Walter Freitas aborda a herança da cultura negra

Os povos da floresta tocam música negra. E os sons surgem de um instrumento espanhol medieval, fabricado artesanalmente há séculos. Desse cenário anacrônico, híbrido e fabuloso nasceu o mais recente projeto do dramaturgo Walter Freitas. “Bandurra-Eh!” foi buscar seus incríveis personagens e histórias numa realidade próxima: as comunidades quilombolas do nordeste paraense. A rica pesquisa de campo desvendou uma cultura musical peculiar, resguardada desde a época da colonização.

“Os caboclos se apropriaram desse instrumento europeu. Só que essa cultura, que resistiu por tanto tempo, está prestes a cair no esquecimento, pois a geração dos velhos artesãos que produzia e tocava a bandurra está morrendo, sem que a tradição se renove”, explica Freitas. E é então sobre identidade e memória cultural que discursa o espetáculo, com pré-estreia hoje no Instituto de Artes do Pará (IAP).

Mais uma vez explorando múltiplas linguagens artísticas, Walter leva ao palco teatro, dança e música para contar a história de três personagens pinçados das expedições do dramaturgo às comunidades negras de Juaba, Matias, Carapajó e Maú, no município de Cametá. Maria Manadora, a parteira; João Moquebito, o tocador de bandurra; e Georgia Cupertina, a rainha, compõem o enredo, que se mistura ainda a traços da mitologia grega. A trama gira em torno da “caixa sonora” que, aberta, acaba libertando pragas que se espalham pela pequena vila.

Fazendo do teatro uma reflexão sobre a identidade cultural amazônica, “Bandurra-Eh!” foi escrito em versos – característica recorrente na dramaturgia de Walter Freitas – e reúne uma vasta compilação de elementos culturais da região do Baixo Tocantins, no Pará.

“Em algumas regiões, a cultura negra é preponderante, e supera a indígena. Muita gente ainda não percebe que o Pará, muito além de ser uma terra índia, é uma terra também de raiz africana”, defende o dramaturgo, que também é músico e compositor, com uma trajetória de mais de 30 anos nos palcos.

Confira trechos da entrevista com Walter Freitas, que conversou com o Caderno Você sobre o novo espetáculo, a dificuldade de fazer teatro no Pará e seus futuros projetos, que incluem o lançamento de um disco inspirado na obra de Dalcídio Jurandir.

P: “Bandurra-Eh!” investiga a cultura quilombola. Qual o papel do negro num Estado conhecido por seu iminente traço indígena?

R: A cultura negra é um traço fundamental. Há muitas comunidades quilombolas no Pará, e isso não pode ser ignorado. Mais do que uma terra indígena, o Pará possui o legado cultural negro. Na música, por exemplo, há manifestações tradicionais, como samba de cacete e banguê. Viajei até a região do Baixo Amazonas e constatei isso. Descobri que nas comunidades quilombolas eles tocavam a bandurra, instrumento que chegou aqui na época da colonização. Os caboclos se apropriaram da bandurra e começaram a fabricá-la. Na pesquisa, descobri que o instrumento está quase se perdendo, porque as gerações que o fabricavam artesanalmente e o tocavam estão morrendo. São traços da cultura que se fragilizam com o tempo. E por conta desse risco de memória resolvi montar o projeto que discute a perda das tradições amazônicas.

P: Por quanto tempo foi desenvolvida a pesquisa de campo para esse espetáculo?

R: Entramos nas comunidades quilombolas por 20 dias. Ministramos nove oficinas de arte em três comunidades, e visitamos mais uma. Esse processo ocorreu em agosto do ano passado, e no dia 24 do mesmo mês partimos para o trabalho de encenação.

P: Então paralelamente às preparações para a reencenação de “Fundo Reyno”, sua peça anterior, você trabalhava no novo projeto. O que o motiva a manter esse ritmo de trabalho?

R: A estreia de “Fundo Reyno” aconteceu em março de 2010, e no segundo semestre voltamos com ele. Acabei emendando com a pesquisa para o “Bandurra-Eh!”. Ou seja: em menos de um ano, já temos outro espetáculo inédito. O que motiva é o amor. Eu amo fazer dramaturgia, música, compor. Então eu faço sempre. Só que há de se jogar com o que se tem. Dessa vez são apenas três pessoas no elenco, menos do que na peça anterior. Isso porque eu pretendo deixar a peça em cartaz o máximo de tempo possível. Uma das coisas mais cruéis é que o nosso trabalho não tem continuidade. A gente faz uma temporada e o espetáculo acaba, mesmo que ele leve sete meses para ficar pronto, como foi o caso do “Bandurra-Eh!”. É preciso batalhar pela mudança das políticas públicas.

P: E como fazer isso?

R: Bom, particularmente, nos últimos anos, virei um rato de edital. Fico atrás de patrocínio, na fila mesmo. Você faz 15, 20 pedidos de apoio, às vezes consegue um. Mas é assim. Tem que correr atrás de oportunidades. Agora mesmo eu estou à espera de editais para circular com o “Bandurra-Eh!” em cidades do interior e levá-lo também às comunidades quilombolas, que foram fonte de pesquisa.

P: Você falou do amor por música e teatro, e uma das características da sua dramaturgia é aliar os dois. Por que costurar teatro e música?

R: Eu originalmente sou compositor. Comecei em arte fazendo música. Só que nos últimos anos eu entendi que é muito cruel você trabalhar só com música. Dá o maior trabalho preparar um show, e aí você apresenta duas vezes e acabou. Casar teatro e música traz um retorno maior. Até porque eu alio tudo o que gosto de fazer: escrevo, componho, toco e quando quero atuar, atuo, além de dirigir. Como dramaturgo, tenho uns dez, doze trabalhos.

P: Você tem produzido bastante no teatro, mas tem algum novo projeto em música?

R: Comecei um projeto em 2009, que retomei agora. O trabalho é baseado nos romances de Dalcídio Jurandir. Há muito tempo pesquiso a obra dele. Em 1982, fiz a adaptação e direção para o teatro de “Marajó”. Só que agora será um trabalho de fôlego, que remonta à toda produção dele. Pretendo lançar esse disco no começo de 2012.

SERVIÇO

“Bandurra-Eh!”, espetáculo cênico de Walter Freitas, com Marina Mota e Juliana Abramides. Pré-estreia nesta quarta-feira (23), às 20 horas, no Instituto de Artes do Pará – IAP (ao lado da Basílica). Temporada de 24/02 a 4/03, todos os dias, sempre às 20 horas. O espetáculo do dia 24 integra a programação de lançamento dos novos editais do IAP. Entrada franca.

 

Fonte: Diário do Pará

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