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William Jackson Harper, de ‘The Good Place’, fala sobre a mudança do estereótipo do nerd negro na TV

Na série, que estreia nesta sexta sua quarta temporada na Netflix, ator vive professor de filosofia eternamente indeciso

Por Kwame Opam, do New York Times

William Jackson Harper- homem negro, com pouco cabelo, vestindo camiseta verde musgo e calça jeans- sentado em uma cadeira
William Jackson Harper, que interpreta Chidi Anagonye, em The Good Place Foto: TRACY NGUYEN / NYT

William Jackson Harper está nervoso. Enquanto dá a entrevista por telefone, anda pela sala analisando tudo o que ele diz, torcendo para que não tenha dito “nada estúpido”. Neurótico assumido, ele conta como é difícil fazer planos para o jantar (ele e a namorada já conversaram sobre isso). O pavor de fazer planos com antecedência é uma das idiossincrasias que o ator levou para o eternamente indeciso professor Chidi Anagonye de “The Good Place”, cuja quarta e última temporada estreia hoje no Brasil.

Na trama da série original da NBC, Chidi descobre, junto com um grupo de pessoas — Eleanor Shellstrop (Kristen Bell), Tahani (Jameela Jamil) e Jason (Manny Jacinto), — que morreu e acordou lugar onde tudo parece perfeito. Com o tempo, eles descobrem que a cidade idílica está longe de ser o paraíso que pensavam, onde o inferno de cada um é literalmente o outro. Nesta purgação sartreana, personagem de Harper é um filósofo que enlouquece quem está a sua volta com sua indecisão e questões morais.

Chidi é o tipo de personagem que, em séries anteriores, atraiam piadas com mais frequência. Em vez disso, ele é um protagonista romântico (par de Kristen Bell) de uma das séries mais populares da atualidade. Harper disse que Chidi é ele “usando esteróides”. Quando perguntado, Harper se descreve como um nerd, que gosta de jogos de tabuleiro e indie rock. Nenhuma dessas coisas necessariamente o baniria da mesa das crianças “legais” da escola. Mas, se você era um jovem negro que gostava de coisas que não eram identificadas com a negritude, acabava confinado a uma pequena caixa na mente dos outros.

— Definitivamente, entendi a coisa toda sobre Carlton — comenta Harper, referindo-se a Carlton Banks, o primo desajeitado de Will Smith em “The Fresh Prince of Bel Air” (“Um maluco no pedaço”, no Brasil), interpretado por Alfonso Ribeiro. “Eu gostava de muitas coisas que muitas crianças brancas gostavam. Isso certamente não mudou desde que fiquei mais velho, acho que agora estou menos consciente disso”.

Cena da série 'The Good Place'
William Jackson Harper entre Kristen Bell e Ted Danson em cena de ‘The good place’ Foto: Colleen Hayes/NBC

Os nerds na imaginação coletiva tendem a ser codificados como brancos. O que não significa Alfonso Ribeiro ou Jaleel White (que interpretou Steve Urkel na série “Family Matters”). Mas um bom trabalho foi feito nas últimas décadas para complexificar o que significa ser negro na mídia. Somente nos últimos 10 anos, explodiram idéias sobre o que é possível para os homens negros na tela, a exemplo de Sam Richardson como Richard Splett em “Veep” ou o Earn de Donald Glover em “Atlanta”.

Todos esses personagens falam de uma noção mais ampla de masculinidade negra aceitável no mainstream. Chidi Anagonye está na vanguarda dessa mudança. Megan Amram, autora e produtora da série diz que ele representa algo que o público pode não ter visto antes:

— “The Good Place” foi escrito para capturar as experiências de pessoas em todo o mundo. Com Chidi, que é nigeriano-senegalês, os espectadores assistem a um homem africano que é doce, divertido, engraçado e sedutor, além de neurótico, informado e assustado o tempo todo.É por isso que as pessoas respondem tão bem a ele.

Personagem complexo

Justin Simien, o criador da série Netflix “Dear white people”, disse que ama Chidi porque ele é complexo:

— Ele fica bravo, tem falhas, é muito inteligente, mas isso pode ser um problema. Ele é mais humano do que os nerds negros do passado puderam ser. Acho que as crianças que estão assistindo essas coisas agora talvez possam ter um pouco mais de confiança.

Para Harper, a existência de Chidi é como um conto de “advertência”, uma vez que ele morreu porque estava indeciso demais para encontrar um lugar para tomar uma bebida. Se “The Good Place”, em síntese, trata de descobrir como ser uma pessoa melhor, o ator acha que devemos nos esforçar para ser melhor que Chidi.

— Espero que as pessoas vejam Chidi em si mesmas e depois procurem melhorar as coisas que prenderam Chidi e também as prenderam comenta o ator — diz Harper. — Me sinto menos só sabendo que as pessoas também têm esse tipo de sentimentos, pensamentos, emoções. Saber que você não é o único, é ótimo.

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