Somos todos seres humanos

Lilico aos 12 anos cursava o 6ª ano da escola fundamental, a pele negra, um sorriso largo e um olhar confiante tornavam-no cativante e bonito. Passava seu tempo livre jogando futebol com os amigos, pois seu maior sonho era se tornar um grande jogador de futebol.

Por Noriko Izumi Kawabata, enviado via Guest Post para o Portal Geledés 

iStockphoto

No último domingo aconteceu o jogo decisivo do campeonato entre escolas e o time de Lilico estava representando o seu colégio. Muitos pais foram prestigiar o jogo, a mãe de Lilico foi sozinha porque, infelizmente, seu marido teve de trabalhar naquele dia.

Foi um jogo difícil, os times se equilibravam nos lances e dribles. O jogo estava nos últimos momentos e tudo indicava que terminaria empatado. De repente, Lilico com uma habilidade incrível conseguiu driblar o adversário, deu um olé em outro e conseguiu marcar o gol da vitória. Os amigos dele tiveram uma explosão de alegria e todos aplaudiram o grande talento do menino. A mãe, a mais entusiasmada, não se cansava de gritar:

-Ele é meu filho e um dia vai ser craque da seleção brasileira!

Infelizmente, um grito e gesto de maldade feriram este momento de alegria! O pai de uns dos meninos do time adversário, inconformado com a derrota, extravasou sua raiva gritando:

– Negrinho, por que não volta para a senzala? Você e sua família nunca deveriam ter saído de lá! Jamais deveriam ter libertado essa gente!

Em seguida, atirou cascas de bananas no campo, proferindo mais palavras ofensivas e xingamentos.

Todos pararam diante daquela situação. A alegria deu lugar a um misto de revolta, tristeza e, principalmente, de indignação, diante do triste ato de discriminação em relação à origem de Lilico.

Ele sentiu a revolta invadir sua alma, seu coração ficou apertado e lágrimas teimaram em brotar de seus olhos. Sua vontade era poder extravasar sua raiva, mas se controlou. Os amigos se mostraram solidários e o levaram para o vestiário, abraçando-o. Os responsáveis pelos colégios também foram se desculpar com o menino e sua mãe. Mas, nada conseguia melhorar o ânimo do garoto.

Leia Também: Lilico por Noriko Izumi Kawabata

A mãe tentou consolá-lo, dizendo:

– Meu filho, você foi maravilhoso, não deixe que esta maldade estrague isso! Essas atitudes são frutos da raiva, ignorância, inveja e, sobretudo, da intolerância que são alguns dos sentimentos mais negativos do ser humano. Tivemos vários episódios tristes e vergonhosos no mundo como, por exemplo, a escravidão dos nossos antepassados aqui no Brasil e em outros países, o holocausto nazista na Alemanha, a apartheid na África do Sul, onde uns poderosos se achavam no direito de cometer crimes bárbaros contra outros seres humanos por se considerarem superiores. O que eles desejavam é que a gente se conformasse e abaixasse a cabeça. Meu filho, temos de mostrar que somos todos iguais e que, independente da cor da pele, da etnia, das crenças e outras características individuais, somos todos seres humanos com as nossas qualidades e defeitos.

O menino perguntou:

– Se eles são maus, poderemos reagir e bater neles, mamãe?

A mãe com muita ternura, respondeu:

– Não nos cabe julgar e condenar. Agindo assim, corremos o risco de nos igualar a eles. Só vamos cuidar para que essas ofensas não nos tornem agressivos, desconfiados, tristes e que atinjam a nossa autoconfiança. Os nossos antepassados foram capturados de sua terra natal, a África e trazidos nos porões dos navios negreiros e, quando chegavam aqui eram vendidos como escravos em feiras para os fazendeiros. Mas, depois de muita luta e esforço, hoje o negro tem os mesmos direitos e deveres como cidadão brasileiro.

Lilico disse:

– Já estudei tudo isso com a minha professora de história, mas eu achava que era só matéria para prova e nunca pensei que tudo aquilo tinha realmente acontecido e que se referia a nossa origem!

