A eterna resenha entre o griot, o professor e a cineasta

Um professor e uma cineasta sentam em um bar num final de tarde de sexta ao término de seus respectivos expedientes. Conversa vai e conversa vem, cada um dos trabalhadores começa a desabafar as suas frustrações com suas profissões: o professor – um homem negro educador infantil – começa a reclamar da falta de respeito da sociedade com a educação das crianças, falando que tudo era um projeto do sistema para manter a sociedade alienada atendendo aos seus desmandos; a cineasta – uma mulher negra – concordava dizendo que enquanto não se entender a importância da cultura, principalmente do audiovisual, as pessoas não iam criar uma sensibilidade com a vida e continuariam a aceitar qualquer coisa das elites. 

Enquanto os dois jovens conversavam calorosamente um senhorzinho negro e grisalho vestido como um ancião, que parecia estar ouvindo toda a discussão, interpela os dois:” enquanto vocês não saberem de onde vieram, nunca saberão para onde e como irão”.

Os griots são os alicerces fundamentais das civilizações africanas. Mais importantes do que rainhas, imperadores e outros líderes os griots são o fluxo e pulso que mantém uma sociedade viva pela eternidade. Contadores de histórias, músicos, conselheiros, oradores, genealogistas, diplomatas griots e griottes são aqueles que mantém a tradição de uma comunidade viva, perpassando gerações por gerações a ancestralidade de um povo. 

Renato Noguera nos conta que os griots são: “pessoas de famílias que tinham como tarefa dobras as palavras para esculpir o mundo” (2019, p. 261). Os griots são como o sopro de vida que aquecem o sangue de uma comunidade, Amadou Hampaté Bâ faz a seguinte metáfora: “tal como o sangue, eles circulam pelo corpo da sociedade, que podem curar ou deixar doente, conforme atenuem ou avivem os conflitos através das palavras e das canções” (2010,  p. 204). 

Com nomenclaturas diferentes – Dioma, Dieli, Funa, Rafuma, Baba, Mabadi etc –, mas com propósitos similares os griots aparecem em diversas tradições do continente africano ocupando a função de ancião, sábios, mestres e mais velhos. Uma das perspectivas filosóficas das tradições africanas é a filosofia da sagacidade, onde os sábios ao exercerem a experiência da sageza conduzem sagazmente suas comunidades. Nessa tradição são as próprias comunidades que identificam seus sábios e estes, por conhecerem seu povo, vivem a partilhar sua sabedoria cotidianamente pelo bem da comunidade.

A partilha dos saberes entre os membros de uma comunidade era o que a constituía como uma. Uma das técnicas mais usadas por estes sábios eram as narrativas orais com histórias, contos, lendas, fábulas e mitos. Era nessa invenção cotidiana de contar uma história que hábitos, costumes, práticas, sentidos e lógicas eram criados comunitariamente. Narrar a vida é criar a comunidade. Noguera afirma que “a existência humana é um fenômeno narrativo. Em outras palavras, viver é uma contação de histórias, uma maneira de ocupar o espaço e experimentar o tempo” (2019, p. 272).

A capacidade humana de narrar a vida é uma das habilidades fundamentais que nos definem como seres humanos. Desde os primórdios da humanidade contamos histórias. Todos os acontecimentos cotidianos que permeiam nossas vidas têm potencial para se tornar uma narrativa ou uma história. Apenas com a imaginação e com a contação de histórias que podem apresar para uma pessoa um acontecimento passado. Então nossas vidas nadas mais são do que uma imensa rede tecida de narrativas, fabulações sobre nossas próprias experiências cotidianas. É na tessitura desses fios que os griots trabalham para criar as malhas que formam nossas comunidades.

