Clubes e Associações de Afrodescendentes na Florianópolis das décadas de 1930 e 1940

Maria das Graças Maria
No Natal de 1933, um grupo de amigos moradores da Rua Chapecó, na Agronômica, decidiu fundar um clube recreativo ao qual deram o nome de União Recreativa 25 de Dezembro. O ato da fundação partiu de Ramiro Farias, natural de Alto Biguaçu. Ele e Tertuliano Fernandes, procedente do Paraná, buscavam um espaço onde pudessem se divertir sem que tivessem que se deslocar para outros bairros.

Nicomedes Ferreira contou em entrevista: “Da primeira diretoria do 25 de Dezembro participaram, além daquele grupo de amigos que fundaram o clube, Epaminondas, Vicente de Carvalho, o primeiro presidente, José Capistrano, o tesoureiro e Leovegildo Luiz da Silva, o secretário”.1 Eram todos afrodescendentes, e o clube foi, durante muito tempo, espaço exclusivo de diversão da população afrodescendente, onde não era permitida a entrada de pessoas brancas na pista de dança. Brancos, só no bar.

Fernando Henrique Cardoso e Octávio Ianni, no livro Cor e Mobilidade Social em Florianópolis, usaram os clubes como espaços privilegiados para estudar as relações raciais na cidade. Em entrevistas com habitantes afrodescendentes, todos já mais velhos durante a pesquisa de campo que conduziram, em meados da década de 1950, Cardoso e Ianni apuraram que houve uma sequência quase ininterrupta do que chamaram “clubes de negros e mulatos” desde a abolição da escravidão. Mas destacaram que a única tentativa de fundar um clube que congregasse o que classificaram como brancos, mulatos e negros foi fracassada: fundado no morro do Chapecó, na Agronômica, o Aimoré Recreativo Esporte Clube teria durado poucos meses. Entre os motivos
alegados em entrevistas aos sociólogos paulistas, o fato de que as moças consideradas brancas não aceitavam dançar com os rapazes considerados mulatos ou negros. Isso teria sido em 1933 e ainda era lembrado com detalhes em 1955. Dessa experiência frustrada teriam nascido a União Recreativa 25 de Dezembro e o Clube Recreativo Concórdia. Do 25 de Dezembro, Cardoso e Ianni testemunharam: “Esse clube de negros e mulatos, aliás, é dos melhores organizados da comunidade, entre aqueles elementos de cor. Mantém as mesmas normas rígidas estabelecidas na década de 30, quando foi fundado. Não aceita brancos como sócios; apenas visitantes, que são autorizados a fazer gastos no bar, mas não dançar”.2

Este capítulo busca reconstituir a história da fundação e do funcionamento de dois desses clubes recreativos que congregavam segmentos das populações afrodescendentes de Florianópolis nas décadas de 1930 e 1940. Baseia-se numa pesquisa mais ampla, que teve por objetivo analisar as experiências cotidianas das populações afrodescendentes e a constituição de seus territórios na cidade de Florianópolis nas décadas de 1930 e 1940. Através das atas de reuniões das diretorias dos clubes, da memória oral de seus integrantes e familiares e também através de fotografias, pudemos perceber o caráter multirracial impresso à cidade. Esta era marcada pelo preconceito racial, que se refletia na segregação dos espaços, verdadeiros territórios étnicos marcados pela interdição silenciosa, onde as diferenças étnicorraciais definiam os lugares de cada grupo. Os clubes são espaço privilegiado para essa observação.

A constituição de “territórios negros” em Florianópolis

A Florianópolis do início do século XX foi, assim como outras capitais brasileiras, palco de políticas públicas que resultaram na espacialização da pobreza na cidade. Em nome da higienização, do saneamento e da modernização, reformas urbanas afastaram as camadas populares de áreas que historicamente ocupavam. As evidências disso são o gradual embranquecimento dos espaços centrais das cidades e a formação de bairros populares periféricos desprovidos de infraestrutura urbana. Esse processo estabeleceu inúmeras barreiras que dificultaram a ascensão social das populações pobres, predominantemente de origem africana, impedindo também que gozassem de direitos fundamentais como educação, moradia digna, saneamento urbano, transporte público, assistência médica etc. A maioria dos afrodescendentes naturais da cidade ou migrantes que passaram a habitar os morros da cidade, tanto na Ilha quanto no continente, desde o início do século XX, viviam em condições precárias e em situação instável, uma vez que todos os investimentos em infraestrutura eram canalizados para os bairros onde residia a população mais abastada.

