Sucessos na juventude tornam mais prováveis os sucessos na vida adulta

Investir em crianças desfavorecidas tem alta taxa de retorno

Os primeiros anos de vida têm expressivos desdobramentos na determinação do futuro de uma criança. Nas últimas décadas, houve um forte crescimento da agenda de estudos desse fenômeno, e um amplo conjunto de pesquisadores tem encontrado evidências de que as condições socioeconômicas da infância e adolescência têm impactos substanciais sobre as chances de sucesso.

A falta de oportunidades tende a aprisionar os indivíduos em determinadas trajetórias. Certas configurações familiares e culturais tornam a possibilidade de progressão dos mais desfavorecidos especialmente difícil. Poucos são aqueles que escapam de uma condição quase determinística.

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O nível de renda e a escolaridade dos pais, por exemplo, têm uma alta influência sobre a educação dos filhos. Para aqueles cujos pais não têm diploma universitário e que residem em um bairro em que não é comum ir para a faculdade, adentrar no ensino superior representa entrar em um mundo muito diferente daquele em que eles nasceram.

A escola e o meio social onde cada um está inserido afetam não somente as escolhas mas também a probabilidade de se graduar em algum curso de elite. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos, país considerado como a terra das oportunidades, ajudam a ilustrar isso.

No caso das oito universidades de elite que compõem a Ivy LeagueRaj Chetty e coautores mostraram que as crianças do 1% mais rico dominam as matrículas. Elas têm duas vezes mais chances de frequentar uma universidade da Ivy-Plus (Ivy League, Stanford, MIT Duke e Chicago) do que as das famílias de classe média com rendimento escolar semelhante.

Uma vez terminadas as primeiras etapas de formação, os efeitos sobre o mercado de trabalho tendem a ser persistentes e a se reproduzirem nas futuras gerações. As evidências ainda são limitadas, mas sugerem que a influência da renda dos pais no rendimento dos filhos está ampliando nos últimos anos. Desde 1970, a elasticidade intergeracional da renda aumentou. Isso representa que grande parte do rendimento permanece ao longo das gerações.

Os pesquisadores Flávio Cunha e James Heckman, ganhador do Prêmio no Nobel de Economia em 2000, destacam que as influências parentais vão além do dinheiro. As características dos pais, seus traços de personalidade e suas habilidades também afetam as crianças. Aquelas que nascem em ambientes cujos pais não têm condições de promover seus desenvolvimentos cognitivos e não cognitivos vão ficar em consideráveis desvantagens para competir com os filhos da elite.

Estudos têm mostrado que sucessos na juventude tornam os sucessos na vida adulta mais prováveis. Investir em crianças desfavorecidas representa impactar suas trajetórias e sua capacidade de gerar maior valor social no futuro. As pesquisas realizadas por Heckman mostram que esse tipo de investimento tem alta taxa de retorno.

Nesse âmbito, deve-se lembrar que a desigualdade é injusta quando se deve a fatores fora do controle do indivíduo. Classe social, raça e gênero são alguns desses fatores e fontes relevantes de diferenças na mobilidade social entre indivíduos e entre gerações. Mobilidade essa que está associada à igualdade de oportunidades e à limitação dos efeitos da loteria do nascimento na vida dos indivíduos.

Entretanto, esse não parece representar um objetivo perseguido pela sociedade brasileira. Sistematicamente premiamos somente aqueles que nasceram em berço de ouro. Aqui, poucos são aqueles que conseguem florescer em um cenário de acentuada privação. Poucos são aqueles que conseguem atingir seu potencial. Ao somar todos esses potenciais individuais não realizados, tem-se coletivamente uma sociedade com baixa prosperidade.


O texto é uma homenagem à música “Santé”, composta por Juanpaio Toch, Moon Willis e Stromae, interpretada por Stromae.

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