Um bispo nêgo brasileiro

Temos muito a agradecer a Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, um dos intelectuais brasileiros mais disruptivos que já conhecemos.

Uma das primeiras coisas que somos apresentados quando iniciamos nossos estudos e compreensão sobre a História é a chamada linha do tempo. O professor ou a professora desenham uma linha e geralmente marcam onde estamos para, a partir de então, nos apresentar o conceito de presente, passado e futuro.

Antônio Bispo dos Santos morreu no dia 3 de dezembro, aos 63 anos – Foto: Cesar Borges/Fotoarena/IMAGO

O presente é exatamente o pontinho que nos localiza nessa linha. O passado é tudo aquilo que está antes do ponto em que estamos. O futuro, sempre incerto, é o que vem depois, algo que pode ser tão imenso quanto instantâneo.

Pois bem, essa é a forma como o Ocidente vem contando o tempo e a História: por meio de uma linha reta. E essa retidão, essa exatidão, é boa metáfora de como esse mesmo tempo nos é apresentado: como se ele fosse uma sucessão de fatos, eventos e personagens que se somaram para chegar no que somos hoje e no que seremos amanhã, sob a falsa ideia de que há um sentido de progresso que organiza a experiência humana no tempo e no espaço. O maior perigo dessa pretensa exatidão da linha reta do tempo é imaginarmos que só há e que só houve um caminho possível. Um caminho com começo, meio e fim.

Mas essa é uma forma um tanto quanto tacanha de ver o mundo. E nos últimos tempos, essa tacanhice vinha sendo denunciada e deliciosamente criticada por um homem que carregava o título de bispo a seu nome. Nada é por acaso.

Nascido numa comunidade quilombola no estado do Piauí no dia 12 de dezembro 1959, Antônio Bispo dos Santos foi, é e continuará sendo um dos intelectuais brasileiros mais disruptivos que já conhecemos. Um homem negro, que criado numa comunidade quilombola rural e pobre, se tornou um dos primeiros da sua família a se alfabetizar e levou a ferro e fogo o conselho de seus mais velhos: ensine tudo o que você aprendeu, até não poder mais.

“Somos muito mais do que uma linha reta”

E ele cumpriu à risca sua profecia. Nêgo Bispo – como ficou conhecido – se tornou um professor, desses grandes, que fazia zombaria consigo mesmo para dizer o que precisa ser dito. E dizia assim na cara para quem quisesse e para quem não quisesse ouvir: somos muito mais do que uma linha reta. Faz muito tempo que há outras gentes por aí. Gente que entrança o tempo, que entrelaça os mundos, gente que vive a vida de um outro jeito. Gente que devemos conhecer e aprender.

E desde esse mundo entrançado (palavra linda que aprendi com ele), Nêgo Bispo apontava o dedo para aquilo que precisava ser mudado. Seu livro mais recente A terra dá, a terra quer é uma espécie de tratado crítico às mazelas do mundo contemporâneo que hoje sentimos na pele com o superaquecimento global.

O mesmo mundo que define quem dança bem, quem canta bem, quem se comporta bem… um mundo que colonializa. Mas esse mundo, que percorre um caminho ermo e cada vez mais quente, não é o ponto de partida, muito menos o ponto de chegada de Nêgo Bispo. Ele fala da, para e sobre sua vida em comunidade.

E assim, como quem não quer nada, mas quer, Nêgo Bispo abre novas trilhas com a ponta de um facão. Trilhas que só fazem sentido se recuperarmos positivamente essa dimensão que durante muito tempo foi entendida como uma característica definidora do ser humano: somos bicho que vive na coletividade. Pode parecer muito simples o que ele diz. Na verdade, é muito simples e ainda bem, porque conhecimento é para ser compartilhado, não encastelado.

Nêgo Bispo a todo momento nos convida para sermos gente, esse conjunto indeterminado de pessoas. Esse conjunto de múltiplas vozes, idades, cores, condições sociais, visões de mundo. Um conjunto complexo, mas que nem por isso deixa de ser conjunto.

Obrigada!

Não há como resumir o que ele vinha dizendo e ensinando há tanto tempo. Há como agradecer e seguir aprendendo com Nêgo Bispo, que faleceu no último dia 3, mas que continua por aqui, por muito tempo.

Foi bonito ver tanta gente que gosto e admiro triste e ao mesmo tempo profundamente agradecida por esse homem. Ouvi histórias que não conhecia, relembrei passagens vibrantes da sua provocatividade tão necessária.

Me disseram, inclusive, que ele sabia que ia morrer. Não duvido. Como ele bem escreveu sobre si e os seus: “somos da circularidade: começo, meio e começo”.

Sim, ele sabia. E como quem sabe, ele fez bom uso das palavras ditas, escritas, pensadas, confabuladas e brincadas, entrelançando passado, presente e futuro numa encruzilhada.

Antônio Bispo dos Santos morreu no dia 3 de dezembro, aos 63 anos.

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