O senhor Ramiro Farias teve que desmatar e abrir a Rua Chapecó, quando se instalou lá, na década de 1930. Seu filho Romélio lembrou que o pai tinha sido o primeiro morador da rua e que ficou conhecido entre seus colegas de trabalho como “negro do mato”,3 de tanto mato que havia na região onde morava – hoje, o bairro da Agronômica. Ramiro trabalhava na estiva, na Standard Oil Company, ali instalada. Também trabalhou na construção da penitenciária e na empresa de Carl Hoepcke, mas logo que chegou à cidade, era empregado na casa dos Wendhausen, onde capinava, plantava e tratava de negócios na rua.

Os poderes públicos se manifestavam exercendo políticas de controle sobre os cidadãos. O trabalho, por exemplo, passou a ser um dos valores exigidos como distintivo de cidadania. A construção do ideal de homem brasileiro ocorreu num contexto político-ideológico no qual as diferenças raciais eram escamoteadas, acentuando ainda mais a invisibilidade dos não brancos. Com poucos recursos financeiros disponíveis, pois haviam abandonado seus locais de origem à procura de trabalho na cidade, os trabalhadores afrodescendentes viveram em Florianópolis as tensões comuns do meio urbano: desemprego, subemprego, discriminação e preconceito racial. A disputa no mercado de trabalho formal era acirrada e nela, saíam em desvantagem. Esse problema foi ainda maior para as mulheres afrodescendentes e pobres. Apesar de algumas terem exercido as mais diferentes atividades na cidade e outras terem se destacado, ocupando posições como educadoras ou cargos políticos, como Antonieta de Barros – a primeira deputada estadual de Santa Catarina –, a maioria delas encontrou nas atividades informais a sua única fonte de renda.

O trabalho doméstico era muito comum, porque as famílias mais ricas buscavam mulheres no interior e davam preferência às afrodescendentes para trabalhar em suas casas. Dialtina da Silva, residente em Alto Biguaçu esteve entre os migrantes que vieram do interior para se estabelecer em Florianópolis, como empregada doméstica. A senhora Marcolina Farias, esposa de Ramiro Farias, era parteira. E foi com essa atividade que passou a compor a renda familiar, ao lado do marido.

Como lembrou sua filha, ela sempre era chamada para atender as mulheres da redondeza; às vezes, recebia em cortes de tecido ou outros produtos de quem não podia pagar em dinheiro. Destaca-se ainda que muitas mulheres, mesmo sem sair de casa, trabalhavam como engomadeiras, lavadeiras, costureiras, bordadeiras, atividades que acumulavam com o cuidado dos seus familiares. Muitas se serviam dos recursos que obtinham a partir destas atividades para investir na educação escolar de seus filhos.

Foi nesse contexto que as populações de origem africana da cidade construíram seus espaços de sociabilidade, sendo sempre marcados por uma pluralidade de práticas socioculturais, que imprimiam a determinados lugares o perfil de territórios negros. Locais de práticas religiosas, como terreiros de umbanda, eram espaços privilegiados de convivência para afrodescendentes. No entanto, tais práticas sofriam perseguição por parte da polícia, criminalizadas da mesma forma que os jogos de azar e a prostituição. A ialorixá Malvina, dirigente de um centro de umbanda no bairro do Estreito, sofreu inúmeras perseguições e punições da polícia, sendo frequente presa por conta do exercício das práticas religiosas. Locais de culto católico, blocos carnavalescos, escolas de samba e clubes recreativos também constituíram territórios negros. Agora, voltemos aos clubes.

