Roubar beijo no Carnaval só prova que você é incapaz de viver em sociedade, por Leonardo Sakamoto

Roubar um beijo, sem consentimento, em um bloco de Carnaval, além de ser um ato de assédio e violência, também diz muito sobre o indivíduo.

no Blog do Sakmoto

Logo de cara, que ele é incapaz de viver em sociedade. Ao se utilizar de tal expediente agressivo, demonstra que não consegue puxar uma conversa e se mostrar agradável e atraente. E, a partir daí, obter o consentimento necessário para algo mais próximo. Pelo contrário, desconfio que ele saiba que é limitado socialmente e, ao invés de trabalhar em cima disso na terapia, decide descontar sua raiva contra o mundo.

O ato indica também que ele acredita que o mundo à sua volta está a seu dispor, bastando ir lá e pegar, como uma grande prateleira de supermercado. Para conseguir o tal beijo, o sujeito segura mulheres desconhecidas pelos cabelos, braços, pescoço, cintura ou qualquer outra parte do corpo sem que ela tenha lhe dado expressa autorização para tanto. Provavelmente, foi ensinado desde cedo para ser esse monstrinho mimado e egocêntrico por pais, avôs, tios, amigos, certos padres e pastores, chefes e demais ”referências” masculinas. Lembrando que ninguém nasce um idiota, mas nós, homens, somos muito competentes em treinar as crianças para tanto.

Isso mostra, além do mais, que a pessoa desconhece a própria língua. Pois ”não” é ”não”. Não é ”talvez”, muito menos ”quem sabe” ou ainda ”insiste que pode rolar”. Ao não entender o que significa um ”não”, surgem respostas como ”A culpa não é minha, olha como você tá vestida!”, ”Se saiu de casa assim, é porque está pedindo”, ”Mas é Carnaval, vadia!”, ”Quem está aqui sozinha é porque quer isso” e ”Me dá um beijo que eu te solto”. Aliás, chamar mulheres, em qualquer circunstância, de ”prostitutas” e ”vadias” como xingamento genérico para qualquer comportamento em desacordo com seus planos de ”conquista” fala muito sobre o caráter do sujeito. Sem contar que tratar prostitutas com respeito diferente daquele dispendido a qualquer outra trabalhadora também faz dele um idiota.

Há quem diga que o Carnaval está ficando chato porque as pessoas não podem mais expressar sua liberdade sexual proporcionada pela data, devendo reprimirem-se sexualmente ao invés de roubar o beijo de alguém, por exemplo. Para além de um desserviço social, esse tipo de defesa é apologia a um ato criminoso e tem como consequência empoderar os toscos aqui descritos e de jogar contra campanhas que alertam para a violência de gênero, exaustivamente veiculadas nessa época do ano.

Esses indivíduos acreditam que as mulheres pertencem aos homens. Porque creem que assim sempre foi, porque aprenderam assim. É a tradição, oras! E o discurso da tradição, muitas vezes construído de cima para baixo para manter alguém subjugado a outro não pode ser questionado. Quem ousa sair desse padrão, pode ser vítima de alguns ”corretivos sociais”. Como levar um soco no Carnaval porque reagiu contra um beijo forçado.

E não se enganem. Não é só meia dúzia de celerados. Esses ataques traduzem o que parte da nossa sociedade machista pensa. Que uma mulher que conversa de forma simpática em um bloco de carnaval está à disposição, que uma mulher que se veste da forma como queira está à disposição, que um grupo de mulheres sem ”seus homens”, brincando na rua, está à disposição.

Nós, homens, temos a responsabilidade de educarmos uns aos outros, desconstruindo nossa formação machista, explicando o que está errado, impondo limites ao comportamento dos outros quando esses foram violentos, denunciando se necessário for.  Não é censura, pelo contrário. Esses são atos para ajudar a garantir que as mulheres possam desfrutar da mesmo liberdade que nós temos – liberdade que nossos atos e palavras sistematicamente negam a elas.

O constrangimento público às ações machistas é uma arma poderosa e precisa ser usada insistentemente. Nós homens precisamos entender que esse discurso e essas atitudes violentas não cabem mais no mundo em que estamos. Na verdade, nunca couberam, mas nós somos pródigos em calar aquilo que nos desagrada.

Isso significa que se beija menos no Carnaval? Afe, definitivamente não. Apenas que certos padrões violentos não são mais tolerados.

Aceita o não que dói menos. Você vai se divertir tanto quanto. Ou ainda mais.

+ sobre o tema

Associação de juristas defende Vera Lúcia Araújo para vaga deixada por Rosa Weber no STF

A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) publicou...

Falta de registro de doméstica gera multa a partir de agosto

Patrões que não cumprirem regra deverão pagar multa de...

para lembrar

Não matem nossos jovens, por Sueli Carneiro

Fonte: Jornal Correio Braziliense - Coluna Opinião Há poucos meses...

Vanete Almeida, a guerreira do semiárido se encantou

Há menos de um ano recebi um e-mail apreensivo...

6 filmes para entender por que a prostituição infantil é um problema no Brasil

Por Stephanie Ribeiro Do Brasil Post Recentemente, na minha conta pessoal...

Centenas de mulheres quilombolas se encontram em Brasília para debater direitos e garantias

A partir da próxima quarta-feira (14), mulheres quilombolas do...
spot_imgspot_img

Mãe Hilda de Jitolú, a matriarca do Ilê Aiyê

Em 1988, quando uma educação afrocentrada ou antirracista ainda não estava no imaginário brasileiro, uma mulher preta que nunca frequentou a escola abriu sua casa, em Salvador (BA)...

Aos 80 anos, Zezé Motta celebra uma carreira de grandes feitos e garante: “Eu não paro!”

É com um sorriso solto e uma presença indescritível que Zezé Motta conversa comigo no camarim do estúdio onde fotografamos as imagens e a capa que...

Justiça nega aborto legal de adolescente de 13 anos após seu pai pedir manutenção da gravidez

Uma adolescente de 13 anos que vive em Goiás teve o aborto legal negado pelo TJ-GO (Tribunal de Justiça de Goiás), após o pai da jovem...
-+=