Turista americano é acusado de racismo depois de ofender funcionários negros em museu no Rio

Mesmo na delegacia, americano continuou com falas preconceituosas contra policiais; em nota, MAR diz que ‘racistas não passarão’

por Gilberto Porcidonio no O Globo

Elian Almeida, funcionário do Museu de Arte do Rio- turista se negou a ser atendido por ele – Gilberto Porcidonio

Um caso de racismo cometido por um estrangeiro revoltou funcionários do Museu de Arte do Rio, na Praça Mauá, Zona Portuária do Rio. De acordo com relatos de testemunhas e de uma das vítimas, o turista procurou a recepção por volta das 10h desta quarta-feira, querendo informações. Contudo, ao ser recebido por funcionários negros, se negou a conversar.

— Em inglês, eu perguntei se precisava de ajuda. Ele movimentou o corpo, ignorando a minha presença. Virou de costas para mim e falou: “Não quero negros” — contou o estudante Elian Almeida, que trabalha como educador no museu e foi uma das vítimas. — Eu fiquei chocado, perguntei novamente, e ele repetiu: “Não, negros”. Então eu disse que ia chamar a polícia e ele saiu do museu.

Almeida correu até uma base da Guarda Municipal, que fica em frente ao museu, que recomendou ao jovem procurar uma equipe de policiais do Centro Presente, também baseada na região. Feito isso, o jovem retornou ao museu acompanhado de um policial, e conseguiu localizar o estrangeiro nos arredores. Os envolvidos foram encaminhados para a 4ª DP, onde o caso foi registrado.

Rafael Martins, que trabalha na monitoria do museu e testemunhou o crime, contou que antes de se negar a conversar com Almeida, o turista já havia se negado a ser atendido por uma outra funcionária, Sanny Lopes, que faz a monitoria das artes externas do MAR.

— A minha reação foi de indignação total, mas não consegui fazer nada. O Elian correu para chamar a autoridade mais próxima, e a reação da Sanny foi chorar — relatou Martins, sobre o episódio.

A funcionária, que trabalha há apenas um mês no museu, está em seu primeiro emprego e nunca imaginou que poderia passar por uma situação como essa.

— Hoje, no século XXI, passar por isso é algo que me machuca mas que, ao mesmo tempo, me dá força para seguir e ver o que eu tenho que fazer. O meu choro foi de muita raiva, mas me motiva a continuar. A gente não vai parar aqui não — disse Sanny.

Advogada do Museu de Arte do Rio, Amanda Antunes informou que os funcionários agredidos e a direção do MAR devem se reunir ainda hoje para discutir que medidas jurídicas vão tomar sobre o caso.

— O museu apoia a igualdade racial e de gênero, sempre levantamos essa bandeira. Foi um caso atípico mas a gente não quer deixar isso impune e a gente apoia os nossos funcionários. As vítimas devem conversar com a diretoria para que isso realmente não morra aqui.

Anthony foi conduzido para a 4º DP (Centro) – Domingos Peixoto : Agência O Globo

Turista ainda se negou a falar com policiais negros

Mesmo na delegacia, na frente dos policiais, o turista continuou com suas falas racistas. Fábio Lisboa, policial militar há 4 anos, contou que o estrangeiro estava sem documentos e continuou dizendo que não queria ser abordado por pessoas negras.

— Quando a gente foi levá-lo para a cela, um colega que é pardo, com a pele mais clara, fez a revista. Quando fui falar com ele, ele repetiu: “no black people” — disse o policial. — Eu nunca passei por uma situação como essa.

‘Racistas não passarão’, diz museu

Por estar sem documento, o turista foi identificado apenas como Anthony, natural dos Estados Unidos, e aparenta ter cerca de 35 anos. Ele estaria hospedado no Hotel Barão de Tefé, localizado em frente ao Cais do Valongo, na Gamboa, sendo o principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas e um dos pontos do Circuito Histórico da Celebração da Herança Africana na Zona Portuária.

O consulado americano já foi informado sobre o caso e Anthony pode ser enquadrado em injúria racial.

Em nota, o MAR descreveu a dinâmica do crime e disse que outras medidas legais estão sendo estudadas pelo departamento jurídico do Instituto Odeon, responsável pela administração do local. Por fim, o comunicado reitera o repúdio à atitude do turista e diz: “Racistas não passarão.”

+ sobre o tema

STF volta a proibir a apreensão de menores sem o devido flagrante nas praias do Rio

Após audiência realizada na manhã desta quarta-feira, em Brasília, o STF determinou...

Adolescente denuncia mulher por agressão e injúria racial em Rio Preto

Um adolescente de 13 anos denunciou ter sofrido injúria...

para lembrar

Crescem denúncias no MP do Distrito Federal pelo crime de racismo

Somente este ano, foram 100 casos, a maior marca...

SONIA MARIA DONIZETE

VITIMA: SONIA MARIA DONIZETE Caso de discriminação racial, art. 140...

Racismo no Brasil choca relatora da OEA sobre direitos das mulheres e afrodescendentes

Responsável pela fiscalização do cumprimento das leis e tratados internacionais...

Revendedora é condenada a indenizar por racismo

Fonte: Írohín - Jornal Online - Por Gabriela Galvêz O juiz...
spot_imgspot_img

Quanto custa a dignidade humana de vítimas em casos de racismo?

Quanto custa a dignidade de uma pessoa? E se essa pessoa for uma mulher jovem? E se for uma mulher idosa com 85 anos...

Museu chileno é referência em memória e Direitos Humanos

Os 50 anos do golpe militar no Chile é um momento de reflexão sobre os riscos e ameaças que ainda pairam sobre a democracia...

Unicamp abre grupo de trabalho para criar serviço de acolher e tratar sobre denúncias de racismo

A Unicamp abriu um grupo de trabalho que será responsável por criar um serviço para acolher e fazer tratativas institucionais sobre denúncias de racismo. A equipe...
-+=