Sobre o resultado do Edital de Apoio à Coedição de Livros de Autores Negros – Por Cidinha da Silva

As idéias que seguem problematizam posturas escusas de julgadores mais realistas do que o rei que, em nome de interesses inconfessáveis, prejudicam a avaliação de determinados trabalhos, chegando mesmo a excluí-los.

Foi o que aconteceu com o meu BAÚ DE MIUDEZAS, SOL E CHUVA, inscrito pela Mazza Edições no Edital de Apoio à Coedição de Livros de Autores Negros, promovido pela Fundação Biblioteca Nacional e SEPPIR.

Houve uma primeira etapa de habilitação, pela qual meu livro passou sem qualquer restrição, significando, portanto, que ele estava apto a concorrer. O destaque a este critério é fundamental, porque ele atesta o despropósito de que uma proposta devidamente habilitada, como a minha, receba a nota ZERO na classificação final.

Para o ego de uma pessoa como eu, acostumada a ser não apenas uma das melhores alunas das turmas em que estudou ao longo da vida, mas a integrar o pelotão de frente de todas as escolas pelas quais passou, um ZERO é uma punhalada que deixa marcas indeléveis.

E essas marcas se tornam ainda mais fundas e purulentas frente aos critérios adotados para a atribuição do ZERO. Vejamos: a comissão julgadora era composta por 7 pessoas, a saber, uma amiga queridíssima, um ex-mestre, um desafeto e 4 pessoas da Biblioteca Nacional, às quais não tenho idéia de quem sejam. Ao ver o ZERO, bem como a lista nominal de julgadores, da qual tomei conhecimento no momento em que acessei a divulgação do resultado, imediatamente pensei que o livro tivesse caído nas garras do tal desafeto, que não teria seguido critérios decentes para avaliar meu trabalho e simplesmente o teria defenestrado. Fica subentendido que a autora e a editora estavam convictas da qualidade do trabalho inscrito. Ao ler a ata pela segunda vez, entretanto, verifiquei que não poderia ter sido ele o autor do julgamento insólito, pois sequer havia participado da banca, efetivamente.

Diante disso, busquei explicações para o ZERO. A Mazza Edições enviou e-mail e carta por sedex à Fundação Biblioteca Nacional solicitando explicações, para as quais aguarda resposta e eu tratei de inquirir as pessoas conhecidas da Comissão para entender o que teria acontecido.

Completamente surpresa, mais do isso, estupefata, ouvi do Mais Realista do que o Rei, que meu livro foi muitíssimo bem avaliado (recebeu os 25 pontos totais, ou seja, nota máxima em todos os quesitos, acrescida do comentário de que era, de longe, o melhor livro dentre os avaliados) e fora obstado porque exerço cargo de confiança na Fundação Cultural Palmares.

Eu ri um riso de escárnio e perguntei se o Mais Realista do que o Rei havia lido o edital que diz exatamente o que transcrevo abaixo, no item relativo às EDITORAS E ENTIDADES inaptas a concorrer:

8. DAS VEDAÇÕES
8.1. Não poderão participar deste Edital de Chamada Pública as editoras ou entidades que
possuam dentre os seus dirigentes:
8.1.1. Membro do Poder Executivo, Legislativo, Judiciário, do Ministério Público ou do Tribunal
de Contas da União, ou respectivo cônjuge ou companheiro ou parente em linha reta, colateral
ou por afinidade até o segundo grau;
8.1.2. Servidor público vinculado à FBN ou à SEPPIR, ou respectivo cônjuge, companheiro ou
parente em linha reta, colateral ou por afinidade até o segundo grau.

Ou seja, quem é alfabetizado percebe facilmente que: NÃO HÁ QUALQUER RESTRIÇÃO, SEQUER QUALQUER REFERÊNCIA A AUTORAS E AUTORES no item Vedações, que, por meio de um desenho para quem não conseguiu ler, diz o seguinte, AS RESTRIÇÕES ELENCADAS NOS ITENS 8.1.1 E 8.1.2 REFEREM-SE ÀS EDITORAS OU ENTIDADES PROPONENTES. Colorindo o desenho para ajudar a compreensão dos ignorantes: NÃO HÁ QUALQUER RESTRIÇÃO, SEQUER QUALQUER REFERÊNCIA A AUTORAS E AUTORES que as/os impedisse de concorrer.
Obviamente, ele, o Mais Realista do que o Rei, usando sua autoridade de Mais Realista do que o Rei, encarregou-se de convencer a Comissão Julgadora de que meu livro não poderia ser premiado, mesmo diante da defesa apaixonada que outros avaliadores faziam do meu livro (a paixão deve também ser algo incômodo). Tratou de abrir seu imenso rabo de pavão e mover holofotes para si, numa suposta argumentação de defesa da coisa pública. São assim, os mais realistas do que o rei.

