Você não sabe ‘how it feels’

Não.

Não adianta se emocionar com a performance da Lady Gaga no Oscar se você é complacente com abuso.

Por Bela Bordeaux, do HuffPost Brasil

Domingo eu chorei pela força de uma música.

Pela força de uma mulher e pela força de várias pessoas que se levantaram contra o abuso sexual.

Me impressiona a força dessa mulher para gritar que foi abusada, para não ter vergonha de colocar a cara a tapas e se propor a defender outras vítimas de um acontecimento devastador tão presente na vida de muitas mulheres.

Quando um assunto como estupro ganha o mundo pop fica mais do que claro que esta é a realidade.

Milhões de pessoas vão se identificar com essa letra.

Não foi apenas a Lady Gaga e as universitárias americanas que foram estupradas para que a música Till It Happens To You fosse criada.

Essa música é um grito.

Um grito de todas as pessoas que já passaram por um abuso.

Escute bem ele, entenda o seu apelo:

1 em cada 5 mulheres na faculdade ainda serão estupradas esse ano se nada mudar.

O mundo fora da internet precisa de começar a levar o estupro a sério.

É muito triste chegar a essa conclusão, mas a cultura do estupro tem uma estratégia tão bem traçada que depois do abuso vem a vergonha.

Lady Gaga performs at the Oscars on Sunday, Feb. 28, 2016, at the Dolby Theatre in Los Angeles. (Photo by Chris Pizzello/Invision/AP)
Lady Gaga performs at the Oscars on Sunday, Feb. 28, 2016, at the Dolby Theatre in Los Angeles. (Photo by Chris Pizzello/Invision/AP)

Um processo que faz a gente continuar calada: é constrangedor falar sobre seu estupro. Ninguém fala, e é por isso que a gente continua presa dentro dessa sociedade abusadora.

A gente não tem que ter vergonha do estupro e de gritar sobre isso, a gente tem que ter vergonha de continuar sendo complacente com a cultura do estupro, e com homens que estupram.

Sim, nós somos estupradas por homens.

Por homens normais, por ‘caras bacanas’.

Um estuprador não é um homem dentro de uma caverna que espera a gente passar de saia lá na porta.

Ele é o seu amigo, o seu pai, e pode ser você.

Já está na hora de pararmos de falar que o tamanho da roupa não importa, disso todo mundo já sabe.

Está na hora de apontar o dedo pra quem causa todo esse sofrimento, e o dedo ali está apontado pra você, abusador.

O meu ponto é que não adianta nada você se emocionar e se indignar com a apresentação da Lady Gaga quando você ainda “dá ideia” pra aquele amigo que já transou com uma menina caindo de bêbada em uma festa.

Adianta menos ainda se você for esse cara.

Não adianta se indignar com estupro se você obriga a sua namorada a transar com você, ou se você transa com alguém que não está em condições de te dizer não.

Não adianta se arrepiar e sentir a emoção que essa música carrega, se você não se coloca no lugar da vítima e muda as suas atitudes para que milhões que meninas ainda esse ano deixem de saber how it feels.

+ sobre o tema

Manifesto 2020 – Rede de Mulheres Negras Evangélicas do Brasil

Nós, mulheres negras cristãs, jovens e adultas oriundas de...

Primeiro pastor homossexual da Malásia vai se casar

Casar-se no aniversário da independência da Malásia, em 31...

Sair da Zona de Conforto

A Marcha das Mulheres Negras foi o fato mais...

Mulheres para conhecer: Sueli Carneiro

Mulheres para conhecer: Sueli Carneiro Por Carol Miranda  Esse é o...

para lembrar

Feminicídios em Teresina já ultrapassaram todos os casos de 2017 em mais de 30%

Dados da Secretaria de Segurança mostram que neste ano...

Jovem denuncia motorista de aplicativo por se masturbar durante corrida em Salto

Uma jovem de 19 anos registrou boletim de ocorrência...

A mulher negra zangada

Todo mundo conhece o esteriótipo da mulher negra zangada. Ela...

Taxa de homicídios de mulheres negras é mais que o dobro da de mulheres brancas

A taxa de mulheres negras vítimas de homicídios no...
spot_imgspot_img

Documentário sobre Lélia Gonzales reverencia legado da ativista

Uma das vozes mais importantes do movimento negro e feminista no país, Lélia Gonzales é tema do Projeto Memória Lélia Gonzalez: Caminhos e Reflexões Antirracistas e Antissexistas,...

Aborto legal: ‘80% dos estupros são contra meninas que muitas vezes nem sabem o que é gravidez’, diz obstetra

Em 2020, o ginecologista Olímpio Moraes, diretor médico da Universidade de Pernambuco, chegou ao hospital sob gritos de “assassino” porque ia interromper a gestação...

Lançamento do livro “A importância de uma lei integral de proteção às mulheres em situação de violência de gênero”

O caminho para a criação de uma lei geral que reconheça e responda a todas as formas de violência de gênero contra as mulheres...
-+=