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Um paralelo entre as manifestações de 1960 e os movimentos atuais, por Assis Ribeiro

 

A procura do “novo”

Por Assis Ribeiro, No Ggn

As sociedades experimentam padrões de vida em deterioração, crescente insegurança social e pessoal e decadência dos serviços públicos enquanto as minorias abastadas prosperam cada vez mais.

As tentativas das populações em exercer influência nas decisões e no destino das suas cidades parecem não serem mais atendidas pela instituição do voto já que  mudanças de governos e parlamentos ocorridas pelo mundo em várias eleições não foram suficientes para que surgisse uma nova política que atendesse de forma mais ampla aos anseios dos governados.

A resposta subjetiva a estas condições tem sido as revoltas esporádicas que podem ganhar uma musculatura incontrolável pela fraqueza e lentidão das respostas dadas pelos governos. Em outras palavras, as condições objetivas não têm sido acompanhadas pelo crescimento das forças subjetivas capazes de transformar o Estado ou a sociedade.

Daí a procura incessante pelo “novo” sem nos darmos conta que transformações estão em pleno andamento no continente sul-americano com as políticas progressistas, de melhorias sociais e de inclusão, com mais empregos, apontados por estudiosos estrangeiros como o que de melhor está sendo feito no mundo atual.

Nos últimos anos uma série de movimentos de ruas iniciou o que pode se tornar algo próximo dos acontecimentos da década de 1960.

O Movimento 15M na Espanha desencadeou uma série de protestos espontâneos de cidadãos inicialmente organizados pelas redes sociais e se inicia em 15 de maio de 2011. Trata-se de uma série de protestos pacíficos que reivindicam uma mudança na política e na sociedade espanhola, com a bandeira de que os partidos políticos não os representam nem tomam medidas que os beneficiem. São reivindicações políticas, econômicas e sociais heterogêneas, reflexo do desejo de seus participantes de mudanças profundas no modelo democrático e econômico vigente.

Occupy Wall Street,  Movimento de protesto contra a desigualdade econômica e social, a ganância, a corrupção e a indevida influência das empresas – sobretudo do setor financeiro – no governo dos Estados Unidos. Iniciado em 17 de setembro de 2011, no distrito financeiro de Manhattan, na cidade de Nova York. Posteriormente surgiram outros movimentos Occupy por todo o mundo.

Primavera Árabe.  As redes sociais desempenharam um papel considerável nas manifestações dos países árabes. A propagação do movimento conhecido como Primavera Árabe começa em 2010 na Tunísia quando um jovem tunisiano, Mohamed Bouazizi, ateou fogo ao próprio corpo como forma de manifestação contra as condições de vida no seu país e se estende para todo o Norte da África e Oriente Médio. O termo é uma alusão à Primavera de Praga.

No Brasil o movimento de junho de 2013, convocado igualmente pelas redes sociais, desencadeia uma série de manifestações questionando melhorias das condições de vida da população.

Todas essas manifestações tiveram em comum a aversão à classe política e a decepção do “sonho prometido” que não consegue mais empolgar a juventude e são ampliadas pelo autoritarismo e violência das instituições de “controle”.

Movimentos das populações negras também surgem nos EUA após o “incidente” de Ferguson quando Michael Brown, um jovem negro, foi assassinado por Darren Wilson, um policial branco.  Esse acontecimento provocou o crescimento das manifestações e tornou-se símbolo da violência contra negros nos Estados Unidos.

Os problemas da intolerância contra os LGBT têm desencadeado uma série de protestos por parte das populações mundiais.

A intolerância aos imigrantes segue esse mesmo rastro.

A proliferação de igrejas é outra semelhança com os movimentos da década de 60 onde se procurava alternativas espirituais para um mundo melhor.

Se há semelhanças com o que ocorreu na década de 60, as dessemelhança são muito maiores.

1 – O fato é que os governos se utilizaram, após a década de 1960, de instrumentos de distorção que visaram eliminar todos os argumentos fora dos parâmetros para que se mantenha o “status quo” da cultura neoliberal e da globalização. Uma verdadeira ação de tentativa de aculturação das populações e despolitização da sociedade.

