Rose Marie Muraro pede ajuda aos amigos para continuar produzindo

Aos 82 anos, enxergando pouco e doente, a Patrona do Feminismo Brasileiro tem mais de 4 mil publicações, e afirma: “Ainda produzo, só assim a minha vida faz sentido”

Por: Pedro Venâncio

Rio de Janeiro — Do apartamento no Bairro Peixoto, Zona Sul do Rio de Janeiro, Rose Marie Muraro enxerga longe, muito além dos vultos que suas retinas limitadas conseguem captar. É um ambiente arejado, com quadros nas paredes e flores ao lado da poltrona em que ela se senta com as pernas esticadas e cobertas. Faz frio na cidade. Em duas frases, é possível conferir que uma das mais importantes intelectuais brasileiras do século 20 é, também, despojada e bem-humorada. “Sou uma maluquete”, diz, rindo de si mesma. “Gostei muito do que fiz. E ainda produzo porque só assim a minha vida faz sentido. No dia em que eu parar, morro.”

Às vésperas de completar 83 anos, Rose Marie mantém a capacidade de articulação de raciocínio que a consagrou em mais de 4 mil publicações, e segue produzindo. Mas as limitações impostas pela saúde, sempre superadas pela escritora, hoje cobram um alto preço, e sem recursos financeiros para bancar uma estrutura que possa assegurar o exercício da atividade intelectual, ela decidiu pedir ajuda aos amigos, em longo e-mail no qual relata a situação.

Em um trecho da mensagem, ela diz: “Depois de mais de 50 anos de dedicação à sociedade brasileira, encontro-me hoje numa situação financeira muito delicada, porque não tenho mais condições físicas para ler nem escrever, pois minha miopia aumentou enormemente (42 graus) e uma pneumonia dupla me levou a força das pernas. Portanto, não posso mais trabalhar nem viajar como antes. Continuo trabalhando em casa, dando assessoria para um senador e transformando algumas de minhas obras em e-books. Meus familiares estão fazendo tudo o que podem, me dando assistência e ajuda financeira, entretanto, meus custos com remédios, acompanhantes e outras despesas excedem muito a minha receita.”

Mais de uma vez durante a conversa, Rose Marie, pede para o repórter informar na matéria que a correspondência eletrônica é verdadeira. “Fiz questão de escrever do meu e-mail pessoal para que as pessoas soubessem que era eu. E essa campanha, esse pedido, eu deixo claro que é para mim como pessoa, e não para o Instituto Cultural Rose Marie Muraro (ICRM). Preciso tirar esse peso das costas dos meus familiares, que trabalham muito mais do que aguentam para me ajudar nessa situação”, diz Rose Marie. Não há comiseração no tom de voz. É uma providência objetiva, prática.

“Atualmente sou uma meia-pessoa. Semicega, porque vejo vultos, e semiparalítica, porque consigo andar com o andador, mas preciso de cuidados 24 horas por dia, e de uma secretária para escrever o que eu dito, pois estou escrevendo dois livros no momento. Um sobre a traição e outro sobre o amor.”

Mesmo com as dificuldades, Rose Marie mantém o otimismo com a vida, a qual considera “a subida de uma montanha”, e com o Brasil, “um país de primeira linha não em tecnologia, mas em comportamento”. A voz é firme, o raciocínio, linear, mesmo após interromper a conversa para tomar algum medicamento, ou receber alguém. “Às vezes, esqueço-me de uma ou outra palavra, mas isso só acontece agora, aos 82 anos. Aos 80, eu sabia tudo, e dava conferências sem dificuldade”, diz a intelectual, que foi nomeada em 2005 a Patrona do Feminismo Brasileiro.
“Não trocaria esses 82 anos que tenho hoje pelos meus 30 anos. Hoje tenho uma profundidade que essas novas gerações não têm. A velhice é dolorosa, tudo é mais complicado, mas é a fase na qual eu estou mais plena. Se eu parar de produzir, não vejo mais sentido em continuar viva”. A morte não é um fantasma, Rose conviveu com ela muito de perto em todo o percurso. “Passei a vida inteira doente, superando esses problemas. E tenho curiosidade apenas em saber como é o outro lado, a outra dimensão”.

Acervo

Uma de suas cinco filhas, Tônia, é quem cuida do Instituto Cultural Rose Marie Muraro (ICRM), órgão criado em 2009. O ICRM funciona em um imóvel cedido pelo governo em regime de comodato por 20 anos. “O instituto tem o objetivo de salvaguardar o acervo da minha mãe, que é gigantesco, e estamos trabalhando para criar uma biblioteca especializada em gênero no país e um centro de pesquisa. Além disso, colhemos materiais para três produtos: um documentário sobre ela, um livro de diálogos com ela e um audiobook, em parceria com o Instituto Benjamin Constant. E precisamos aproveitar os bons momentos dela para produzir esses materiais e finalizar com ela viva.” Até agora, o instituto sobrevive com recursos próprios. “Mandamos o projeto para vários editais públicos desde 2010, mas ainda não fomos contemplados e chegamos ao limite.”

“Preciso tirar esse peso das costas dos meus familiares, que trabalham muito mais do que aguentam para me ajudar nessa situação”

“Não trocaria esses 82 anos que tenho hoje pelos meus 30 anos. Hoje, tenho uma profundidade que essas novas gerações não têm.”

 

Fonte: Correio Braziliense 

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