Reconhecendo como os sábios, mestres e anciões são importantes para as comunidades da diáspora africana recentemente entrou em trâmite no Brasil o projeto de Lei Griô PL 1786/2011 para proteção e fomento à transmissão dos saberes e fazeres de tradição oral de diversos mestres orais como: curandeira, jongueiro, brincante, parteira, coquista, repentista dentre outros. Com o alargamento diaspórico do sentido do griot tradicional africano, sem subverter seu sentido sagrado original, penso que exista um encontro entre as duas personagens que abrem essa narrativa: o professor e o cineasta.

O professor, o cineasta seguem essa tradição de narradores africanos, nunca iguais aos originais, mas mantendo a tradição viva, em espiral, atualizada em tempo real, diferente da tradição ocidental onde o tempo linear passado, não é vivo, é obsoleto. Como os griots que mantinham a tradição vida, cineastas e professores trabalham com a herança de suas comunidades. Os professores lidando com a infância e os cineastas, assim como outros artistas, com o legado estético. Para as tradições africanas herança é responsabilidade, o trabalho destes três é parte dessa responsabilidade política com sua comunidade.

Como os griots tradicionais do Mali que dominavam algum tipo de técnica para exercer o seu ofício, Noguera afirma que existe uma tecnologia griot (2019) na arte da oralidade. Os griots com sua memória esculpindo palavras cantadas e faladas; os cineastas com suas câmeras fazendo cortes, zooms e planos; os professores com seus livros convidando as crianças a outros mundos. Talvez a melhor imagem que evidencia a intercessão entre essas três diferentes funções está na figura do cineasta Ousmane Sembène na varada de sua casa em frente ao oceano atlântico.

Ousmane Sembène e seu quadro imaginário ( Marco Aurélio)

O pioneiro do cinema africano para desenhar suas cenas imaginava a janela de sua varanda como um enquadramento de cinema e ali ele ia projetando os personagens, as falas, os conflitos de sua narrativa. Como um professor no documentário Sembène – A criação do cinema africano (1994) ele explica para seus expectadores o seu processo criativo pelas ondas do atlântico. Para Hambaté Bâ (2010, p. 208), “uma das peculiaridades da memória africana é reconstituir o acontecimento ou a narrativa registrada em sua totalidade, tal como um filme que se desenrola do princípio ao fim, e faze-lo no presente”. Assim a memória na tradição africana atua toda uma cena de cinema com seus personagens, suas palavras e até os mínimos detalhes das roupas (HAMBATÉ BÂ, 2010). Os cineastas então criam novos mundos com suas narrativas, imagens e sons podendo atuar como um mergulho no próprio mundo subconsciente, como no mergulhar de outros oceanos cognitivos.

É nessa relação entre nós e o restante do mundo que o professor aparece. Não como aquele que traduz o mundo sensível e cognoscível, mas como aquele que apresenta e articula as trajetórias individuais dentro dos caminhos coletivos da vida em comunidade. Os professores ajudam assim “as pessoas a encontrarem seus próprios caminhos dentro de uma caminhada coletiva” (NOGUERA, 2019, p. 269). Tudo acontecendo na própria espontaneidade dos cotidianos escolares, seguindo a tradição africana onde a “própria vida era educação” (HAMBATÉ BÂ, 2010, p. 200).

A prática dos griots, dos professores e cineastas promovem a nutrição da comunidade, ao partilhar o sentido da vida com suas criações. Todos eles esculpem a vida com a tecnologia das palavras. O ato de falar é que enuncia o sopro de vida de cada um deles, emanando em toda a comunidade, a tornando vida. 

Sabendo de qual origem partimos, temos noção do propósito que temos. A partir da tradição africana o sentido da ação dos detentores das tradições é manter suas comunidades vivas. A ação dos griots, professores e educadores devem ser a partilha desse sentido vivo. E como Renato Noguera nos conta: “o agir é colocar em movimento uma parcela do mistério de estarmos vivos” (2019, p. 270).

Referências

HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010.

NOGUERA, Renato. “Antes de saber para onde vai, é preciso saber quem você é”: tecnologia griot, filosofia e educação. Problemata: R. Intern. Fil. V. 10. n. 2. 2019. 

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