– Meu filho, o nosso povo trabalhou muito nestas terras, sofreu humilhações e lutou pela liberdade! Já ouviu falar em Zumbi dos Palmares? Foi um grande herói para o nosso povo, assim como muitos outros: Francisco Nascimento, João Cândido e André Rebouças aqui no Brasil e no mundo, Nelson Mandela, Malcolm X e Martin Luther King. Todos eles foram verdadeiros heróis, muito inteligentes, articulados, corajosos e dedicaram suas vidas para que nós pudéssemos ser livres e integrados à sociedade. Por isso, não podemos nos abater com atitudes insignificantes e covardes como as de hoje.

Eles saíram abraçados, voltaram para casa e prepararam um belo jantar para comemorar a vitória do time e a atuação do pequeno craque de futebol.

O homem causador do incidente, chamado Ranzinza voltava para a casa com seu filho na garupa da moto, brigando com o garoto:

– Seu incompetente, como você deixou um negrinho te humilhar no jogo? Hoje você vai ficar de castigo por me fazer passar por essa vergonha!

Num instante de distração, o pai perdeu a direção e bateu violentamente na traseira de um caminhão.

Ranzinza não se feriu, mas o menino foi arremessado pelo impacto, ficou gravemente ferido e foi levado pelos bombeiros para o hospital. Lá o pai foi informado de que o estado de saúde do menino era grave e iria precisar de doação de sangue. Fez-se uma mobilização na pequena comunidade para conseguir um doador compatível e muitos compareceram para ajudar. Conforme seu tipo sanguíneo, apenas um doador foi selecionado.

O pai sentiu-se aliviado quando ele saiu são e salvo da sala de cirurgia. Emocionou-se ao pensar que poderia tê-lo perdido para sempre, arrependeu-se amargamente por ter gritado com ele na moto e sentiu uma grande gratidão ao doador que com um gesto de bondade, salvou seu bem mais precioso. Logo que o filho teve alta do hospital, conseguiu o endereço do doador e foram juntos para agradecer a ele.

Ao chegar ao endereço, encontraram uma casa simples, mas muito bem cuidada e limpa. Eles bateram na porta e foram atendidos por um homem negro, com um sorriso largo e amistoso, que os convidou para conhecer a sua família.

Para a surpresa deles encontraram Lilico e a mãe na sala, que ao reconhecerem os visitantes, de imediato se retraíram receosos e desconfiados.

Ranzinza foi tomado por um sentimento de vergonha, remorso e arrependimento. Seus olhos se encheram de lágrimas que escorreram na face como que querendo lavar todo o mal causado e disse:

– Perdão pelo que fiz no jogo! Foi um ato covarde e ignorante! O acidente de meu filho, o risco de perdê-lo e a generosidade deste homem que doou seu sangue sem nenhum interesse, fizeram-me ver como eu havia agido de um jeito mesquinho e maldoso. Perdoem-me, por favor!

Lilico e sua família levaram um tempo para entender o que estava acontecendo, mas logo estenderam as mãos ao homem e se abraçaram emocionados. Os meninos assistiram à cena e também imitaram a atitude dos adultos e se abraçaram com alegria. Lilico sentiu novamente lágrimas teimosas vindo aos olhos, só que desta vez eram de alegria e orgulho de sua família.

Com o tempo nasceu uma grande amizade entre as duas famílias e fundaram uma associação comunitária especializada no combate e prevenção ao racismo e preconceito, onde Ranzinza se tornou um brilhante e convincente palestrante, trabalhando incansavelmente para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna.

Sobre Autora:

Professora há 26 anos, atuo na educação infantil, fui diretora por 12 anos num núcleo municipal que atende crianças e adolescentes de 5 a 12 anos. Voluntária que uma ong de preservação da cultura afro ( Acogelc) e também tenho um livro com a biografia de uma neta de escrava que morava na minha cidade, com 110 anos na época da publicação do livro. Também escrevo contos sobre algumas situações de preconceito que acontecem com crianças afrodescendentes na escola e na sociedade.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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