Acho que era gosto de coentro, ou cominho, colorau talvez? O cheiro era igualzinho. Os pratos são os mesmos, será que é regra em Pernambuco? Cheguei a pensar sobre isso enquanto me servia na fila da comida da Caatinga Climate Week, organizada pelo Centro Sabiá e pelo Instituto Socioambiental. A abertura oficial foi no Recife, na beleza da exposição do Centro Cultural Cais do Sertão, e seguiu em uma caravana pelas cidades do Agreste pernambucano, por Caruaru, Caetés, Vertentes e Pesqueira.
Entrei pensando: “igualzin que nem lá em casa”. As coisas na parede pintada, os santos, as santas, a casa com cômodos largos, sofás grandes, e a comida? Fava, macarrão, arroz, galinha, feijão, farofa, tudo com o gosto de casa. Imagina só como meu coração tremeu. Senti uma vontade abrupta de chorar muitas vezes. Foram as histórias da Caatinga, mas foi me lembrar de casa.
Nasci em São Paulo, criada por uma madrinha pernambucana, que cozinhava assim, muita comida, com gosto de casa, gosto de Garanhuns, madrinha com cara de gente gostosa de viver perto, que cozinhava para cuidar, para abraçar. Nossa, como eu queria saber explicar com palavras ditas e escritas esse aperto no peito de saudade, essa imaginação que voa, essa coincidência de vida.
Todo ano que volto a Pernambuco penso nela, na carinha dela se soubesse que tenho vindo para sua terra descobrir pessoas, lembrar dela, reconhecer suas histórias e comer da sua comida. Madrinha que foi minha mãe, me criou até quando pode, e eu tenho uma saudade absurda.
É meu segundo ano imersa na Caatinga Climate Week. O evento é um espaço construído para valorizar esse bioma, mas para mim é também sobre memória, sobre um país, sobre a vida da gente. Nossas histórias.
Inspirada nas semanas do clima realizadas ao redor do mundo, a Caatinga Climate Week nasce para colocar esse território no centro do debate climático global. A iniciativa busca ampliar a visibilidade da Caatinga, fortalecer o intercâmbio entre comunidades, pesquisadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, além de evidenciar soluções construídas a partir dos saberes locais.
Após sua primeira edição, realizada em 2025, a Caatinga Climate Week retornou de 1 a 3 de julho de 2026, reafirmando o compromisso de conectar e fazer pontes para a defesa desse bioma.
Mais do que discutir os impactos da crise, o encontro propõe reconhecer a Caatinga como um território de inovação, resistência e futuro, onde já existem experiências concretas capazes de inspirar caminhos para um mundo em transformação.
A emergência climática já é uma realidade para milhões de pessoas que vivem nos territórios mais vulnerabilizados do planeta. Entre eles, está o Semiárido brasileiro, com que a Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro, convive. São duas regiões que enfrentam historicamente desafios relacionados à escassez hídrica, às desigualdades socioambientais e, cada vez mais, aos impactos das mudanças climáticas. Mas a Caatinga não é apenas um território afetado pela crise. É também um território de respostas.
Ao longo de gerações, povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores e agricultoras familiares desenvolveram conhecimentos, tecnologias sociais e modos de vida capazes de promover convivência com o Semiárido, adaptação climática e formas únicas de se relacionar e preservar esse bioma.
A inventividade e a ciência do povo são imprescindíveis para o debate climático.
Os povos da Caatinga sempre tiveram um senso coletivo aflorado, especialmente em condições exigentes, fossem elas climáticas ou políticas. Uma narrativa em que o território e suas potencialidades, os saberes, a ciência popular fortalecem o que nosso mestre Nego Bispo chamava de confluência. Uma troca de experiências, técnicas e sementes, as pessoas se engajando em lutas comuns, em prol do bem viver de todos.
O que encontramos em dias especiais de caminhada, longas conversas e muita escuta na Caatinga não se encontra nas salas de luz branca das conferências internacionais. O evento é um encontro com a realidade que fica distante das mesas e debates sobre as políticas climáticas internacionais, e todo o caminho só se reforçou essa desconexão.
