sexta-feira, outubro 16, 2020

    Tag: Flávia Oliveira

    Flávia Oliveira (Foto: Arquivo/ O Globo)

    A urgência da fome

    Por uma porção de conveniência política e um punhado de incompetência técnica, o governo de Jair Bolsonaro adiou para depois das eleições 2020 a decisão sobre a política social no pós-pandemia. Na prática, ficará para 2021, já que o segundo turno do pleito municipal está marcado para 29 de novembro. Assim, ignorou-se descaradamente a regra número um de quem se ocupa do combate à extrema pobreza: quem tem fome tem pressa. A frase eternizada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, deu na cruzada brasileira pela erradicação da miséria; desaguou no Fome Zero, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva; emendou no Bolsa Família. Rendeu a saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU, no início desta segunda década do século XXI, que chega ao fim com o recrudescimento da insegurança alimentar. O aumento da vulnerabilidade social mundo afora, durante a pandemia da Covid-19, explica o Nobel ...

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    Flávia Oliveira (Foto: Arquivo/ O Globo)

    Antirracismo é atitude

    Em fins de maio, quando o Brasil voltou os olhos para manifestações nos EUA contra o assassinato de George Floyd, homem negro asfixiado por um policial branco, fazia dez dias que uma operação das polícias Civil e Federal em São Gonçalo (RJ) abreviara a vida de João Pedro Matos Pinto. O estudante de 14 anos estava na casa da família, no Complexo do Salgueiro, e seu corpo ferido foi levado de helicóptero pelos agentes que o fuzilaram, no dia 18 daquele mês. Mas foi a comoção pela vítima americana que respingou no Brasil, não o contrário, embora aqui a letalidade pelo Estado seja mais assombrosa. Em 2019, o Rio de Janeiro contabilizou mais mortes decorrentes de intervenção policial do que os Estados Unidos inteiros. Por causa de Floyd, porções da sociedade brasileira se deram conta do racismo que, desde sempre, se materializa em homicídios de pessoas negras, escassez de oportunidades ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    Revés na política de segurança

    Em plena pandemia da Covid-19, a narrativa que, no Rio de Janeiro, tornou política de segurança pública sinônimo de guerra, confronto, abate sofreu um revés. Foi histórica a decisão do Supremo Tribunal Federal que proibiu operações policiais em comunidades, enquanto durar a crise sanitária do novo coronavírus. A decisão do ministro Edson Fachin, posteriormente referendada pelo plenário da Corte, respondeu ao apelo do PSB, autor da ADPF 635, em articulação com Defensoria Pública e organizações da sociedade civil, diante de um inexplicável salto no número de mortes decorrentes da intervenção de agentes da lei no mês seguinte ao início do isolamento social, em março. A polícia matou 177 pessoas em abril e 129 em maio. Em junho, após a decisão do ministro-relator, houve 34 homicídios; em julho, 50. São dados oficiais do Instituto de Segurança Pública, que também anotou queda em outros indicadores, entre os quais homicídios dolosos e crimes ...

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    Flávia Oliveira (Foto: Arquivo/ O Globo)

    Uma nação fracassada

    Fracassaram o Estado que não impede e a sociedade que silencia ao cotidiano de abuso sexual, estupro e gravidez precoce de suas crianças. O Brasil, na última semana, horrorizou-se com as camadas de brutalidade a que foi submetida a Menina de São Matheus, no Espírito Santo. Negra, de família pobre, criada pelos avós, Ela padeceu em silêncio sob o jugo do tio, que a violentava e ameaçava. A barbárie se estendeu por quatro anos, dos 6 aos 10 de idade; só foi descoberta quando Ela engravidou — e, sob mais violência, de agentes públicos, extremistas religiosos e oportunistas políticos, conseguiu interromper a gestação em Recife. Há o ambiente familiar de miopia aos maus-tratos, mas há também a cegueira de um poder público que descuida, quando tem obrigação de cuidar. O país é farto em legislação, direitos, atribuições: do Estatuto da Criança e Adolescente à Constituição. Enquanto Ela era violada, onde ...

