A alegria pela ascensão da esquerda na América Latina

Enviado por / FonteECOA, por Mariana Belmont

Ainda com a cabeça fervendo, mas acho de uma enorme responsabilidade contar como foi o dia 7 de agosto de 2022 aqui na Colômbia. Escrevo ainda tonta com a experiência das ruas e com os braços e rosto vermelhos de um sol escaldante entre um vento frio de Bogotá. Mas com uma sensação enorme de alegria e emoção. É preciso que mais gente saiba que é possível, sim, é possível!

Com as ruas lotadas, todas, gente por todas as partes, não havia uma pessoa sem sorriso no rosto ou lágrimas nos olhos. E olha, eu gosto demais da poesia das coisas, mas saber ver de perto a defesa pela vida em sua forma plena e em estado de paz é realmente emocionante.

Eram pessoas de todas as partes da Colômbia, crianças, idosos, mulheres, militantes históricos e jovens pelas ruas, com rostos pintados, com roupas típicas, bandeiras, cartazes e gritos de alegria. Uma empolgação fora do comum para quem vive no Brasil de Bolsonaro e só viveu nos últimos anos o luto e o choro engasgado com a política de morte.

O povo colombiano esperou por mais de 200 anos para receber na Plaza Bolívar um governo de esquerda, que representa todos os povos, em cada parte do país. O clima de festa, palcos espalhados pelo centro da cidade, as roupas coloridas e a ausência de tapetes vermelhos serviram como prova de que este será um governo como nenhum outro.

Multidão assiste a posse de Gustavo Petro e Francia Márquez na Colômbia Imagem: Divulgação

O logotipo do evento de transmissão da posse presidencial foram três mariposas com as cores da bandeira colombiana, que, segundo o artista Carlos Duque, representa “abiodiversidade, compromisso ambiental e fragilidade da vida em todas as suas manifestações. Além da diversidade cultural, de gênero e do grande acordo nacional para a mudança”.

Esteve na posse como convidada Mônica Oliveira, da Articulação Negra de Pernambuco, da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e da Coalizão Negra Por Direitos. E eu pedi para ela me dizer em áudio o que sentiu ao presenciar esse momento histórico do lugar que estava na praça.

Estar representando a Coalizão Negra Por Direitos na posse de Gustavo Petro e Francia Márquez, em Bogotá, foi um dos momentos mais fortes da minha vida. Principalmente no que diz respeito as estratégias e relação com os movimentos negro, de mulheres negras e de combate ao racismo na América Latina.

O fato de Francia Márquez estar neste lugar significa muito, significa a continuidade de uma luta que nossa ancestralidade feminina vem travando há séculos. Significa oferecer para meninas e jovens negras a possibilidade de que, sim, é verdade que a gente pode ser tudo que a gente quiser.

O continente latinoamericano é marcado por profundas desigualdades, marcado por um histórico de muitas exploração, muita violência e genocídio. Genocídio negro e indígena, baseado em exploracão das riquezas desse continente maravilhoso.

E ter esse novo governo assumindo aqui na Colômbia com todas as afirmações que o presidente Petro fez, como o combate às desigualdades, o compromisso em fazer da Colômbia uma potência mundial pela vida… Isso é algo de um significado histórico e político imenso.

E nós, mulheres negras, estarmos ocupando um lugar como o que Francia ocupa hoje é, sim, um passo muito importante. Quando o continente for melhor para as mulheres negras o continente será melhor para todos. A mensagem que Francia traz desde o começo dessa luta para chegar nessa candidatura, a mensagem da defesa da vida, a mensagem do ‘sou porque somos’, para mim foi uma alegria e emoção muito grande. Me sinto orgulhosa de presenciar esse momento histórico.”

De mãos dadas com a vice-presidenta, Francia Márquez, Petro conseguiu se conectar com as populações mais vulneráveis. No juramento da possa, Francia declarou: “Juro diante de Deus, do povo colombiano, dos meus ancestrais, respeitar a Constituição e trabalhar pelos colombianos e colombianas historicamente excluídos, até que a dignidade se torne costume”.

