sexta-feira, maio 27, 2022
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64% das gestantes infectadas com o vírus HIV em 2021 são negras

Na última década, houve aumento de 30,3% na taxa de detecção do vírus em mulheres grávidas. Diagnóstico muitas vezes só é conhecido após o parto, e ativistas alertam para a falta de um olhar mais atento à relação entre maternidade e saúde sexual

Uma vez, Júlia** ouviu de um companheiro que deveria aceitar as brigas e as agressões físicas como as únicas manifestações de amor que ela seria capaz de receber no dia a dia. Aceitou, continuou e, posteriormente, rompeu. Depois, em outro relacionamento, se viu presa no mesmo ciclo, em que amor e violência precisavam compor a mesma fórmula de barganha, diante de sua condição como mulher que convive com o vírus HIV.

“Depois do diagnóstico, eu ainda tive muitos companheiros, e ainda ouvi, de boa parte deles, que eu deveria estar grata por estar ali, porque ninguém aceitaria se relacionar com uma mulher com HIV. Parece que por isso eu merecia apanhar, ser xingada. Até em abrigo fui parar com meus filhos depois de ter sofrido violência doméstica”, conta.

Segundo boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde no dia 1º de dezembro – data que marca a Conscientização Mundial pelo Combate à Aids – houve uma diminuição de 25% de novos casos em 2020 em comparação a 2019 – 32.701 registros no último ano, diante de 43.312 notificações do anterior. A queda, adverte o Ministério da Saúde, pode estar relacionada a uma possível subnotificação, devido ao momento emergencial da pandemia.

Homens ainda apresentam mais infecção por HIV do que mulheres: de 2007 até junho de 2021, foram notificados 266.360 (69,8%) casos em homens e 115.333 (30,2%) em mulheres. São 28 diagnósticos entre homens para cada 10 mulheres. Entre os homens, 39,4% são brancos e 51,7%, negros. Já entre as mulheres, 35,9% dos casos concentram-se em brancas e 55,1%, em negras.

O boletim também aponta que, nesta última década, houve aumento de 30,3% na taxa de detecção de HIV em gestantes. Em 2020, ela passou a ser de 2,7 casos para mil nascidos vivos. Entre 2000 e junho de 2021, foram 141.025 casos. A pasta atribui o aumento dos números à ampliação do diagnóstico, já possível no pré-natal, e aos avanços para evitar a transmissão vertical (da mãe para o filho). Em 2021, 64,4% das gestantes diagnosticadas com o vírus são negras; até junho deste ano, elas contabilizaram 2758 dos 4280 casos já registrados.

Gestantes com o vírus HIV em 2021

Dos 4.280 casos notificados este ano, 2.758 foram em mulheres negras

Pandemia e recortes raciais

Coordenadora-geral da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, Alessandra Nilo aponta que o período abordado pelo boletim do MS acentuou uma falta de percepção sobre a necessidade de atenção completa ao combate e à prevenção ao vírus HIV que, segundo ela, ficou por vezes muito restrita à facilitação do acesso aos remédios – resolução excepcional do Ministério permitiu que prescrições tivessem validade indeterminada durante o período mais crítico da pandemia. Dessa forma, os pacientes podiam retirar medicamentos em maior quantidade, saindo menos de casa e evitando consultas médicas apenas para receber novas receitas.

“Foi o momento em que observamos uma dificuldade geral de acesso à saúde, mais preocupante no caso do HIV quando lembramos que, para o tratamento, é preciso muito mais do que acesso a medicamentos, mas sim uma atenção continuada de médicos, laboratórios. E no caso da prevenção, nós também ficamos preocupados porque foi algo que deixou de ser pauta no momento em que foi preciso fazer escolha sobre para qual pandemia olhar”, lamenta.

Segundo o relatório da UNICEF HIV and Aids Global Snapshot, pelo menos 300 mil crianças foram infectadas pelo HIV em 2020, ou uma criança a cada dois minutos. No mesmo período, outras 120 mil crianças morreram de causas relacionadas à AIDS, ou uma criança a cada cinco minutos. Os dados são um alerta para um problema que, de acordo com ativistas, sempre foi invisibilizado e acabou potencializado com a pandemia: a relação entre o vírus HIV e a saúde materna.

Ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, Silvia Aloia acredita que, apesar do período apontar uma preocupação menor com campanhas pela prevenção ao HIV para a população de modo geral, mulheres sempre foram invisibilizadas nas campanhas mesmo antes da pandemia.

“Não colocar a mulher no centro ajuda até a reforçar estigmas sobre qual tipo de atenção uma mulher pode receber da saúde. É como se, quando ela não está no que é considerado grupo de risco, não é profissional do sexo ou usuário de drogas, ela não precisasse fazer testagens durante o parto ou conhecer outros métodos de prevenção. Nesses momentos, é uma invisibilidade da saúde integral daquela mulher, que só é vista como reprodutora, e esquecem que é necessário também, cuidar da sua sexualidade”, critica.