A sociabilidade segregada

Uma das memórias mais marcantes entre os entrevistados é a do footing na praça XV de Novembro. Footing, na língua inglesa, significa andar, caminhar, e era muito usada nas décadas de 1930 e 1940 para definir o tipo de passeio confinado a um lugar específico. Era lugar de encontros, de troca de olhares, de namoros. Maria do Espírito Santo, com 82 anos na época da entrevista, nasceu em Florianópolis na década de 1930; contou que quando ainda era solteira, costumava frequentar o footing da Praça XV, onde muitas vezes, segundo ela, arrancava suspiros de admiração dos moços, por sua beleza. Ela comentou que recebia muitos galanteios: “No Carnaval eu sempre namorava homens brancos, depois eles queriam continuar o namoro e eu dizia: acabou, foi só no carnaval, tu foste a minha fantasia”.4

A palavra provavelmente guardava um duplo sentido: não só o namoro era fugaz e descartável como uma fantasia de carnaval, mas também era percebido como incompatível com a realidade. O footing foi a expressão mais explícita da presença dos territórios étnicos nas cidades e da divisão e hierarquização espacial e social no contexto urbano. Representava a construção de espaços públicos de sociabilidade no centro da cidade, tendo a rua como palco da discriminação e do preconceito social, porque constituiu territórios distintos para acaminhada de brancos, afrodescendentes, pobres e ricos.

Conforme lembram alguns entrevistados, como  Guilherme Silveira, da Rua Felipe Schmidt até a frente da Confeitaria do Chiquinho, esquina com Rua Trajano, ficavam os jovens da elite branca. Da rua Arcipreste Paiva, ao lado da Catedral, passando pela calçada da Praça XV de Novembro e pela calçada do Palácio do Governo, em direção à praça Fernando Machado, circulavam os jovens afrodescendentes, enquanto a parte interior da Praça XV era o lugar destinado às jovens prostitutas. Era a expressão da sociedade social e racialmente hierarquizada.

A separação também se verificava nos clubes. Os habitantes do Morro do Chapecó tinham, a partir de 1933, dois clubes. Mas participar dos bailes de um ou outro não era uma escolha individual. Como vimos, no salão de baile do 25 de Dezembro, só entravam aqueles identificados como “negros” ou “mulatos”. O Clube Recreativo Concórdia, fundado na mesma época, era espaço de entretenimento exclusivo para aqueles considerados “brancos”. Maria do Carmo de Souza, associada do 25 de Dezembro, lembrou no seu depoimento: “No meu tempo de 25, os brancos não podiam entrar, se entrassem dava briga. Cada um no seu clube.

E no Concórdia, a gente só podia espiar os bailes do lado de fora”.5 Os critérios utilizados pelo 25 de Dezembro para regulamentar a entrada de brancos demonstram que as normas vigentes no clube respondiam a práticas presentes nas relações cotidianas. Como reações ao racismo que sofriam no cotidiano da cidade, os integrantes do clube adotavam uma postura política ao redefinir o espaço do clube como exclusivo de não brancos. Tal postura conferia a eles identidade étnicorracial, dando singularidade e garantindo a visibilidade daquele território negro.

O Clube Recreativo Brinca Quem Pode foi constituído a partir do bloco carnavalesco que tinha o mesmo nome, também em meados da década de 1930. Olga, ex-rainha do Brinca e também ex-secretária, lembrou em entrevista que “a sede do clube estava localizada na Rua Conselheiro Mafra, no Centro, próxima ao jornal O Estado.”6 Assinalou que, mais tarde, “o clube se transferiu para uma sede própria, construída onde era, à época da entrevista, o Clube dos Motoristas, na Avenida Tico-tico, atual rua Clemente Rovere, próxima ao Instituto Estadual de Educação.”7

Ela lembra que o nome do governador Nereu Ramos estava inscrito nas pilastras do clube, possivelmente por ter dado apoio à construção e manutenção da associação. A sede teria sido mais tarde hipotecada.