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    Foto: Marta Azevedo

    Crime sem trégua, que cansa

    O racismo não dá trégua. Nunca deu. Por muito tempo, não dará. Na esteira dos protestos nos Estados Unidos pelo assassinato de George Floyd, homem negro asfixiado até a morte por um policial branco, o assunto entrou no raio de visão de uma sociedade, a brasileira, até então acomodada aos antolhos da democracia racial. Dimensões variadas do racismo nacional passaram a ser percebidas e escancaradas e denunciadas. De uma hora para outra, avolumam-se os episódios, num processo assemelhado à multiplicação dos registros de violência doméstica após a Lei Maria da Penha, de assédio sexual a partir da campanha Me Too, de intolerância religiosa depois que a Região Metropolitana do Rio de Janeiro explodiu em ataques aos terreiros de candomblé e umbanda. Como resumiu o ator Will Smith, sobre os EUA, o crime não aumentou, está sendo filmado. A vocês, preciso confessar: é tão relevante quanto exaustivo. Para pessoas negras, usando ...

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    Flávia Oliveira (Foto: Arquivo/ O Globo)

    Julho das Pretas

    Um mês depois de a multidão indignada arrancar do pedestal — e lançar num rio de Bristol, no Reino Unido — a estátua do comerciante de escravizados Edward Colston, uma mulher negra foi içada a monumento na mesma praça, no mesmo ponto, como alvorecer de uma necessária era antirracista. O escultor britânico Marc Quinn, famoso pelas obras provocativas, eternizou — por um dia, posto que o poder público removeu a ousadia — em resina e aço o gesto da jovem Jen Reid: braço direito erguido, punho cerrado. Nos Estados Unidos, a onda de manifestações em reação ao assassinato por asfixia do americano George Floyd, homem negro, por um policial branco também resultou num reconhecimento simbólico ao ativismo feminino numa capa da revista “Rolling Stone”. O artista visual Kadir Nelson batizou de “American Uprising” (revolta americana em tradução livre) a obra com uma moça e um menino negros à frente dos ...

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    Flávia Oliveira (Foto: João Cotta)

    Flávia Oliveira: dividida entre o jornalismo e a atuação em movimentos sociais

    “Meu médico tem convicção, mas não tem provas”, conta, rindo, Flávia Oliveira, sobre sua provável contaminação pelo coronavírus – ela fez os testes, mas foram inconclusivos. Foi após viajar a São Paulo para seu último compromisso público em março, um encontro com Nikole Hannah-Jones, repórter do jornal The New York Times, no Instituto Moreira Salles, que ela acredita ter adoecido. “Eu estava em semi-isolamento no Rio, então fiquei trancada no hotel e fui de lá para o evento. Quando terminou, decidiram sair para jantar. Eu disse que não iria, mas acabei cedendo. Mas daí o jantar se estendeu ao Aparelha Luzia, que foi enchendo, enchendo... Quando terminou a noite, estavámos todos nos abraçando. Foi a cerimônia do adeus da aglomeração”, diz ela. Os sintomas de Covid-19 vieram em forma de febre e dores intensas nas costas. “Numa madrugada, acordei com tanta dor que quase pedi para ir ao ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    Freio na solidariedade

    Na esteira da pane no mercado de trabalho, da queda de renda das famílias, das dificuldades financeiras das empresas e da precipitada flexibilização do isolamento social nas principais metrópoles brasileiras, diminuiu o volume de doações que viabilizam ações humanitárias em favelas e periferias. Projetos de entrega de cestas básicas, kits de higiene, água potável e até de produção de máscaras de proteção individual (agora de uso obrigatório nas cidades) perceberam o freio na solidariedade, a partir do terceiro mês da crise decorrente da pandemia da Covid-19. É sinal preocupante, porque a vulnerabilidade das famílias que perderam trabalho, renda ou provedores segue imensa. E ainda não tem prazo para terminar. Os principais coletivos de favelas do Rio de Janeiro que, na primeira hora da crise sanitária, se organizaram para socorrer os lares lançados subitamente à extrema pobreza notaram a partir de junho o encolhimento das doações. Aconteceu no Gabinete de Crise ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    Um freio à precarização

