‘Tenho uma responsabilidade coletiva e já não vivo mais só a minha vida’

Em outubro de 2016, durante um ato pela educação no centro do Rio de Janeiro, Marielle Franco encontrou um canto afastado do burburinho para conversar com a reportagem da CULT, por telefone, sobre a sua bem-sucedida candidatura ao legislativo carioca. Aos 37 anos, havia acabado de ser eleita vereadora com 46.502 votos – a quinta mais votada em toda a cidade, e a segunda entre as sete mulheres eleitas para a Câmara Municipal do Rio naquele ano.

Por Amanda Massuela Do Revista Cult

A vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada no centro do Rio nesta quarta (14) (Foto Mídia Ninja/Divulgação)

“Eu nunca tinha sido testada nas urnas. Sabia que havia uma adesão, um reconhecimento do trabalho, uma pauta política que encontrava eco e compreensão na favela, mas as urnas são incógnitas”, disse ela, que concorria pela primeira vez a um cargo político e superou as expectativas de 15 mil votos do seu partido, o PSOL.

Naquele dia, sentia-se feliz e surpresa, determinada a fazer da vereança um “lugar de fiscalização do executivo para garantir os direitos das mulheres”. “Faz diferença para a vida de quem mora na favela, para as mulheres, para as mulheres negras que estão mais vulneráveis, que sofrem mais assédio, mais violência e que morrem mais”, disse à CULT.

Marielle foi executada na noite desta quarta (14), na volta de uma roda de conversa no bairro da Lapa. Seu motorista, Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, também morreu. Com intensa trajetória de militância em movimentos sociais, a ativista defendeu dentro e fora da política institucional os direitos das mulheres, da favela e da juventude negra que sofre (e morre) com a militarização da vida cotidiana. Como vereadora, queria ampliar o diálogo entre as “feministas históricas e as feministas das hashtags”, entre favela e asfalto, entre a força policial e a comunidade.

“Vinda da favela, fui muito questionada quando passei a dialogar com os policiais. Do jeito que já fui agredida – não necessariamente de forma física -, ao olhar uma farda talvez não enxergasse a pessoa que está ali. Tenho sérias críticas à instituição, mas aprendi a dialogar com agentes da segurança pública”, afirmou. Duas semanas antes de ser executada, assumiu como relatora da comissão da Câmara organizada para fiscalizar a intervenção militar nas favelas do Rio.

Formada em Sociologia pela PUC-Rio, mestre em Administração Pública pela UFF e coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, Marielle pautou sua campanha pelos debates de gênero, raça e classe em uma relação transversal. “Transporte, por exemplo, é o lugar em que as mulheres mais sofrem assédio. Trabalhar um debate de política pública voltado para as mulheres é dialogar com o conjunto da cidade, com as classes trabalhadoras, com quem está mais vulnerável”, afirmou durante a entrevista.

A vereadora defendia ações de saúde preventivas em postos de saúde e o uso da cultura como possibilidade de autonomia e de geração de renda para os moradores das favelas. “Atravessando ruas ou mesmo avenidas no Rio há uma mudança de IDH de forma absurda. Essa relação com a desigualdade me fez sustentar a campanha com esse perfil”.

Ao ser questionada – mais de uma vez – quando decidiu se envolver na vida pública e concorrer a um lugar na Câmara, a resposta era sempre a mesma: “Eu tenho uma responsabilidade coletiva e já não vivo só a minha vida”. Seu corpo está sendo velado nesta quinta (15), na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, e protestos foram convocados em várias capitais do país.

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