Algumas memórias indicam que havia circulação entre os frequentadores dos dois clubes, e que as experiências pessoais contribuíram para dar significados renovados àqueles espaços. O jovem casal Guilherme e Adalgisa, por exemplo, se conheceram num baile no 25 de Dezembro. Foi ele que lembrou: “Eu costumava ir sempre ao 25 de Dezembro, e ela no Brinca Quem Pode. Um dia, Adalgisa resolveu dançar no 25 de Dezembro, nos conhecemos, namoramos e acabamos casando. Naquele lugar tinha muitas moças, mas foi ela que eu mais gostei para casar”.8

Ao contrário da União Recreativa 25 de Dezembro, o Brinca Quem Pode não impedia a entrada de brancos, apesar de seus frequentadores serem, na maioria, afrodescendentes. A presença do governador Nereu Ramos no clube era frequente, principalmente nos bailes de gala. Isso refletia os laços políticos existentes entre o governo e a diretoria: José Ribeiro dos Santos, presidente do clube, era filiado ao Partido Liberal Catarinense, do qual o chefe do executivo era fundador e primeiro presidente. José Ribeiro era mecanógrafo (técnico de máquinas de escrever e calcular), foi técnico de futebol e o primeiro vereador negro da cidade.

A presença do governador numa sociedade recreativa que não era local de frequência dos membros da elite branca da cidade era principalmente motivada por questões político-partidárias. José Ribeiro Santos, como presidente do clube, provavelmente agia como cabo eleitoral de Nereu Ramos e angariava favores pessoais, ao mesmo tempo em que agia em defesa daquele espaço de maioria afrodescendente diante do poder público.

A criação de associações beneficentes e recreativas com recortes espaciais (associações de bairro), laborais (grêmios de trabalhadores) ou étnicos (clubes das comunidades imigrantes, por exemplo) foi muito comum nas décadas de 1930 e 1940. Mas os rótulos enganam. Os clubes recreativos são a demonstração incontestável da diversidade dos sujeitos históricos que conviviam naqueles espaços e viviam naquelas comunidades. O rótulo “clubes e associações negros” não dá conta da complexidade das experiências vividas por seus integrantes.

Papéis masculinos e femininos?

A diretoria executiva dos clubes era toda constituída por homens afrodescendentes e as reuniões semanais eram por eles presididas. Como veremos adiante, as mulheres representavam a “ordem” e a “moralidade” nos espaços do clube, através das funções do grêmio feminino, mas nunca integravam a diretoria. Silvio de Souza, presidente do 25 em várias gestões, comentou que “desde a sua fundação, até mais ou menos a década de 60, a diretoria do 25 de Dezembro era composta só de negros. [Era] o único clube da cidade que tinha uma diretoria só de homens da raça”.9

Apesar da importância da atuação das mulheres do grêmio feminino, a organização e a direção destas entidades estava sempre sob o controle dos homens. Não só as atas das reuniões como também os registros fotográficos demonstram a liderança masculina, reflexo dos valores dominantes no imaginário social, no qual a dominação sexual continuava a ser exercida da forma tradicional, impondo forte discriminação contra a atuação pública das mulheres.

As construções de gênero reforçavam ainda mais as desigualdades que, no espaço dessas sociedades recreativas, se configuravam principalmente nas atribuições de cada grupo sexual. Os homens negros exerciam as práticas sexistas tais quais os homens brancos. Se os homens e mulheres de ascendência africana, juntos, eram alvos de preconceito racial, nas relações sociais cotidianas, esses sujeitos não diferiam dos modelos de dominação masculina branca. Porque, como diz Fátima Oliveira “o problema é que antes de ser discriminado racialmente, o homem negro faz parte do gênero masculino, portanto devidamente adestrado para a prática da superioridade”.10

No interior dos clubes citados, mulheres e homens afrodescendentes viveram as mais diversificadas funções, e não caberia identificar se tais funções obedeciam aos papéis sexuais tradicionais, uma vez que nem sempre as atividades atribuídas oficialmente às mulheres nesses espaços de sociabilidade foram, na prática, o que elas realmente exerceram. Como apontou Joana Maria Pedro, “as mulheres negras vivenciaram em muitas ocasiões papéis que não eram associados a seu gênero, pois assumiam a manutenção da casa, a guarda dos filhos na ausência de um companheiro e o desempenho de trabalhos que entre a população branca eram exercidos por homens.”11

Nos clubes e associações, elas destacaram-se principalmente pela participação nos grêmios femininos, servindo como apaziguadoras ou procurando angariar certa respeitabilidade, o que permitiu a valorização daqueles territórios perante a comunidade.