Abraços e choro de emoção eram vistos durante a posse de Gustavo Petro e Francia Márquez (Imagem: Natalia Carneiro)

A rua foi a loucura, gritos, choro e emoção em todos os corpos. Eu estava no meio de um grupo de famílias e na hora uma senhora pegou no meu braço, me viu chorando e me abraçou.

Era como se a vida estivesse sendo celebrada. Alguém do outro lado da multidão gritou: “Agora esperamos que vença Lula no Brasil”. Sim, esperamos por Lula em outubro, mas que Lula seja mais uma chance do Brasil construir novas lideranças, como na Colômbia, que tenha a cara do país e das pessoas que constroem cada pedaço dos contornos dos sonhos.

A nova presidência da Colômbia estimou que cerca de 100 mil pessoas fizeram parte da celebração, mas no resto do país dezenas de praças – especialmente em regiões remotas, pobres e afros – também estavam lotadas de pessoas.

“Poucas vezes a gente se dá conta que está vivendo a história. E acho que durante a posse eu me dei conta que eu estava vivendo a história de um país da América Latina, e isso é grandioso em vários aspectos. Não só pela referência que Francia Márquez traz ou de um governo de esquerda pela primeira vez, mas um crescimento pessoal e de militância, uma chave vira para um momento de ‘estou vivendo a história de um país, de uma mulher e de um homem de uma maneira que eu ainda não tinha percebido’. Me emocionei muito ao ver a posse de Francia Márquez como vice-presidenta, com o juramento que ela faz ao se comprometer com a população excluída da Colômbia. Pensando no contexto que estamos vivendo no Brasil também dá uma esperança que voltaremos a ter tempos democráticos. E pensando como uma jovem de 30 anos, negra, que pode presenciar esse momento, é algo que vai ficar na minha memória. Através de mim reverberará esse momento para que as pessoas saibam como foi importante estar aqui, como é importante esse momento histórico para América Latina e para nós mulheres negras”, contou Natália Carneiro, jornalista, coordenadora de Comunicação na Casa Sueli Carneiro e em Geledés Instituto da Mulher Negra

Um momento da história cheio de simbolismos, com um discurso forte sobre a vida e sobre como precisamos colocar o debate ambiental na dianteira dessa defesa. Na centralidade do discurso de Petro, estava a defesa da Amazônia: “Vamos deixar essa floresta ser destruída para chegar ao ponto sem volta na extinção da humanidade? Ou vamos salvá-la com a própria humanidade que quer continuar vivendo nesta terra?”.

“Foi como sentir soprar mais uma vez os ventos da esperança de que, sim, é possível eleger um mandato popular, progressista, que tenha no centro uma política para a vida, que saiba diferenciar e nomear o que é o certo a se fazer, com a liderança das mulheres negras e dos povos originários”, diz Rafa Rezende, do Instituto Marielle Franco

Povo colombiano assiste a posse de Gustavo Petro e Francia Márquez (Imagem: Natalia Carneiro)

Volto para casa ainda com a sensação de estar com meu corpo na multidão do povo colombiano. A posse do primeiro governo de esquerda da história da Colômbia. Chorei, abracei pessoas que não conheço, ouvi pessoas desejando que Lula seja o próximo e me emocionei.

América Latina, que coisa bonita tudo isso dentro dos rios e das montanhas que abrigam uma quantidade enorme de pessoas das mais diferentes culturas e pensamentos, com histórias.

Volto com a certeza que Francia é o futuro, que o movimento negro e indígena da América Latina são o futuro. Voltar mirando em nossas eleições e que seja tempo de defesa da vida. Como disse Petro: “Que vença Lula” e que junto venha uma construção de novos futuros e representações para o Brasil também.

Uma nova era está se abrindo na história da Colômbia. Uma nova era está se abrindo para América Larina. Uma época, sem dúvida, cheia de símbolos.

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