quarta-feira, agosto 17, 2022
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Visões do Império: racismo e colonialismo em português

O aparecimento da fotografia em pleno colonialismo, quando já parte do projecto científico tinha sido cooptado (para não dizer criado) pelo mesmo, criou novas formas de produção de conhecimento que não só enchem os arquivos, mas também as culturas populares dos países europeus. Objectos e imagens enchem paredes, estantes e gavetas nas casas de várias famílias, cuja ligação com os seus países de origem é muito ténue (e estritamente colonial), e criam uma normalidade que raras vezes é questionada. É a partir destas colecções de objectos que vão surgindo em feiras que Joana Pontes vai traçar, com ajuda de alguns investigadores, uma história do uso da fotografia na construção de uma imagem do império colonial português.

Não sendo original na sua aproximação formal do formato documental, é nas fotografias mostradas e, principalmente, nas intervenções dos investigadores que o filme consegue brilhar. Se parte do familiar e do quotidiano, o âmbito vai-se expandindo e vai ultrapassando a mera representação irreflectida de curiosidades e estereótipos, para englobar a produção científica e a máquina da propaganda de um sistema político que não se coibiu de usar a censura e a violência contra vozes que o questionassem e às suas instituições. O revelar o que é tão comum que já nem se percebe, bem como os “buracos” entre o que é mostrado são momentos de transformação para quem não tenha ainda começado a reflectir sobre este tema. Tudo isto sem condescendência e, mesmo falando de pessoas que fazem parte do meio académico, sem a opacidade do discurso que caracteriza algumas das pessoas e áreas do mesmo.

A acompanhar o filme está também, até ao final do ano, uma exposição com o mesmo título no Padrão dos Descobrimentos (https://padraodosdescobrimentos.pt/evento/visoes-do-imperio/), que, símbolo dessa época, tanto tem feito para fazer parte do discurso crítico da mesma. Num momento em que se vai começando a falar sobre o colonialismo e as suas representações a propósito das estátuas que enchem o espaço público, este documentário traz mais argumentos que permitem o desenvolvimento de um olhar crítico sobre um processo político e histórico que está na base de uma forma de pensar racista e colonialista que é a base de uma portugalidade contemporânea.

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