    Se escancarou mazelas socioeconômicas tão antigas quanto toleradas no Brasil, a pandemia da Covid-19 tem igualmente precipitado reações à série de abusos. É dessa lavra a articulação que, diante da escalada de homicídios decorrentes de operações policiais no Rio de Janeiro, arrancou do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), a liminar proibindo intervenções enquanto durar a calamidade na saúde. Também emergiu com vigor o enfrentamento ao racismo pela cobrança de ações objetivas de construção de equidade. Da mobilização virtual de estudantes brotou o adiamento do Enem. Esta semana, foi a vez de motofretistas e entregadores se insurgirem contra as más condições de trabalho e remuneração a que são submetidos por empresas de aplicativos. Inédita, a paralisação alcançou as principais capitais do país (São Paulo à frente) e, se teve apoio de organizações sindicais e políticas, não foi delas monopólio. Os números sobre a categoria variam. O Centro de ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    Todas as faces da crise

    Quando a pandemia de Covid-19 fez a primeira vítima fatal em São Paulo, dia 16 de março, era evidente que o país enfrentaria cenários devastadores na saúde, na economia, nas condições sociais. O ministro da Saúde era Luiz Henrique Mandetta e parecia haver consenso sobre a necessidade de convergência entre os Poderes para enfrentar a tempestade. Mas no Brasil de Jair Bolsonaro, o que é ruim pode piorar. Expressa geometricamente, a crise brasileira é um tetraedro. Para quem não ligou o nome à figura, trata-se de uma pirâmide de quatro faces: uma, a hecatombe sanitária que já contaminou um milhão de pessoas e tirou a vida de 47 mil; outra, a derrocada econômica; a terceira, a galopante vulnerabilidade social; por fim, a instabilidade política que mantém a democracia em suspensão. Um presidente empenhado em boicotar recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate ao coronavírus, confundir a sociedade com ...

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    Flávia Oliveira (Foto: Arquivo/ O Globo)

    Faltava falar das flores

    Eu sou conversadeira, sempre fui. Minha mãe, Dona Anna, adorava dizer que, desde menina, eu falava mais que a “preta do leite”. Desconheço a origem da expressão, mas com base no meu comportamento, deduzo que significa muito, demasiado, excessivamente. Pois tudo que já fui capaz de vocalizar em meio século de vida não chega perto do tanto que tenho dito em três meses da pandemia da Covid-19. Nunca antes. São lives e mais lives. E debates e telejornais e programas de rádio e gravação de podcasts e aulas e horas de áudio com familiares, amigos, recém-conhecidos. Na maior parte das vezes, as conversas tratam de condições de saúde, dos efeitos das crises sanitária, econômica, social e política na vida brasileira, das mulheres, dos negros, dos jovens. Tenho especulado um monte sobre a retomada da economia, vergonhosamente precipitada em território nacional como não fora em outras paragens; que tamanho terá a ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    Escalada homicida

    Durou pouco, quase nada, o armistício na segurança pública do Rio de Janeiro em prol do enfrentamento à pandemia de Covid-19. Após a trégua extraoficial observada nas duas primeiras semanas de isolamento social, as mortes decorrentes da atuação policial retomaram a trajetória explosiva iniciada em 2018, com a intervenção federal liderada pelo general Braga Netto, hoje chefe da Casa Civil do Planalto, e intensificada no ano passado, primeiro de Wilson Witzel à frente do Palácio Guanabara. Levantamento do Observatório da Segurança RJ, projeto do CESeC, mostra que, de 15 de março (início das medidas de distanciamento) a 19 de maio, a polícia fluminense matou 69 pessoas, contra 72 no mesmo período de 2019. Se no primeiro mês da quarentena a letalidade policial caiu 82%, em abril e maio, o número de casos apavora. Em abril, houve 30 homicídios em operações policiais, 11 a mais que um ano antes. Este mês, ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    O significado do ‘nós por nós’

