Trair para não despencar

Por Fernanda Pompeu

Trair namorado, mulher, marido é decisão íntima. Tão antiga e contraditória quanto a face humana na Terra. Tem até quem trai o amante ou, ao contrário, se mantém fiel a sua garota de programa. Evidentemente há aquelas e aqueles que nunca traíram seus amores. Na certa viveram tentações e tiveram oportunidades, mas ficaram firmes.

A traição amorosa e sexual pode ocorrer ou não, ser velada ou confessada, censurável ou legítima. Ela é assunto de cada um. Mas não é esse tipo de traição que, nessa altura do campeonato da minha vida, vem me intrigando. Ando perdendo o sono com a traição a ideias, comportamentos. E a hábitos.

O fato é que tenho traído coisas em que acreditei até piamente. O edifício intitulado Minhas Verdades apresenta problemas de estrutura: algumas paredes rachadas, vigas empenadas, pisos com afundamentos. No meu caso, tenho certeza, a temporada de dúvidas tem a ver com a recente morte do meu pai.

Ele sim foi um homem fiel aos seus princípios. Um sujeito que traçou uma linha reta e persistiu (e insistiu) nela até o fim. Em contraste, eu sempre segui pela estrada de olho nas placas de retorno ou de destinos ao léu. “Ter certeza” nunca foi meu forte.

É claro que tenho opiniões, convicções e bem sei em quem votarei para presidir a República. Não estou falando de decisões simples assim. Falo de posições subjetivas – essas que grudam na gente como segunda pele. Por exemplo, em política sou de esquerda. Mas na vida pessoal sou apartidária. Pareço um bambu, oscilando conforme a direção do vento.

A história é que estou disposta a ser infiel a mim mesma. Odeio a ideia de acordar igual depois de uma noite com sonhos inquietos. Alguma razão o inconsciente deve ter quando nos faz suar ou revoltar-se na cama. Ademais, detesto a perspectiva de ser minha própria cópia. Um xerox da juventude, ou do ano passado.

Além do mais, mudamos o tempo todo. Às vezes em velocidade superior às novidades do mundo. A mudança vai acontecendo a cada palavra escrita na página de cada um. Pouco importa se o enredo saia confuso, contraditório, ambíguo. Interessa que ele seja de nossa autoria. 

Por conta disso, não sinto vontade de convencer ninguém. Não prego bíblia, programa partidário, manual de escrita. Não digo que o sujeito deva ler este ou aquele livro, deve preferir o museu à balada. Tanto faz. Talvez o único princípio do qual ainda não me desgrudei (ou traí) seja o de viva e deixe viver! 
  

 

 

Fonte: Yahoo

 

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