A política no território potencializa nossa responsabilidade em defesa dos direitos humanos e dos biomas brasileiros.
A programação da semana na Caatinga contou com visitas e trocas em comunidades do Cerrado. No segundo dia, visitamos a propriedade do Seu Simão, e foi das coisas mais bonitas e duras que já vivi. Seu Simão é um agricultor que saiu de suas terras por causa do Parque Eólico Ventos de São Clemente, empreendimento da Echoenergia localizado em Caetés (PE).
Ele precisou se afastar da sua terra, onde produzia agricultura familiar com tecnologias inovadoras, onde ele se identificava como um produtor e trabalhador do Semiárido. Hoje, fala com tristeza do lugar que precisou abandonar por questões de saúde de sua esposa e família.
A falácia da energia “limpa” impacta a vida, a saúde física, mental e todo vínculo das famílias com seus territórios.
Diante da crise climática, os ventos e o sol passaram a ser vistos como caminhos fundamentais para substituir uma geração de energia elétrica ainda fortemente dependente de fontes poluentes, como carvão mineral e o gás natural. Afinal, a produção energética tem um peso significativo na equação que conecta sociedade, economia e meio ambiente. Por isso, quando se afirma que as energias eólica e solar são fontes limpas, a ideia faz sentido — ao menos quando observamos apenas uma parte dessa história.
Um dia, Edite Maria da Silva, companheira do Seu Simão, lhe disse: “Você vai esperar eu morrer para me tirar daqui?”, e a pergunta calou fundo nele. Eles estavam acostumados a receber visitas de pesquisadores, militantes e estudantes de escolas públicas e universidades.
Centenas de pessoas visitavam a propriedade que era um modelo de agroecologia para a região, com tecnologias para adaptação avançadas que orgulham Seu Simão até hoje.
Hoje, o sítio Pau Ferro se tornou um lugar para visitação de pessoas que querem ver de perto os danos deixados pelos parques de energia eólica, e muitas vezes apoiar a família na luta que eles travaram na região, pela vida.
Com olhos marejados, ouvimos a história da família, percorrendo todo o sítio, ouvindo o barulho das hélices. Um parquinho infantil próximo da casa e a menos de 80 metros de uma das torres foi construído como uma das compensações. Nunca foi usado, porque os pais têm medo de levar as crianças.
O parquinho virou um espaço que mais parece uma cena de filme de terror: completo abandono, mato alto, brinquedos enferrujados e, por cima, linhões enormes que passam quase por nossas cabeças. A cena é devastadora, e o barulho, persistente.
O discurso do governo fora do Brasil não combina com a realidade enfrentada pelas famílias, e a narrativa da energia “limpa” e “renovável” segue incompatível com a lista de violações de direitos dos territórios impactados por grandes empresas, com o apoio dos governos em todos os níveis.
Ainda assim, saímos de lá com um abraço apertado de Seu Simão, muito grato por nossa visita, com toque e olhar de verdade. E, mais do que isso, a generosidade de quem ainda sonha com seu território, com um outro lugar para seguir realizando seu sonho de trabalhar na terra, produzir e construir novas formas de viver na Caatinga.
Não há espaço mais político do que o lugar que a gente nasce, cresce e forma nossa identidade.
A vida entrelaçada, a luta cotidiana. Maior privilégio do mundo, a incidência emocional é estar onde a vida acontece, onde a gente nasce, onde quem a gente admira luta e desenvolve o mundo e aprende.
Mariana Belmont é jornalista, nascida em Parelheiros (extremo sul da cidade de São Paulo), trabalha com articulação e comunicação para políticas públicas. Atuou em cargos no governo sobre questões ambientais e de habitação na Prefeitura da cidade de São Paulo. Trabalhou como coordenadora de comunicação e articulação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi Superintendente de Programas e Diretora de Clima e Cidade no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi colunista do UOL e agora escreve mensalmente para a Gênero e Número. Também é ativista, parte de movimentos ambientalistas e periféricos. Recentemente foi editora convidada da Revista “Diálogos Socioambientais: Racismo Ambiental” da Universidade Federal do ABCD. É organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023). Atualmente é Assessora sobre Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra.