Sucesso mundial, clipe sobre racismo é a cara do Brasil

‘This is America’, de Childish Gambino, já tem 138 milhões de visualizações 

Por Mariana Londres, do R7 

Clipe de Childish Gambino fala com o Brasil, diz pesquisadora

Reprodução/youtube

Publicado em 5 de maio no youtube, o clipe ‘This is America’, de Childish Gambino (codinome do cantor e ator Donald Glover), já alcançou 138 milhões de visualizações, o que faz dele uma aposta para bater o recorde da rede. Um dos motivos do sucesso certamente é a crítica ao racismo na sociedade americana, que tem mortes de negros como uma de suas consequências. Para a pesquisadora Marjorie Nogueira Chaves, do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab) da UnB (Universidade de Brasília), apesar do clipe ser norte americano, o racismo é uma questão global.

Além disso, segundo ela, o abismo racial brasileiro, com negros sendo as maiores vítimas da violência e do desemprego, e a invisibilidade da violência contra negros na sociedade são semelhantes ao que é retratado no clipe. ‘Por isso o clipe conversa com o Brasil’, resume.

Leia abaixo a íntegra da conversa entre a Coluna e a pesquisadora:

O clipe está conquistando muita audiência e gerando discussão por ser forte. Também tem atraído a atenção dos jovens. Como você vê esse clipe? 

Pra mim o clipe é um fenômeno por ser uma obra crítica evidente da situação de violência vivida pela população norte americana. Ele traz elementos muito interessantes. Não apenas para os negros. Ele traz elementos históricos dos Estados Unidos. Quando ele atira no rapaz encapuzado é uma referência à escravidão. Pois a vítima está com trapos, descalço, numa clara referência que a violência racial persiste naquela sociedade.

E também traz outros elementos sutis e isso já é uma crítica da invisibilidade dessa violência para a sociedade americana. Tanto é que ele [músico] está na frente, sorrindo e o contexto de violência está atrás. E a gente é levado a prestar atenção na música, no ritmo. Ou seja, a gente se diverte enquanto a violência está aí, está posta. Então há uma crítica bastante contundente.

Há ainda outros elementos sutis. Há uma pessoa que se joga. Quem olha rapidamente não percebe. Cada vez que você assiste percebe um novo elemento e isso que é o interessante no clipe, que faz ele ser tão visto. Trata de uma questão que é muito real na vida da população negra que é o adoecimento mental, a depressão. A violência racial não é só nas estruturas, traz prejuízos vitais na saúde das pessoas. Outra coisa que percebemos são as mortes provocadas pela polícia.

Sim e essas mortes têm aumentado. A tensão tende a crescer agora no governo Trump? 

Ela se acirra em qualquer governo menos progressista, ela se acirra porque mesmo com a conquista dos direitos civis ela permanece na sociedade e renasce. Ao mesmo tempo em que há uma movimentação da comunidade negra de se rebelar. O vídeo traz uma referência à morte do jovem Trayvon Martin, que aconteceu em 2012 na Florida, e traz também referência ao massacre na igreja de Charleston, em 2015. Para remeter a essa violência que é cotidiana, tão cotidiana tão presente que a gente naturaliza.

Como você essa discussão voltada para o Brasil em dados recentes de mais desemprego e mais homicídios entre os negros? 

Interessante na informação que o vídeo traz, a música, os elementos, é que a gente fala de uma discussão que não está localizada nos Estados Unidos, é uma discussão global. E nas Américas, em sociedades que passaram pelo processo de colonização, o racismo ele ainda é uma realidade entranhada nas estruturas institucionais. Quando a gente percebe que essa desigualdade ainda é uma realidade, essa discrepância entre negros e brancos no Brasil, em termos de salários e de Educação e principalmente de violência. A gente tem um número absurdo de morte negra, que o Brasil não está conseguindo resolver. E o vídeo traz essa discussão da violência que é ‘invisibilizada’.

Existe uma mortalidade enorme de negros e estamos discutindo a redução da maioridade penal que é um contrassenso. Casos emblemáticos nos Estados Unidos aparecem na nossa mídia como notícia, mas a gente tem uma incapacidade muito grande de olhar para a nossa própria realidade. As nossas mortes, com exceção da Marielle Franco, elas não são notícia. Vários Trayvon Martins morrem todos os dias e a gente não noticia.

Esse clipe fala com o Brasil? 

Certamente ele fala com o Brasil. Ele tem uma crítica muito forte à violência racial e corrobora com a crítica que norte americanos têm feito, como Angela Davis. Ela está sempre no Brasil e faz referência de que essa violência vivenciada pelos negros no Brasil é muito próxima a violência vivenciada pelos negros nos Estados Unidos, tanto que no livro mais recente, A liberdade é uma luta constante, ela fala desses casos. Ela conta dessa violência e da reação das comunidades a esse Direito à vida.

A morte de jovens negros, ou a morte de negros, é uma discussão incipiente no Brasil? 

Sim porque a gente fala disso só em alguns grupos restritos. Veja, quando a gente fala de feminicídio. A gente não quer que nenhuma mulher morra. Mas entre um número de mulheres que são assassinadas, a maioria são negras. Então temos que entender que o racismo é um ingrediente de violência. Enquanto a gente não colocar isso não vai conseguir alcançar os instrumentos legais de combate à violência contra a mulher. Precisa de uma leitura racial desses instrumentos legais.

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