuarem dominando, uma técnica antiga, que até hoje ainda dá bons resultados para os brancos. Com o artifício de que o negro está criando um “quisto racial”, para separar o negro do branco, que tem “todos os direitos” iguais aos brancos, assegurados na Constituição. Que ironia, eles nos segregam e nós é que estamos criando racismos. Cínicos demais!… Com as lutas travadas, os negros estão se conscientizando da sua situação.

Onde estão os ministros negros, os generais, os almirantes (a não ser o nosso negro almirante João Cândido). Onde estão os brigadeiros, os diplomatas num país de 70% de negros, mulatinhos, moreninhos?

Umbanda – Parece-me uma religião formada no Brasil, por uma seleção de valores doutrinários e rituais, eclodida da fusão dos cultos africanos acrescidos da pajelança.

Quimbanda – É um dos exercícios da atividade de umbanda, usando certos e determinados elementos. Há quem afirma que realiza, nos seus trabalhos, a magia negra.

Fale das divindades!

Iaô – Primeira iniciação, banho ritual de sangue animal que é derramado sobre a cabeça da iniciada.

Alufá – Nome que se dava às grandes divindades sacerdotais, quase extinta.

Orixás – Divindades intermediárias iorubanas. Na umbanda só oito. Os orixás são intermediários entre seu representante. No Brasil, os orixás foram sincretizados com os santos católicos, sendo também chamados santos.

Babalorixá – Chefe masculino de terreiro, sacerdote, que dirige as cerimônias, rituais da umbanda, são quase sempre popularmente chamados pai-de-santo.”

Rodrigues Alves teve seu livro “A Ecologia do Grupo Afro-brasileiro Ante o Serviço Social” prefaciado pelo célebre Roger Bastide. Em 1984, pouco antes de morrer, mandou-me seu livro “Sincretismo religioso”. Estavam, então, no prelo três livros: ” Canto à Amada”, “País dos Raulinos” e “20 Negros ilustres anônimos”. Vou escrever à dona Patrícia, viúva de Rodrigues Alves, para saber que destino deu a esses originais. Talvez o Ipeafro tenha interesse em publicá-los.

 

Fonte: Jornal de Beltrão 

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