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11 perguntas para Marcelo D’Salete

Hoje, Marcelo D’Salete é um dos maiores nomes dos quadrinhos nacionais. O quadrinista é um mestre em contar histórias da periferia, de pessoas marginalizadas, de desigualdade, de abismo social e de diversos outros temas tão presentes no contexto urbano, mas ignorados na correria do cotidiano.

no Em Solo Nacional

Com histórias divulgadas em diversas revistas, entre elas a Front, a Graffiti e a Suda Mery k!, da Argentina, ele publicou seu primeiro livro em 2008, ‘Noite Luz‘. Três anos depois, veio ‘Encruzilhada‘. Em 2014, publicou ‘Cumbe‘, com histórias de negros escravos, e ‘Risco‘, parte da Coleção Franca, lançada pelo selo Cachalote, capitaneado por Rafael Coutinho.

Todas as publicações que D’Salete lançou até agora são compilações de contos não isolados, que se completam e amarram um contexto e um todo.

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Quadro de ‘Noite Luz’

Bati um papo com o artista sobre inspiração, origens, próximo lançamento e muito mais. Confira a entrevista!

Quadro de ‘Encruzilhada’
Quadro de ‘Encruzilhada’

Marcelo, você já tinha a intenção de desenhar sobre questões sociais quando começou a fazer quadrinhos?

Começou de verdade em 2001 quando passei a publicar na revista Front. Minhas influências vinham de quadrinhos daquele período, como os do Miguelanxo Prado, do Peter Kuper, do Lourenço Mutarelli e da Laerte. Um pouco antes disso, meu amigo Kiko Dinucci, músico e cineasta, deixou comigo alguns roteiros sobre conflitos em grandes cidade para transformar em quadrinhos. Era exatamente o que queria. De certo modo, isso virou o foco no meu trabalho posterior também.

Você tem um público definido quando pensa em uma história? 

Eu ouvia muito rap. Esse era um som bem presente quando moleque. De certa forma, quando comecei a fazer quadrinhos, fui um pouco influenciado pelo que estava ouvindo e ainda hoje só faço quadrinhos ouvindo música. Acho que meus quadrinhos dialogam com diversos públicos dentro de uma grande cidade. A partir dessas histórias, é possível refletir sobre nossa realidade. Enfim, as histórias servem para quem é da periferia e para quem está fora dela também, mas todos, de um modo ou de outro, estão implicados nesse universo.

Com a força que o quadrinho nacional está ganhando, como extrapolar barreiras e inserir as HQs na leitura dos jovens que moram periferia? O preço ainda é a maior barreira?

A questão do preço é algo importante, porque no Brasil livro é um artigo de luxo para grande parte das famílias. Eu mesmo cresci em uma família que quase não tinha livros em casa. Comecei lendo quadrinhos e só depois cheguei na literatura e em outras artes. Por esse motivo é importante tentar garantir o acesso aos livros desde o ensino básico. Acho também que precisamos pensar em políticas públicas que fomentem esse tipo de discussão e garantir a presença da arte em espaços culturais. Imagino que se esses jovens tiverem acesso a quadrinhos, talvez ganhemos novos artistas e apreciadores de HQs no futuro. Boa parte do que temos hoje nesses programas governamentais para acervo de bibliotecas é de quadrinhos. Isso é uma grande mudança, porque na minha época não existia. Com o tempo, espero que formemos leitores mais exigentes e que dialoguem com quem produz quadrinhos aqui no Brasil.

Suas ideias e histórias pertencem, exclusivamente, a um contexto? Você se imagina desenhando e publicando algo fora dessa realidade urbana e marginalizada?

Eu tenho muita liberdade na elaboração das minhas histórias. Esses assuntos fazem parte do meu cotidiano, do meu dia a dia, das minhas pesquisas, do que reflito. Por fazerem parte da minha formação, essas experiências reverberam nos quadrinhos. Ao mesmo tempo, sinto uma certa ausência de narrativas que explorem questões sociais e negras. Essa ausência de temas negros e periféricos faz com que eu acabe dirigindo parte dos meus interesses em retratá-los também.

Mesmo em ‘Cumbe’, seu maior trabalho até agora, o estilo de narrativa que você escolheu é o conto. Há uma predileção por contar suas histórias de maneira fragmentada? Planeja publicar alguma história maior e única?

Esse formato de contos me agrada bastante. Isso tem a ver com aquelas obras que eu lia na adolescência, como ‘O Mundo Cão’, do Miguelanxo Prado, e com filmes, tipo ‘Pulp Fiction’, ‘Amores Perros’ e outros que têm esse formato. Imagino esses contos como partes interligadas. Cada conto acrescenta algo para refletir sobre a obra como um todo.

Esse estilo me dá certa liberdade em termos de criação. No entanto, o trabalho que estou fazendo agora sobre Palmares tem alguns personagens que se mantém em boa parte da narrativa maior. Nesse existe uma narrativa mais linear do que nos meus outros livros. Gosto muito de construir os contos com um valor em si, como se fosse possível lê-los isolado. É lógico que conforme você vai lendo mais, vai acrescentando mais informações para o todo.

