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17 anos sem Rosa Parks, a mulher negra que recusou ceder lugar a um branco

Em 1955, a norte-americana Rosa Louise McCauley Parks se recusou a ceder o assento em que estava para um homem branco quando viajava em um ônibus da cidade Montgomery, nos Estados Unidos. Esse ato de desobediência civil, em repúdio a uma lei racista, foi o estopim para uma série de protestos que culminaram em um boicote ao ônibus e, posteriormente, no fim da segregação racial nos coletivos de todo o país.

Neste 24 de outubro, completam-se 17 anos da morte desta ativista que ficou conhecida como Rosa Parks. Ecoa conta um pouco de sua história de resistência, que a faz ser lembrada e homenageada tanto pela comunidade afro-americana quanto pelo próprio governo dos Estados Unidos.

Rosa Parks nasceu no dia 4 de fevereiro de 1913, na cidade de Tuskegee, no Alabama. Filha do carpinteiro James McCauley e da professora Leona Edwards, ela estudou em colégios rurais. Chegou a ingressar em uma universidade pública para estudantes negros, mas acabou abandonando o curso para cuidar da mãe.

Na infância, foi impedida de usar o transporte público porque, à época, os coletivos eram exclusivos para estudantes brancos. Cresceu sentindo na pele todas as formas de discriminação racial, mas não se intimidou. Virou ativista da causa negra e participou diretamente da luta por direitos civis.

Segundo o historiador goiano Daniel Neves Silva, que escreve para o portal Brasil Escola, as ações de Rosa Parks a transformaram em uma importante personalidade da história recente norte-americana.

Combate à segregação racial

osa estudou em escolas rurais e chegou a cursar uma universidade só para negros – Imagem: Thomas/Rosa Parks Papers, Manuscript Division, Library of Congress, Washington, D.C.

O envolvimento de Rosa com a luta antirracista, segundo o historiador, começou aos 19 anos, quando se casou com Raymond Parks, um barbeiro que integrava a NAACP (National Association for the Advancement of Colored People, ou Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, em português).

A organização era conhecida pelo combate à segregação racial e defesa dos direitos da população afro-americana. Rosa e Raymond se uniram em 18 de dezembro de 1932 e seguiram juntos até 1977, ano do falecimento dele.

“Ela atuou no apoio ao caso dos Scottsboro Boys, um grupo de nove negros acusados falsamente de terem estuprado uma mulher dentro de um trem, em 1931. Na década de 1940, tornou-se uma militante ativa do NAACP, assumindo o cargo de secretária. Nesse período, dividia seu tempo entre o envolvimento na militância e o seu trabalho. Mas a ação mais significativa da vida de Rosa Parks foi a que ocorreu dentro do ônibus em Montgomery”, explica Neves.

O historiador conta que uma lei racista do Alabama obrigava pessoas negras a cederem seus lugares aos brancos nos coletivos. A legislação praticada na capital do Alabama era considerada segregacionista contra os negros que usavam o serviço.

Desobediência civil

Rosa Parks com Martin Luther King Jr., em 1965 – Imagem: Getty Images

O boicote aos ônibus de Montgomery foi consequência dessa lei, que causava grande tensão entre as populações negras e brancas daquele estado. O historiador explica que, à época, as fileiras da frente do transporte público eram reservadas às pessoas brancas, enquanto as pessoas negras eram obrigadas a permanecerem nas últimas fileiras.

“Só esse fato já era uma demonstração flagrante do racismo. No entanto, a discriminação era ainda maior porque a mesma lei determinava que os negros se levantassem para que os brancos pudessem sentar quando o veículo estava lotado.

Daniel Neves Silva. historiador

No dia 1º de dezembro de 1955, Rosa Parks retornava para casa depois de um dia de trabalho como costureira e embarcou no ônibus. Pagou a passagem e se sentou. Ao longo do percurso, ouviu o motorista mandá-la levantar para dar o assento a um branco. Diante de sua recusa de Parks, o motorista chamou a polícia.

Na ocasião, continua o professor, Rosa saiu do ônibus presa. A notícia de sua recusa e prisão se espalhou rapidamente e motivou atos de protesto da comunidade de negra. A população decidiu não mais utilizar o serviço de ônibus e seguia a pé para o trabalho ou organizava caronas. O movimento foi um baque financeiro para a empresa de transporte público.

De Montgomery para todo o país

Sem conseguir emprego no Alabama e depois de uma série de ameaças por conta de sua desobediência, Rosa Parks e o marido se mudaram para Detroit – Imagem: Gil Baker

O boicote mostrou a força da comunidade, mas causou mais dificuldade na vida de Rosa. Solta após pagamento de fiança, ela passou a ser ameaçada por pessoas brancas e foi demitida de seu emprego. As ameaças obrigaram a ativista a mudar de estado.

Rosa Parks, então, escolheu a cidade de Detroit, em Michigan, como nova residência. De acordo com Daniel Neves, lá ela integrou um movimento de migração que reuniu milhões de afro-americanos. Todos seguiram do sul para o norte do país em busca de uma vida longe da segregação racial.

O ato de Rosa Parks em Montgomery, no entanto, deixou frutos resistentes. Depois da repercussão do episódio do ônibus, iniciou-se um processo de mobilização que tornou notória uma das maiores lideranças pelos direitos civis do afro-americanos.

Foi em Montgomery que a comunidade negra viu o início da luta do pastor Martin Luther King. A mobilização abriu um debate que obrigou a Suprema Corte, em 1956, a encerrar a segregação racial nos ônibus dos Estados Unidos.

Reconhecimento

Rosa Parks recebeu, em 1999, a Medalha de Ouro das mãos do então presidente Bill Clinton por seu papel no combate ao racismo – Imagem: Wikemedia Commons

Anos depois, após o ato de desobediência civil e da mudança de estado, Rosa Parks conseguiu emprego de secretária, no qual permaneceu a até se aposentar, em 1988. Seu engajamento social transpassou as décadas de 1960, 1970 e 1980.

A luta contra o racismo lhe rendeu várias homenagens. A mais importante ocorreu em 1999, quando recebeu a Medalha de Ouro das mãos do então presidente Bill Clinton, em pleno Congresso dos Estados Unidos, por seu papel importante no combate ao racismo. Rosa, que nunca teve filhos, morreu de causas naturais no dia 25 de outubro de 2005, na casa onde residia em Detroit, aos 92 anos.

Ônibus em que ocorreu o ato de revolta de Rosa Parks está exposto no museu Henry Ford, no estado de Michigan – Imagem: Wikemedia Commons
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