Olga, secretária do grêmio feminino do Brinca Quem Pode, teve sério conflito com José Ribeiro, diretor da entidade, quando não permitiu que um tenente do exército trouxesse sua empregada para dançar no clube: Uma vez não sei se era major ou tenente do exército, que tinha uma empregada mocinha bonitinha (…) Eu era secretária do grêmio feminino do Brinca e vieram me dizer que ela não podia entrar (…) apesar de ele dizer para todo mundo que ela era sua afilhada (…) Mandei chamá-la lá e barrei a entrada dela (…) Ele disse: “Ela pode dançar, e ela vai dançar”. Eu: “Duvido que ela vai dançar, só se passar por cima de mim”. E depois de muita discussão o presidente do clube disse: “Ela vai dançar só por hoje”. Eu disse: “Não senhor. Lei é lei. Nós somos a lei, ela não pode dançar”. Ele era casado e a moça, empregada dele. Ela era mulata, e ele era branco.12

O conflito entre secretária e presidente do clube revela que algumas mulheres assumiam o poder, ainda que temporariamente, apoiando-se nos estatutos e contrariando as regras da dominação masculina. As mulheres também atuaram em atividades promocionais nos momentos de crise financeira, para efetuar, por exemplo, o pagamento das orquestras que “abrilhantavam” os bailes. As mulheres afrodescendentes exerceram uma pluralidade de papéis, no entanto, isso não as levou a conquistas que representassem mudanças na hierarquia sexual naquele espaço.

Isso fica evidenciado nas histórias das muitas mulheres eleitas rainhas e princesas para representar aquelas sociedades recreativas, tornando-se parte da história daqueles territórios negros. Se, por um lado, o ritual da coroação era motivo de vaidade, envolvendo as moças eleitas e os seus familiares, todas aquelas festividades também ocultavam posturas sexistas. Ao lado da rainha, havia também as princesas. A primeira rainha de 25 de Dezembro foi Maria do Espírito Santo Ferreira, eleita duas vezes consecutivas. Foi eleita com 50 votos, num total de 60 votos. Na época, não havia coroação. Foi somente a partir da terceira rainha que as candidatas eleitas passaram a ser coroadas. Os bailes de coroação das rainhas eram momentos de destaque, quando as pessoas usavam trajes formais, de festa. Era comum a escolha da rainha ocorrer diante de um corpo de jurados; outras vezes, as candidatas recebiam do clube blocos para vender votos, e quem vendesse o maior número seria a eleita. Isso envolvia toda a família que queria que suas filhas recebessem os títulos. Exibia-se a beleza das mulheres que, como rainhas, passavam a ser os ícones do clube; no entanto, as discriminações sexistas permaneciam, e a coroação como rainhas da beleza reforçava ainda mais as construções de gênero. O título não modificava estas relações na prática cotidiana, pelo contrário, reforçava-as. Porém, tais mulheres ajudavam a promover a visibilidade do clube na cidade e em outros lugares. Era comum, por exemplo, a rainha visitar outros municípios do estado, em festividades que envolviam outros bailes de coroação.

Normas de conduta

Através de grêmios femininos como o Flor de Maio, fundado em 1934 (no 25 de Dezembro), as mulheres exerciam a função específica de fiscais de salão, guardiãs da ordem, cujo principal objetivo era a constante vigilância sobre os casais durante os bailes. Era proibido aos casais beijarem-se no salão. Também era proibido dançar embriagado. Além disso, as moças solteiras não podiam sair acompanhadas de homens que não fossem da sua família, mesmo que fossem seus namorados. Era comum, naquele tempo, que as mulheres solteiras andassem acompanhadas de mulheres mais velhas, dentro e fora dos clubes. Era assim quando Olga foi secretária do Brinca Quem Pode, conforme lembrou em entrevista.