    Quando a História deste terrível 2020 for contada, o movimento social terá capítulo de honra. Criminalizadas, desprezadas, desqualificadas, apartadas do debate oficial sobre políticas públicas, foram as organizações da sociedade civil que, desde a primeira hora do primeiro dia da crise, emergiram em diagnóstico, formulação, mobilização e distribuição de ajuda a pessoas, famílias e territórios lançados subitamente na vulnerabilidade. ONGs estruturadas e grupos recém-formados exibem musculatura tão surpreendente quanto bem-vinda em ações, quase sempre sem colaboração do poder público, para reduzir os danos de uma crise que espalha doença, mortes, desemprego e miséria. É a materialização do “nós por nós”, lema de um povo que, historicamente excluído, sempre contou consigo mesmo. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS), em março, atrelou o combate ao coronavírus a hábitos rigorosos de higiene, via água corrente, sabão e álcool gel, midiativistas de favelas e periferias começaram a filmar torneiras secas Brasil afora para ...

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    (Foto: Marta Azevedo)

    O pior 1º de Maio

    Foi rápido e agudo o efeito da crise sanitária no mercado de trabalho brasileiro. No primeiro resultado da Pnad Contínua após o início do isolamento social em resposta à pandemia, o IBGE apresentou um cenário de intensa deterioração nas vagas ocupadas pelos mais vulneráveis. Nunca foi exagero reivindicar políticas emergenciais de proteção social às trabalhadoras domésticas e aos informais. Eles saíram diretamente da ocupação precária para o desemprego. Nenhum grupo sentiu mais a súbita desaceleração da economia. Nada a comemorar no Primeiro de Maio. Levantamentos divulgados nas primeiras semanas de distanciamento já indicavam que o impacto nas condições de vida das famílias à beira da vulnerabilidade seria grande. Em consulta a 1.142 moradores de 262 favelas entre os dias 20 e 22 de março, o Data Favela apurou que mais da metade (54%) temia perder o emprego, e 86% teriam dificuldades para comprar comida em até um mês, se ficassem ...

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    Foto Marta Azevedo

    Vocês que lutem!

    A meta almejada é um Brasil varrido de negros e indígenas Por FLÁVIA OLIVEIRA, do O Globo Foto: Marta Azevedo O governo Jair Bolsonaro escolheu a data de aniversário de 520 anos da chegada dos portugueses ao Brasil para anunciar à nação o plano de recuperação econômica pós-pandemia. Batizou de Pró-Brasil o, até aqui, mal esboçado pacote de investimentos de R$ 30 bilhões para gerar um milhão de empregos. Ilustrou a apresentação com a foto de cinco crianças brancas — duas meninas, três meninos — retiradas de um banco de imagens estrangeiro. Amarrou a proposta no slogan “Construção de um país em progresso”. O punhado de referências não deixa dúvidas da meta almejada: um Brasil varrido de negros e indígenas; livre da diversidade racial autodeclarada por quase seis em cada dez habitantes. É a materialização do sonho dos invasores que exterminaram povos nativos, sequestraram e escravizaram ...

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    Foto: Marta Azevedo

    Voltando para casa

    Nas semanas iniciais do isolamento social, Sabrina Fidalgo, mulher negra, cineasta premiada dentro e fora do país, demoliu numa live a ideia de que é chegada a hora dos filmes nunca vistos, dos livros jamais lidos, aquele rol de tarefas habitualmente elencadas para quando a aposentadoria chegar. (Num passado remoto, sonhei estudar produção de roteiros durante a licença- maternidade. A carreira jornalística sedimentada nas duas décadas seguintes é evidência da ilusão.) Com sabedoria desconcertante, ela dispensou o retrovisor: “Interessa o agora. O presente vai determinar o que virá. Então, me ocupo de acompanhar o que as pessoas estão fazendo nessa temporada em casa. Quero pensar novas narrativas a partir daí”. Por FLÁVIA OLIVEIRA, do O Globo  Foto: Marta Azevedo Da casa emerge a profusão de reflexões quarentênicas: famílias recolhidas, assimetrias e mazelas escancaradas. A começar pela própria compreensão sobre a palavra. Casa nem sempre é sinônimo ...

