A bala é a lei

Por Luciano Martins Costa

Em duas páginas confrontantes, na edição de sexta-feira (7/9) da Folha de S. Paulo, duas notícias sobre crime e violência fazem uma síntese do problema da segurança pública nas grandes cidades brasileiras.

Na primeira delas, o jornal narra o caso do professor de jiu-jitsu Alexssandro Nascimento, que foi morto a tiros de metralhadora por policiais civis de São Paulo. Ele não tinha registros de atividade criminal e, segundo testemunhas, foi baleado quando já estava rendido pelo policiais. Na versão oficial, ele teria resistido à prisão, sacando uma arma, e o investigador teria atirado em legítima defesa.

As duas versões também são publicadas pelo Estado de S. Paulo, com as costumeiras promessas de investigação sumária das autoridades. Mas a leitura dos relatos não permite entender o que houve.

Quem acha que a polícia paulista é violenta conclui sem muitas reflexões que houve uma execução, mais uma na extensa lista de crimes cometidos por policiais. Quem conhece os riscos que os policiais correm em operações desse tipo tende a acreditar na versão oficial.

Sem jornalistas dedicados a mais investigações do que aquilo que é informado pela própria polícia ou por eventuais depoimentos, é mais um caso mal explicado. Se a família do morto tem recursos e alguma capacidade de mobilização, quem sabe um dia saberemos o que houve de fato.

Circunstâncias tensas

A outra notícia que a Folha publica vem do Rio de Janeiro. Revela que, no episódio ocorrido terça-feira (4/9), quando um assaltante sequestrou um ônibus escolar para fugir da polícia, a diretora da escola preferiu dar uma pista falsa aos policiais, permitindo a fuga do criminoso, por medo de que seus alunos fossem envolvidos em um tiroteio.

Luzia Caldeira dos Santos, a diretora do Colégio Interativo, na zona norte do Rio, confessa que indicou aos policiais o lado contrário ao que o criminoso havia tomado, ao se lembrar de outros episódios em que, para prender um suspeito, a polícia havia atirado em inocentes.

Citou especificamente os casos do ônibus 174, ocorrido no ano 2000 e que virou tema de filme, e a morte da estudante Eloá, em São Paulo, assassinada pelo ex-namorado durante um cerco policial.

Embora desconectadas e sem uma análise que as ilumine, as duas notícias falam muito sobre o problema da segurança pública nas nossas cidades. Em ambos os casos, ressalta-se a orientação geral dada aos policiais, para agir com rigor – alguns diriam violência – nas abordagens a suspeitos.

Acontece que, como no caso do professor de jiu-jitsu, nem sempre se pode afirmar que houve a hipótese do confronto. Em circunstâncias tensas como as diligências policiais, nem sempre se pode assegurar que os agentes estejam no controle de seus atos, o que torna a situação extrema quando eles manejam metralhadoras e outros armamentos pesados.

Por outro lado, os moradores das regiões mais contaminadas pelo crime sabem que muitos policiais atiram primeiro e depois verificam a identidade.

Discussão urgente

A decisão da diretora da escola no Rio certamente levou em conta, ao conduzir a polícia para longe dos seus alunos e do criminoso que havia sequestrado o ônibus, as estatísticas que apontam as enormes possibilidades de que um encontro entre o assaltante e os policiais iria resultar em tiroteio, com seus alunos na linha de fogo.

O acerto de sua decisão é referendado pelo fato de que, pouco antes de invadir o ônibus no qual as 40 crianças se preparavam para ir a uma exposição de ciências, o assaltante havia se envolvido em tiroteio com a polícia.

O mesmo suspeito, perseguido pela polícia com um comparsa, havia invadido um posto de atendimento médico vizinho à escola. Ele fez uma dona de casa de refém, mas mesmo assim a polícia foi para o confronto, do que resultou a morte da mulher.

O fato é que, pressionadas diariamente a colocar a criminalidade sob controle, as autoridades têm optado por aumentar a agressividade das ações policiais e nem sempre essa decisão é acompanhada do treinamento necessário e do desenvolvimento de estratégias mais elaboradas do que a do confronto.

A polícia trocou o tirocínio pelo tiroteio.

Já é hora de os jornais saírem da passividade com que aceitam as decisões dos governos estaduais nessa área e exigirem um debate com a sociedade sobre as políticas de segurança pública.

Fonte: Observatório da Imprensa

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