Esse controle do comportamento feminino em nome da moralidade não recaía apenas sobre as mulheres afrodescendentes, era comum também para as mulheres brancas, refletindo os valores morais dominantes à época. Ao defender a moralidade dentro do clube, as fiscais e todos os frequentadores estavam fazendo uso dos seus valores culturais, presentes no seu contexto histórico. A honra familiar dependia do comportamento das mulheres, da manutenção da virgindade até o casamento, da fidelidade ao marido, da obediência ao papel de mãe-esposa dedicada.

As atas das reuniões da União Recreativa 25 de Dezembro são reveladoras de ocorrências de controle do comportamento feminino, tal como o acontecido em 1949: Com a palavra, o membro da comissão trazendo ao conhecimento o inconveniente para a sociedade, com o afastamento do recinto social antes da hora do término do baile, fazendo-se acompanhar por cavalheiros não previstos no quadro, no que se refere às senhoritas: Zilá Maria, Osvaldina de Tal e Elizabete Penedo. O presidente expôs o assunto ao critério da mesa e a mesa resolveu a seguinte punição: chamá-las a atenção para a repreensão e avisá-las que acham-se suspensas por um baile e, se continuar assim procedendo, a diretoria tomará outras medidas”.13

No caso das associações recreativas integradas e frequentadas por afrodescendentes, essa vigilância sobre o comportamento de seus membros era também uma forma de construir respeitabilidade e garantir a existência do território negro, uma
vez que os estereótipos desqualificavam as populações de ascendência africana e seus valores culturais como “incivilizados”, desordeiros e promíscuos. Demonstrar respeitabilidade era uma estratégia das populações afrodescendentes contra a discriminação racial não apenas em Florianópolis, mas em todo o Brasil e mesmo nos Estados Unidos, onde o preconceito era institucionalizado.

Os participantes das associações recreativas partilhavam da preocupação com a respeitabilidade e, assim, impunham obediência a comportamentos de “moralização” no espaço dos clubes e nas ocasiões festivas da comunidade. Além de fiscalizar o comportamento dos frequentadores das festas, as mulheres do grêmio garantiam que todos estivessem decentemente vestidos. O bem vestir fazia parte das normas das associações recreativas e era expressão de distinção para as pessoas que frequentavam o 25 de Dezembro e o Brinca Quem Pode. Os cuidados com o traje nas dependências dos clubes revelam outra forma de controle, para a manutenção de boas normas de convivência e respeitabilidade. Os integrantes, quando entrevistados, lembravam dessas normas como uma forma de resistência aos estereótipos que costumavam representar o negro sujo e malvestido, desqualificando a estética das populações de ascendência africana. Por outro lado, as pessoas também eram atraídas pelo impacto da moda, porque viviam num contexto urbano em que o padrão de bem vestir era um dos critérios que lhes conferia status e dignidade. Mesmo as pessoas com baixo poder aquisitivo procuravam trajar-se dentro dos rigores da moda. Os registros fotográficos da época evidenciam o bem trajar das mulheres e homens negros. Os depoimentos registrados também deixam perceber o valor social de tais questões: Maria do Espírito Santo, ex- rainha do 25, contou que sua mãe gostava de se vestir com veludo, seda e também usava chapéus. Rogério Farias enfatizou a importância do uso do terno como traje convencional masculino: “Nos bailes de gala do clube 25 de Dezembro, só era permitido dançar de terno”. 14

Em relação ao Brinca Quem Pode, Olga (secretária do grêmio feminino) lembrou: “Não era qualquer negro que entrava no Brinca não. Os homens tinham que dançar de sapato engraxado ou envernizado. Não podiam dançar em manga de camisa. Nos bailes, as mulheres só podiam dançar de vestido comprido. Quando não ia de vestido comprido, não dançava. E os homens, de terno azul marinho”.15

