Uma vaia, um alujá

O Salgueiro levou, em 2016, o “povo de rua”, a malandragem da chamada macumba carioca, das quimbandas, catimbós e encantarias de jurema, para a avenida, ilustrando uma parte do enredo sobre a história da malandragem carioca.

Por LUIZ ANTONIO SIMAS, da Rádio Arquibancada

Na frente da escola vinha Seu Tranca-Rua, com sua desconcertante multiplicidade cruzada. Capitaneados por ele, a turma da guma, da curimba, da raspa do tacho, da beleza da rua, dos feitiços da jurema, dos catimbós, das tabernas ibéricas e biroscas cariocas, daqueles que correram gira pelo norte.

A Mangueira mereceu levar o caneco; a Portela arrebatou. Mas como foi corajoso ver a Academia do Samba desfilar louvando o povo que produz um saber e formas de beleza que desconfortam o cânone. Botar Tranca-Rua de capa e cartola abrindo o desfile e Seu Zé Pilintra, o Zé das Alagoas, juremeiro do catimbó, fechando, cercado pelas pombagiras e abençoado por Oxalá, faz mais pela luta por uma cidade plural que muito discurso bacana.

O mesmo Salgueiro, em 1960, inaugurou a era de enredos de temática afro-brasileira no carnaval, louvando Zumbi dos Palmares. É o mesmo Salgueiro que surgiu no morro em que a Tenda Espírita Divino Espírito Santo, de Seu Paulino Oliveira, tocava os atabaques para as entidades da umbanda. É o morro em que o Caxambu comia solto e Dona Helena, benzedeira que curou muita gente com suas jaculatórias e folhinhas de guiné e alfazema, fazia caridade.

O Salgueiro é de Xangô; vermelho e branco como o orixá da justiça, senhor do oxé, o machado sagrado. Os alujás tocados para o Rei de Oyó ressoaram nos candomblés do morro, misturaram-se aos improvisos do partido-alto e repercutem ainda na furiosa bateria salgueirense. As matriarcas do Salgueiro são candaces guerreiras do samba carioca.

Ontem, durante a final da disputa do samba-enredo, o locutor oficial da escola pediu votos para o candidato Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus; a denominação evangélica que vincula ao mal as práticas, saberes, religiosidades e modos de invenção da vida oriundos das praias africanas e redimensionados na diáspora.

Sugiro que a pessoa que teve essa ideia leia as publicações da IURD, inclusive as do bispo, sobre as crenças afro-brasileiras e os saberes a elas vinculados. São textos racistas e configuram prática de crime e incitação ao ódio.

A direção do Salgueiro pediu votos para um candidato que é a própria negação da história da escola. A quadra do Salgueiro vaiou o pedido de votos de forma imediata. Ao vaiar a indicação de votos no bispo, os salgueirenses estavam aplaudindo a história da agremiação.

Xangô deve ter ficado furioso com o pedido de voto. Xangô deve estar dançando feliz com a vaia. O apupo, afinal, soou como um alujá saído das mãos calejadas dos tambozeiros primordiais das praias africanas para dizer que os deuses continuarão dançando, contra a infâmia dos oportunistas e intolerantes, entre as mulheres e os homens de bem.

Viva o Salgueiro!

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