Alessandra Nilo também destaca que, como consequência da falta de atenção aos casos de HIV em mulheres, muitas delas recebem um diagnóstico tardio que pode gerar complicações para a gestação e para a saúde da criança.

“Temos muitos casos, na Gestos, em que as mulheres faziam testes durante a gravidez, mas só sabiam do resultado depois do parto. É algo sintomático de como ainda não temos a devida atenção à saúde materna no Brasil como todo, sobretudo no período do pré-natal”, critica.

Hoje, Júlia está concluindo um curso técnico de enfermagem. Durante o processo, ela, que tem a pele clara e sempre ouviu de amigos e familiares que era “morena”, também se descobriu negra – o que a fez pensar sobre o tratamento que recebeu em relacionamentos abusivos e nas várias vezes em que buscou acesso à saúde ou emprego. 

“Eu só me descobri negra aos 30 anos, mas isso para mim é o bastante para entender como marcou meu convívio com o próprio HIV e com as minhas experiências de vida. Agora eu sei e conto aos meus filhos que eles também são negros, porque acredito que quando a gente sabe, entende porque as coisas acontecem da forma como aconteceram, e também sobre como vai ser meu olhar como mulher e como profissional quando eu começar a trabalhar”, pontua. 

“Não colocar a mulher no centro ajuda até a reforçar estigmas sobre qual tipo de atenção uma mulher pode receber da saúde. É como se, quando ela não está no que é considerado grupo de risco, não é profissional do sexo ou usuário de drogas, ela não precisasse fazer testagens durante o parto ou conhecer outros métodos de prevenção. Nesses momentos, é uma invisibilidade da saúde integral daquela mulher, que só é vista como reprodutora, e esquecem que é necessário também, cuidar da sua sexualidade”

– Silvia Aloia, ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

A coordenadora da Gestos também alerta para a necessidade de trazer a questão racial para o centro da discussão quando se observam os casos de HIV no Brasil.

Mulheres negras acabam somando com mais gravidade problemas que já estão acentuados em todas as mulheres. Por uma questão de estigma, observamos como elas acabam sendo mais expostas a várias situações de violências, que já começam com uma dificuldade maior de negociar o uso de preservativo com seus companheiros,  as agressões nos relacionamentos, que também podem resultar na infecção do vírus, e a dificuldade para o acesso à informação”, enumera Nilo.

Estratégias combinadas de prevenção ao vírus HIV

Medicamentos são fornecidos nos hospitais e não substituem o uso de preservativo

Acesso à prevenção combinada 

Durante o mês de dezembro, as campanhas de conscientização ao combate da AIDS buscam destacar a importância do uso de preservativos, combinados a outras estratégias de prevenção, sempre adequada às condições de vida da pessoa. Entre elas, destacam-se o uso de preservativos, testagens e de acompanhamento, no caso de gestantes, para evitar a transmissão vertical do vírus HIV. As atenções também estão voltadas para as PREPs (Profilaxias Pré-Exposição) e PEPs (Profilaxias Pós-Exposição).

As PREPs são usos contínuos de remédios combinados (tenofovir + entricitabina), de fórmula similar aos medicamentos usados no tratamento de pessoas já diagnosticadas com o vírus HIV, e que podem reduzir em mais de 90% as chances de infecção. Elas são oferecidas desde que o paciente realize, a cada três meses, exames de acompanhamento do seu uso, além de testes para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Já as PEPs são recursos emergenciais e utilizados, principalmente, em casos de relações sexuais desprotegidas, e são compostos por medicamentos retrovirais similares às PREPs.

Segundo o Ministério da Saúde, homens gays e que fazem sexo com outros homens (definição utilizada pela pasta para bissexuais ou para homens que não se declaram homossexuais) e mulheres cis são os grupos que mais recebem atendimentos com PEPs. Em relação às PREPs, o primeiro grupo é o que mais demanda pelo serviço.  

Médica infectologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Karen Morejon trabalha diariamente com a oferta de PrEP e PEPs. Ela diz que ainda falta às pessoas o conhecimento sobre estes métodos, pois poderiam ser uma porta de entrada para atenção maior à saúde sexual, principalmente para as mulheres que ainda têm dificuldades em assimilar problemas em relações sexuais desprotegidas. Para ela, quando pacientes conhecem as opções desse tratamento, passam a ter mais chances de compreender a importância da prevenção como um todo, integrada a outros métodos, como o uso dos próprios preservativos.

“Muitas mulheres acabam sendo mais vulneráveis, já que estão presas em situações em que seus parceiros se recusam a usar qualquer tipo de preservativo durante a relação. Conhecer a prevenção combinada poderia ser importante para que pudessem entender melhor que estão em risco, já que nem sempre elas conseguem se enxergar dessa forma”, explica.

*Agnes Sofia Guimarães é repórter da Gênero e Número

** O nome da entrevistada foi alterada para preservar sua identidade 

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