Os valores socioculturais interferem nas relações estabelecidas entre os sujeitos históricos sejam eles identificados como brancos ou afrodescendentes. Adotar valores da elite branca significava, para as populações afrodescendentes, uma estratégia de busca de convivência e sobrevivência. Ainda assim, as relações entre mulheres e homens afrodescendentes e deles na sociedade foram permeadas por muitos conflitos, dentro e fora daqueles territórios. Nas décadas de 1930 e 1940, a censura governamental atuava de forma implacável sobre as mais diferentes atividades culturais. Os afrodescendentes e seus territórios étnicos, pela sua diversidade cultural, tornaram-se o principal alvo de tais políticas reguladoras que, aliadas ao preconceito racial vigente, promoviam a desvalorização social destas populações ao desqualificar as suas práticas culturais. Expressões como algazarra, bagunça, intriga e embriaguez eram atribuídas às atitudes dos afrodescendentes. A ata de uma reunião da diretoria do 25 de Dezembro em 1949 testemunha essa preocupação: “De pé, com a palavra, o senhor presidente dá ciência à mesa de que havia feito um apelo aos associados e frequentadores desta sociedade sobre o comportamento na saída dos bailes, devido a intrigas e algazarras que perturbam o silêncio público”.16

Vê-se como as normas reguladoras desses territórios negros eram plenas de ambiguidades, porque, paralelamente ao controle que exerciam sobre os associados, as sociedades recreativas também representavam formas de defesa dos associados contra arbitrariedades e ingerência dos poderes públicos.

Considerações finais

Os clubes União Recreativa 25 de Dezembro e Brinca Quem Pode, fundados na década de 1930, foram espaços onde as populações afrodescendentes puderam expressar emoções, gestos, ritmos e estabelecer uma diversidade de relações que revelam histórias marcadas por conflitos de gênero, raciais, culturais, políticos, e socioeconômicos. Para além da cidade representada nos discursos, imagens e textos oficiais, as populações afrodescendentes construíram outras histórias, definiram outros espaços e revelaram outra imagem de Florianópolis. Os clubes, além de espaço de lazer, foram palco de acontecimentos diversos, como espaço político, de expressão, ressignificação de culturas, construção da identidade e conflitos étnicos. Tais sociedades foram também lugares de memória, nos quais foi estabelecida uma multiplicidade de relações; e nos quais uma pluralidade de poderes e tensões se configurou, a partir do estabelecimento das normas e códigos de “moralidade”, que conferiam àqueles territórios perfis muito singulares.

As experiências que alguns segmentos das populações afrodescendentes viveram no interior daquelas entidades constituíram histórias que foram sendo tecidas a cada evento promovido por elas. As atas das reuniões forneceram alguns fragmentos da ação daqueles sujeitos históricos. Os acontecimentos que ficaram registrados na memória oral permitiram pensar a composição dos territórios. O clube foi, acima de tudo, um espaço onde as populações afrodescendentes do Morro do 25 ou do Tico-Tico puderam se expressar num contexto urbano específico.

Naqueles territórios, verdadeiros arquivos de história, foi possível perceber uma diversidade de papéis entre as mulheres afrodescendentes, demonstrando que as construções de gênero marcaram as relações sociais no interior dessas comunidades e também das sociedades recreativas. As normas de conduta nos clubes representavam, acima de tudo, as práticas políticas que nortearam a organização desses lugares e faziam parte das estratégias de luta pela manutenção desses territórios. Alguns deles podem ser configurados como lugar de luta contra a discriminação e o racismo, antes da institucionalização do movimento negro nas décadas posteriores. Que aquele território da antiga Rua Chapecó seja hoje conhecido como Morro do 25 é testemunho da vitória daqueles que, no Natal de 1933, fundaram o clube, e de todos os que lutaram para a consolidação desse e de outros territórios como espaços de recreação, mas também de construção de cidadania, reinvenção de tradições e ressignificação de identidades, das práticas culturais, da luta contra o preconceito racial e a segregação espacial vivida entre as populações afrodescendentes em Florianópolis.