Essa ideia de fragmentação tem a ver com o nosso período, com essa questão de termos acesso a muita informação de forma picada. Hoje, ainda mais com a internet, temos mais acesso à informação, mas de maneira muitas vezes superficial e é preciso juntar os pedaços para compreender o todo. É algo que considero interessante para pensar também na forma das histórias.

Outro elemento que vejo bem presente em sua obra é o protagonismo de crianças e adolescentes. Isso é intencional?

Capa de ‘Risco’
Capa de ‘Risco’

Nem todos os personagens são crianças e adolescentes, mas boa parte é. Com exceção de ‘Cumbe’, que tem personagens mais velhos, minhas histórias
são baseadas em relatos que encontro em jornais, pessoas que me contam fatos e, às vezes, em algumas cenas que presencio. Um pouco disso talvez tenha a ver, principalmente em ‘Noite Luz’ e ‘Encruzilhada’, com o contexto que eu estava observando na época, envolvendo jovens.

Novamente, com exceção de ‘Cumbe’, em todas as suas HQs, você usa marcas e logotipos com certa frequência. Por quê?

As marcas são elementos bem presentes em nossa realidade urbana. Estamos muito acostumado a conviver com essa arquitetura, que muitas vezes é de grades, muros altos, propagandas e marcas. Queria levar isso também para minhas histórias em quadrinhos porque é um elemento visual muito forte nos centros urbanos. Mas não quero apenas reproduzir essas marcas. Quero contextualizar e criticá-las dentro de outro contexto.

Em ‘Encruzilhada’, por exemplo, a Coca-Cola está junto do garoto que está metido com drogas. Em outra história, o celular desejado é o que motiva uma tragédia familiar. Em ‘Risco’, essa ideia da marca faz parte da identidade de um dos personagens e demonstra uma diferença de classe. É uma distinção entre o garoto de classe média e o garoto guardador de carros. Hoje, muita gente confunde sua própria personalidade com marcas. E a forma que eu encontrei de tornar isso visível é deixar presente nas histórias.

Boa parte da literatura e do cinema brasileiro sobre periferia explora a violência física e o tráfico de drogas, a exemplo de ‘Tropa de Elite’ e ‘Cidade de Deus’. Por mais que esse tipo de violência também esteja em sua obra, noto que você aprofunda mais a violência psicológica, do racismo, da falta de perspectiva. É isso, mesmo?

Nas últimas décadas, o cinema e a literatura se preocuparam muito em retratar a violência dentro e sobre os grupos marginalizados. Porém, a maioria das histórias ainda tem a visão da Casa-grande, da perspectiva dos abastados. Isso é um pouco diferente nesses filmes. Não podemos ver a periferia só como bang-bang, bala, tiro… Tento fugir bastante disso também.

Quando lancei meus primeiros livros, algumas pessoas comparavam o que eu fazia a esses filmes. Fiquei pensando o que diferenciava o meu trabalho. Bem, eu tento não tratar esses problemas sociais apenas como um pano de fundo. Meu objetivo é tentar dar voz a esses personagens e tentar explorar a complexidade desses personagens como eles merecem. E isso é uma busca em processo.

A internet alavancou discussões sobre diversos temas delicados que não tinham espaço no modelo antigo de mídia, como o feminismo, o homossexualismo, a violência e abismo social. Você acha que a arte também deve assumir um protagonismo nessas discussões? Pergunto isso, porque vejo um grande diálogo entre sua obra a questão da redução da maioridade penal, por exemplo.

Considero que a arte é importante para pensar nessas questões e no caso da maioridade penal. Tem muita gente enxergando o problema de uma forma equivocada, culpando jovens que, em sua grande maioria, são vítimas da violência. Eu tento propor algo que dialogue com essa realidade. Como eu disse, procuro pegar algo que virou notícia no jornal e tento construir os personagens e imaginar suas motivações. Isso é uma tarefa que a arte pode fazer muito bem: colocar-se no lugar do outro, ser menos maniqueísta, acrescentar maior complexidade ao nosso universo.

A literatura brasileira é farta de livros que exploram os anos de escravidão, mas poucos colocam o negro no papel de protagonista. Foi isso que você tentou fazer em ‘Cumbe’?

Com certeza, esse foi um dos focos do livro. Não foi tão simples chegar nesse ponto. Pesquisei bastante e, só depois de muito tempo, cheguei em algumas fontes que falavam de casos que eu me interessei em retratar. São poucas obras ficcionais que trabalham o tema da escravidão da ótica do escravo. A maior parte dos escritores que aborda o tema explora personagens brancos. Os negros escravizados aparecem pouco. A ideia foi focar esses personagens esquecidos. Busquei informações e dados históricos que eram relevantes para criar os personagens, imaginar seus problemas, cultura e origens.

A HQ sobre Palmares será seu próximo trabalho? Quando e como será publicado?

O plano é publicá-lo no final de 2016 ou início de 2017. É um trabalho bem longo, tem cerca de 350 páginas. Já terminei o roteiro e os primeiros esboços. Atualmente, estou finalizando as páginas com tinta. Trabalhar com tinta é um dos momentos mais prazerosos, para mim. Tem algumas editoras interessadas em publicar, mas ainda é cedo para fechar tudo isso.

Quadro de ‘Cumbe’
Quadro de ‘Cumbe’
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