2 – Na atualidade o que se pretende é que o poder político da população se resuma ao momento do voto, às eleições. É como se fazer política fosse somente votar, e qualquer descompasso que não seja eleitoral tem que ser suprimido.

3 – Outra forma utilizada para conter alternativas foi o cientificismo empregado na política, como um fenômeno mundial, onde cada vez mais a política gira em torno da gestão.  A ideia é um pouco essa: ao invés de atacar os problemas, nós vamos gerir os problemas.

4 – Mais grave ainda é a conotação dada pelo sistema que tem conseguido transformar toda auto-organização da sociedade na ideia de quadrilha, ou a retórica da chamada bolivarização para qualquer iniciativa que pretenda incluir a população nas deliberações e decisões sobre o destino do país.

Se os itens acima enfraqueceram os instrumentos de mudança na sociedade, trazem como efeito colateral a despolitização dos governos e a falta de pensamento, tanto que é uma constatação mundial a busca por estrategistas, sejam líderes políticos ou grandes escritores e compositores que sirvam de horizonte e apontem novos caminhos.

Diferentemente das décadas próximas à 1960 hoje não se vislumbra líderes como John F. Kennedy, Leonid Brejnev, Charles de Gaulle, Ho Chi Minh, Getúlio Vargas, nem ativistas da estrutura de Nelson Mandela, Che Guevara, Martin Luther King, pensadores como Darcy Ribeiro e Paulo Freire, escritores da envergadura de Jack Kerouac que conseguiu sintetizar a insatisfação e reivindicação de melhorias, Alan Ginsburg, Carlos Castañeda, Luiz Carlos Maciel, músicos que revolucionaram os costumes como Hendrix, Bob Dylan, Joan Baez e os brasileiros do “tropicalismo”,  cineastas com o conteúdo de Luis Buñuel, Pasolini, Antonioni, Fellini, Glauber Rocha e o teatro com José Celso Martinez.

Sim, o mundo volta a buscar melhorias culturais e comportamental. Continuamos sequiosos por mais liberdade e cada vez mais surgem grupos que passam a contestar a ordem social e mundial em múltiplos aspectos, como a sexualidade, os costumes, a moral, o consumismo, as novas guerras, a representatividade e a melhoria dos serviços públicos.

Os riscos não são mais os mesmos dos movimentos da década de 60. São mais graves.

A manipulação do sistema com o uso da mídia provoca a apropriação da linguagem das ruas e canalizam tais descontentamentos para a criminalização da política.

Esse é o maior risco que é aumentado pelo outro instrumento utilizado para manter as formas de controle; a violência da repressão dos movimentos que ao invés de procurar solucionar os problemas colocam a sociedade em um estado de exceção permanente com a utilização da ideologia da direita de que o dispositivo da segurança pública é o esvaziamento da política.

Pode ocorrer, tal como na década de 60, uma reação ao sistema em duas fases distintas. A primeira marcada por um sabor de inocência e até de lirismo nas manifestações socioculturais e no âmbito da política com o evidente idealismo juvenil e o entusiasmo no espírito de luta do povo. E a segunda fase com um tom mais ácido, com a perda da inocência e a exacerbação dos protestos contra o endurecimento dos governos, com a radicalização dos movimentos que podem protestar por protestar, sem nenhuma ideologia específica, o que provocará um caos nas relações sociais e de poder.

Para que as transformações que estão ocorrendo no Brasil se tornem claras e percebidas é preciso que o governo:

1) Estabeleça o contato diário com a população;

2) Torne claro a sua ideologia;

3) Explique as políticas implantadas;

4) Mesmo convergindo com a sua base disforme e antagônica, estabeleça o seu lado político;

5) Aponte com clareza os novos rumos;

6) Que a presidenta, o  Ministro  da Casa Civil, o chefe das relações institucionais e todos os demais Ministros façam política e deixem a gestão para os funcionários dos ministérios;

7) Dê atenção as novas formas de comunicação e aos novos grupos de formação de opinião;

8) Se antecipe aos movimentos “macartistas” da grande imprensa.

Só dessa forma o governo bloqueará a tentativa da mídia de igualá-lo a tantos outros, como expressado por Noblat: “Dilma se rende e fará no segundo governo o que negou que faria.

 

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