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    Crise tem cor e gênero

    Negros e mulheres enfrentam as maiores taxas de desemprego Por Flávia Oliveira, Do O Globo (Foto Marta Azevedo) Na derradeira aglomeração, antes de o coronavírus se impor como ameaça Brasil afora, estive com Nikole Hannah-Jones, jornalista negra que coordenou o Projeto 1619 do “New York Times”. A convite do IMS-SP, participamos no Festival Serrote da mesa em que ela relatou a experiência de contar a História dos EUA, a partir da chegada do primeiro navio com africanos escravizados, há 401 anos, em vez da versão que parte da Declaração de Independência, de 1776. No Brasil, o historiador Luiz Felipe de Alencastro identificou o primeiro desembarque de cativos em 1550, em Pernambuco; com o tráfico negreiro se estendendo até os anos 1850. Nos dois países, séculos de escravidão legaram aos afrodescendentes condições precárias de trabalho, habitação, níveis de renda e bem-estar. Era assim pré-pandemia; pós, assim será. ...

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    PIB per capita quase parando

    Brasil tem um dos maiores níveis de concentração de riqueza do planeta Por Flávia Oliveira, Do O Globo (Foto Marta Azevedo) Desde que o paquistanês Mahbub ul Haq e o indiano Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, apresentaram ao mundo o Índice de Desenvolvimento Humano, nos anos 1990, o PIB per capita perdeu relevância como indicador social. Os dois economistas não aceitavam que condições de vida nos países fossem comparáveis apenas sob a ótica da geração de riqueza, via soma da produção de bens e serviços. À divisão do Produto Interno Bruto sobre o total de habitantes, dimensão da renda, acrescentaram variáveis de educação (alfabetização e anos de escolaridade) e saúde (esperança de vida). E o IDH tornou-se o termômetro mais adequado para medir, ainda que de forma resumida, o progresso de uma sociedade. A renda per capita perdeu espaço nos resultados das contas nacionais, ...

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    Foto Marta Azevedo

    Sete pitacos sobre o carnaval

    A festa tem todas as condições de ser uma das grandes fontes de ofício, arrecadação tributária e bem viver Por Flávia Oliveira, do O Globo Flávia Oliveira (Foto: Marta Azevedo) Reza a lenda que, no Brasil, o ano novo só começa, de verdade, depois do carnaval. Antes de brindar a um 2020 que — assombrado pela instabilidade econômica global, codinome coronavírus, e pela democracia local em teste permanente — se anuncia difícil, cabe o balanço da folia. 1) A vitória da Unidos do Viradouro é prova de que planejamento, estrutura e solvência financeira são elementos essenciais ao carnaval das escolas de samba. A festa é importante demais, sobretudo sob o ponto de vista das tradições culturais e da construção de identidade do povo do Rio de Janeiro. Mas pode ter papel relevante na geração de trabalho e renda na indústria criativa, vocação local e um dos ...

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    Foto: Marta Azevedo

    O carnaval é de Elza

    Ela guarda na própria trajetória a história das negras brasileiras Por Flávia Oliveira , do O Globo  Foto: Marta Azevedo O carnaval 2020 do Rio de Janeiro já tem dona — mesmo que o resultado oficial dos julgadores desminta. Atende por Elza Soares, codinome Deusa. Nascida no século XX, precisou de um novo milênio para ser compreendida e reverenciada. Coisa de pessoa atemporal, como ela mesma se definiu em mesa no Salão Carioca do Livro, ano passado. Elza é a ancestral encarnada que guarda na própria trajetória a história das mulheres negras brasileiras. Não há um solitário capítulo de sua vida que não se conecte a dramas, tragédias e vitórias das conterrâneas de hoje e outrora. Experimentou sexualização precoce, casamento infantil, violência doméstica, agressão por arma de fogo. Sofreu racismo, machismo e assédio moral no mercado de trabalho. O episódio inaugural da carreira, no qual se ...

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