Um detalhe importante é que o livro foi lido e avaliado por pessoas da Comissão que não tinha a mais vaga idéia de quem eu era, logo, não foi avaliado pela amiga, que se o tivesse recebido, provavelmente pediria para trocar por outro concorrente. Não porque não tivesse idoneidade para avaliar qualquer uma das obras classificadas, mas, justamente, para prevenir ruídos eventuais.

Eu não preciso (e muito menos pleiteio) de aprovação em qualquer concurso literário por reconhecimento de minha folha de serviços prestados ao povo negro no Brasil. Tenho um curriculozinho, uma historiazinha com algum significado, mas, a meu juízo, isso não é critério abonador. Exijo a avaliação do meu trabalho por critérios justos, honestos, transparentes, como aqueles destinados aos demais concorrentes, EM CONSONÂNCIA COM O EDITAL DOS CONCURSOS EM QUE ME INSCREVO. O edital deveria ter o poder de me derrubar, de dizer que eu não merecia uma premiação por infringi-lo. Não aceito que minha biografia me inclua (desprezo este artifício, não preciso dele) ou me exclua. Isso só faria sentido em um concurso que se destinasse a avaliar a biografia das/os concorrentes e não era o caso deste Edital de Apoio à Coedição de Livros de Autores Negros. Estava em foco o trabalho literário, apenas.

“Quem ela pensa que é?” Perguntarão os apressados defensores do Mais Realista do que o Rei. Eu respondo: Eu sou uma mulher negra que não tem qualquer compromisso em proteger ou resguardar homens que, no mais espúrio exercício de vaidade egóica a prejudicam. Sou uma mulher que não aceita passivamente que a nota máxima recebida por seu livro em um concurso seja transformada em ZERO como forma de atender ao desempenho canastrão e canhestro de alguém que, em nome de suposta ação de proteção a órgãos públicos dedicados à comunidade negra, passa por cima do Edital e desvirtua-o para atender interesses pessoais. Sou uma mulher que neste episódio compreendeu o seguinte: Orixá protege a gente de inimigo, de fogo amigo é mais difícil.

Fonte: Blog da Cidinha

+ sobre o tema

Pesquisa revela constante racismo a imigrantes no Brasil

A noção de que o Brasil é um país...

Menos de 1% dos municípios do Brasil tem só mulheres na disputa pela prefeitura

Em 39 cidades brasileiras, os eleitores já sabem que...

Comércio entre Brasil e África cresce 416% em 10 anos

  Os números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio...

Dilma sobre a campanha: ‘Sou outra pessoa, muito melhor’

Esbanjando bom humor, candidata petista diz que campanha foi...

para lembrar

A visão insuportável da tolerância

Fonte: Luis Nassif De repente, sem que procurasse, um...

A história por trás da foto mais emblemática dos protestos no Equador

Em 9 de outubro, dia de uma greve nacional...

Classismo, sexismo, escravismo, racismo, xenofobismo, homofobismo e especísmo

José Eustáquio Diniz Alves O teocentrismo dominou o pensamento...

Viver a Vida – Depoimento de Vera sobre a violência sofrida pela mulher

Novela Viver a Vida - Depoimento de Vera Vieira...

Fim da saída temporária apenas favorece facções

Relatado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o Senado Federal aprovou projeto de lei que põe fim à saída temporária de presos em datas comemorativas. O líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT-BA),...

“O Retorno” | Atlânticos em transe sob a lua de Luanda, por Cidinha da Silva. Ep.6

Minha irmã, tu não conhecerias Luanda se não tivesses passado pela corrupção institucional, te faltaria um pedaço importante de percepção desta terra de mártires...

“Inácia” | Atlânticos em transe sob a lua de Luanda, por Cidinha da Silva. Ep.5

— Senhora, senhora! Eu corri atrás da zungueira para entregar-lhe um galho seco e sem cheiro que caíra da bacia que carregava na cabeça....
-+=