Fontes primárias
Entrevistas (acervo da autora)
Guilherme Silveira, 70 anos, dezembro de 1995.
Nicomedes Ferreira, 83 anos, novembro de 1994.
Maria do Carmo de Souza, setembro de 1995.
Romélio Farias, filho de Ramiro e Marcolina Farias, novembro de 1996. Raulina Farias, filha de Ramiro e Marcolina Farias, dezembro de 1995. Silvio de Souza, novembro de 1994.
Olga (sobrenome não registrado), novembro de 1996. Maria do Espírito Santo Ferreira, dezembro de 1995.
Acervos documentais
Acervo da União Recreativa 25 de Dezembro. Atas da sessão da diretoria da União Recreativa 25 de dezembro, de 1949.
Referências Bibliográficas
CAMPOS, Cynthia Machado. Santa Catarina, 1930: da degenerescência à regeneração. Florianópolis: Editora da UFSC, 2008.
CARDOSO, Fernando Henrique & IANNI, Octávio. Cor e Mobilidate Social em Florianópolis. São Paulo: Nacional, 1960.
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A Luta Contra a Apathia: Estudos Sobre a Instituição do Movimento Anti-Racista na Cidade de São Paulo (1915-1931). Dissertação (Mestrado). PUC/São Paulo, 1993.
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco e MORTARI, Cláudia. Territórios negros em Florianópolis no século XX. In: BRANCHER, Ana. História de Santa Catarina: estudos contemporâneos. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1999.
CORADINI, Lisabete. Praça XV: Espaço e Sociabilidade. Florianópolis: Letras Contemporâneas, 1995.
CUNHA, Olívia G., GOMES, Flávio S. (eds.). Quase Cidadão: Histórias e Antropologias da Pós-Emancipação no Brasil. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2007.
MARIA, Maria das Graças. Imagens Invisíveis de Áfricas Presentes: experiências das populações negras no cotidiano da cidade de Florianópolis (1930-1940). Dissertação (Mestrado). UFSC/Florianópolis, 1997.
OLIVEIRA, Fátima, et alii. A mulher negra na década: a busca de autonomia. Caderno Geledés, no 05 (1995).
PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de classe. Florianópolis: Editora da UFSC, 1994.
______. Relações de gênero na pesquisa histórica. Revista Catarinense de História, Florianópolis, v. 2, p. 35-44, 1994.
VEIGA, Eliane Veras da. Florianópolis: Memória Urbana. Florianópolis: Editora da UFSC/Fundação Franklin Cascaes, 1993.
1 Entrevista concedida à autora por Nicomedes Ferreira (83 anos), em Florianópolis, novembro de 1994.
2 CARDOSO, Fernando Henrique & IANNI, Octávio. Cor e Mobilidade Social em Florianópolis. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1960. p. 180.
3 Entrevista concedida à autora por Romélio Farias, em  novembro de 1996.
4 Entrevista concedida à autora por Maria do Espírito Santo Ferreira, primeira rainha da União Recreativa 25 de Dezembro, em Florianópolis, novembro de 1994.
5 Entrevista concedida à autora por Maria do Carmo de Souza, em Florianópolis, setembro de 1995.
6 Entrevista concedida à autora por Olga, ex-secretária e ex-rainha do Brinca Quem Pode, em Florianópolis, novembro de 1996.
7 Entrevista concedida por Olga.
8 Entrevista realizada com Guilherme Silveira, em Florianópolis, novembro de 1995.
9 Entrevista realizada com Silvio de Souza, presidente da União Recreativa 25 de Dezembro por várias gestões; em Florianópolis, 1994.
10 Fátima OLIVEIRA et alii. A mulher negra na década: a busca de autonomia. Caderno Geledés, n. 05 (1995).
Formatado: Português (Brasil)
Florianópolis,

11 PEDRO, Joana Maria. Relações de Gênero na Pesquisa Histórica. Revista Catarinense de História. n. 2 (1994), p. 42.
12 Entrevista concedida por Olga.
13 Ata de reunião da União Recreativa 25 de Dezembro, ano de 1949.
14 Entrevista concedida à autora por Rogério Farias, em Florianópolis, novembro de 1996. 15 Entrevista concedida por Olga.
16 Ata de reunião da diretoria da União Recreativa 25 de Dezembro; 1949

 

 

Fonte: UFSC

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