Vida real: beijo gay gera reações agressivas e piadas nas ruas de São Paulo

 

O beijo gay dado pelos personagens Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) no último capítulo da novela “Amor à Vida” parou milhões de brasileiros diante da TV, na noite da última sexta-feira (31). Inédito nas novelas da Globo, o gesto de carinho alçou o topo dos comentários nas redes sociais e foi comemorado como um gol em fim de campeonato em diversos cantos do País.
 

Diante de tanta repercussão causada por um acontecimento ficcional, o iGay foi testar a reação das pessoas a este gesto de carinho na vida real. Três casais homossexuais aceitaram o nosso desafio. Eles trocaram carinhos e se beijaram em ruas do movimentado centro de São Paulo, na última quinta-feira (30). 

Foram três horas transitando por vias conhecidas como as ruas São Bento e Libero Badaró e a Avenida São João. Durante todo esse tempo, a reportagem procurou manter certa distância dos casais, buscando registrar uma reação natural das pessoas.

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Embora enojadas com o que ouviram, a operadora de produção Silvia Senne e a fotógrafa Carolina Loge, ambas com 27 anos, não se surpreenderam com a recepção negativa, já que enfrentam isso cotidianamente. “Mandaram a gente para o motel apenas por causa de um beijo, falaram que era uma pouca vergonha. Um sorveteiro mandou a gente comprar um sorvete para ter o que chupar”, relata Silvia, que ao lado da esposa ouviu mais de uma dezena de impropérios, enquanto esteve acompanhada da reportagem. Dois homens chegaram ao cúmulo de abordá-las fisicamente, tocando as suas costas.

Carolina e Silvia não se arrependem da experiência, apesar das situações desagradáveis por quais passaram nas três horas. “Topamos participar porque queremos que a reação das pessoas mude. Mostrar a elas que não tem nada anormal em nos beijarmos. Quanto mais fizermos isso, menores serão as agressões”, defende Silvia.

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“Mandaram a gente para o motel apenas por causa de um beijo, falaram que era uma pouca vergonha. Um sorveteiro mandou a gente comprar um sorvete para ter o que chupar (Silvia Senne)

Para a fotógrafa, a experiência proposta pela reportagem significou a superação de um trauma, causado por uma agressão que ela sofreu quando estava com a esposa em um bar paulista, há um ano. “Um cara chegou com a família, começou a chamar a gente de sapatão e depois me deu um soco. Fiquei bastante tempo sem conseguir sair. Andar de mãos dadas na rua então era impensável”, conta Carolina.

Os dois casais formados por homens ouviram ofensas menos agressivas que o par feminino, mas também passaram por momentos constrangedores. Na Rua Barão de Paranapiacaba – conhecida por concentrar lojas que vendem alianças de casamento – a situação chegou a ficar tensa, com grupo de homens que insistiam em gritar ofensas e em mostrar o dedo médio na direção das duas duplas.

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Edu Cesar

O agressivo grupo de homens da Rua Barão de Paranapiacaba

“Isso acontece muito quando os caras estão em grupos. Nestas ocasiões, eles se sentem muito à vontade para ofender“, explica o produtor Victor Henrique Porfirio, de 18 anos, que estava acompanhado do namorado, o estudante Gabriel Gerônimo, da mesma idade. “Como fisicamente somos pequenos, chamam muito a gente de bichinha e viadinho”, prossegue Victor.

O terceiro casal levado pela reportagem ao centro também está acostumado a ter o seu amor julgado e ofendido nas ruas. ”O que mais incomoda a gente são as risadas. É como se nós estivéssemos aqui para divertir essas pessoas”, lamenta o estudante Renato Milan. O namorado dele, o geofísicoFrederico Sosnowski, 33, já foi agredido fisicamente por um desconhecido. “Já houve situações extremas, como a vez em que me jogaram uma garrafa”, descreve Frederico.

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BEIJOS SÓ DENTRO DE CASA 

Mas diferentemente dos homossexuais que compõem esses três casais há outros que abrem mão de demonstrar o seu amor por receio de ter sua segurança ameaçada. “Eu acredito que a sociedade não está pronta para troca de carícias, beijos ou qualquer tipo de demonstração de carinho entre homens”, diz o chefe de expedienteLucas Marvilla, 23. “Tenho receio de brigas e agressões verbais e físicas, então acabei ficando muito introspectivo. Para mim, se tornou algo normal, e acabo demonstrando meu amor apenas entre amigos e na minha própria casa”, admite Lucas, se resignando.

Apesar desta conformação, Lucas reconhece que é muito melhor não precisar se esconder. Ele lembra inclusive de um momento especial com o parceiro. “Quando fomos à Bienal do Livro, nos andamos de mãos dadas e foi muito bom. Meu namorado me disse que eu estava realizando um sonho dele”, lembra o chefe de expediente.

Estudante de Direito, Ana Luisa Goes, 19, viveu o medo de trocar carinhos em público, mas conseguiu superá-lo, ajudando também a namorada a vencer esse receio. “No começo, eu forcei um pouco a barra. Eu falava para ela segurar a minha mão, dizendo que ia ficar tudo bem. Mostrava que outros casais faziam mesmo, e isso nos encorajava muito”, recorda Ana.

AMOR LEGÍTIMO E SEM ESTIGMAS 

A antropóloga e escritora Mirian Goldenberg entende que qualquer troca de afeto no espaço público, independente da orientação sexual das pessoas, pode causar incômodo. “Qualquer beijo em público causa certo estranhamento. Porque existe uma ideia de que ele é parte de um mundo privado, associado ao sexo. No caso do beijo dos gays, o estranhamento causado é duplo”, avalia a especialista.

“Qualquer beijo em público causa certo estranhamento. Porque existe uma ideia de que ele é parte de um mundo privado, associado ao sexo. No caso do beijo dos gays, o estranhamento causado é duplo (Mirian Goldenberg)

Para Mirian, o casal homossexual de “Amor à Vida”, assim como a recente saída do armário da cantora Daniela Mercury, contribuem para a normatização do beijo entre pessoas do mesmo sexo nos espaços públicos. “Eles estão mostrando que ser gay é uma orientação tão legitima como qualquer outra. Tornando cada vez mais naturais comportamentos anteriormente estigmatizados”, analisa a antropóloga, que é também professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Por outro lado, a postura afirmativa dos casais gays vai provocar reações contrárias inevitáveis, com aponta o professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Leandro Karnal. “Temos uma reação de causa e efeito. Quando todos encontram seu espaço e param de aceitar o preconceito, pode haver mais violência”, pontua Karnal.

As sambistas Maria Helena Pereira, 64, e Dira Santos, 70, são a prova e o alento que o enfrentamento pode valer a pena. Durante a execução da sessão fotos da galeria acima, elas abordaram a equipe de reportagem para exaltar os beijos dos casais. “É lindo ver dois moços tão bonitos se beijando”, celebrou Maria.

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Edu Cesar

Maria Helena Pereira, 64, e Dira Santos, 70, responsáveis pelo mais lindo momento da reportagem
 
Fonte: iGay

 

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