A força do rap

Como levar essa expressão de resistência e denúncia social para a sala de aula

Por Roberto Camargos, do Carta Educação

Foi no correr dos anos 1980 que o rap aterrissou em solo brasileiro, sendo apropriado, especialmente, por jovens negros e moradores de periferia que logo passaram a desenvolver uma produção local, sintonizada com questões de seu contexto.

Daí que o rap brasileiro – uma prática musical que faz parte do universo cultural hip-hop, composto também de outros elementos como o break e o grafite – já tem mais ou menos 30 anos de uma trajetória que ainda não foi contada de maneira consistente e sistematizada. A riqueza e a complexidade desse fenômeno cultural, porém, já é reconhecida em uma bibliografia considerável.

Leia atividade didática de Artes baseada neste texto

Competências: Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da própria identidade
Habilidades: Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais; Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos

O RAP É UM GÊNERO MUSICAL QUE COMPÕE UM PROCESSO DINÂMICO. SUA ORIGEM ESTÁ RELACIONADA COM A CHEGADA DE JAMAICANOS AOS ESTADOS UNIDOS NO FIM DA DÉCADA DE 1960.

Esses imigrantes introduziram em solo estadunidense práticas culturais que já lhes eram comuns e que tinham influências de matrizes africanas, das quais descendiam, como a oralidade, modos de se comportar e tipos específicos de música.

Entre as práticas inovadoras inseridas no contexto urbano dos EUA estavam os costumes musicais conhecidos por sound sistems, espécie de sistema de som móvel que proporcionava a realização de encontros regados a música em espaços abertos como ruas e praças.

Os DJs (disc-jóquei) eram os responsáveis pelo funcionamento do sistema de som. Eles, entretanto, não se limitavam a tocar os discos: faziam uso criativo dos aparelhos de que dispunham, mixando, improvisando, experimentando e, com isso, construindo novas músicas. Entre uma canção e outra aconteciam intervenções de um locutor, fosse para dar notícias, pedir algo, fazer propaganda, comentar algum assunto que poderia ser de interesse coletivo ou para tentar animar o público.

O rap nasceu com esses DJs que começaram a discotecar em festas públicas nova-iorquinas e que, ao desempenharem esse papel ante os toca-discos, ou emitiam ao mesmo tempo mensagens ao público ou abriam espaço para que outros o fizessem.

Aos poucos os DJs aprimoraram-se e passaram a se dedicar com exclusividade à dimensão sonora e ganhou força a figura dos MC’s (mestre de cerimônias) que, como personagens distintos, foram se encarregando do uso dos microfones e da emissão das mensagens.

Dali para a frente passou a vigorar uma divisão relativamente rígida entre o DJ, responsável pelo som, e o MC, que se colocou à frente do microfone, aquele que fala/canta por sobre a base rítmica.

Convém frisar que esse gênero musical, tal como qualquer fenômeno cultural, não surgiu pronto e acabado. Mais: não constitui atualmente uma prática cristalizada.

O rap é o resultado de múltiplas experimentações culturais que, em meio a processos de incorporação e apropriação (no caso, de traços da cultura jamaicana, afro-americana e latino-americana, bem como de estilos tão variados como funk, jazz, soul, reggae, dub etc.) desembocaram em uma música nova, desenvolvida organicamente em clubes e festas, em atenção aos anseios de parcelas específicas da população.

Em meio a ocasiões de lazer como aquelas a que se atribui o seu surgimento, momentos em que jovens se encontravam para atividades variadas, o rap (e o hip-hop em geral) teve sua história ampliada, graças a adeptos brasileiros que passaram a se dedicar a essa arte.

Ela chegou por aqui depois de sua explosão em discos e videoclipes e de sua presença na trilha sonora de filmes, momento em que adquiriu visibilidade como produto cultural que abarcava formas de identidade e novas experiências musicais.

Foram nas reuniões para se ouvir os discos dos artistas preferidos, nas tentativas de cantar suas músicas e no ensaio despretensioso das primeiras rimas que foi dado o pontapé inicial de um processo que consolidou um novo jeito de parte da população brasileira se expressar: “A gente não imaginava que seria capaz de fazer rap. A gente fazia rimas batucando nas latas de lixo”, lembrou MC Jack em certa ocasião.

As pessoas se viam, se reconheciam e se identificavam com o rap a partir de caminhos tortuosos, parciais, fragmentados, plurais. Por isso, o contato com ele, ao menos para alguns sujeitos, não instituía apenas uma relação de consumo e entretenimento passivo.

Daí foi ativamente incorporado ao cotidiano das pessoas, sendo ressignificado e ganhando colorações próprias em cada lugar em que passou a marcar presença – tanto que o termo rap, que em sentido literal significava ritmo e poesia (do inglês rhythm and poetry), passou, na visão de alguns rappers brasileiros, a significar simbolicamente “revolução através das palavras”.

No Brasil o rap adquiriu aos poucos um estatuto cultural “autônomo” conforme os envolvidos iam construindo significados e empenhando-se na defesa de determinados sentidos para a prática, ao passo que alguns modos de pensar e fazer se tornaram hegemônicos.

A fonte de inspiração dos rappers, geralmente, eram seus similares em Nova York e Los Angeles, e suas letras, concebidas como engajadas, remetiam a protestos e posicionamentos agressivos.

O rap, nesse movimento de apropriação cultural, saiu do âmbito dos discos, filmes e bailes e explodiu pelas ruas, seu gabinete de reflexões e interferências no social. Deveria ser pensado, segundo parte considerável de seus adeptos, antes de tudo, como instrumento de intervenção na realidade.

Configurou-se como uma estética do problema, em que se narram episódios de violência, de consumo de drogas e da dinâmica social do comércio de drogas lícitas e ilícitas, das péssimas condições de vida nos bairros periféricos e pobres (e o contraste destes com os bairros privilegiados), das condições de miséria e abandono e do acesso precário aos serviços públicos, do preconceito e da violência com que sofrem os negros.

São temas, em suma, que priorizam o cotidiano e as situações de “marginalização” a que estão submetidos muitos brasileiros.

O RAP SERIA ENTÃO, SEGUNDO ALGUNS DE SEUS MÚSICOS, A CANÇÃO DA REFLEXÃO, DA LUTA E DA TOMADA DE CONSCIÊNCIA.

Essas características fizeram do rap um importante ponto de partida para se pensar as relações sociais – até mesmo dentro de sala de aula. Os sujeitos que se vincularam ao gênero se projetaram, inclusive por intermédio dele, em meio aos debates acerca da sociedade de seu tempo e atestaram, assim, sua participação na vida pública.

Construíram uma prática cultural que verbalizou as dissonâncias, assinalou a contestação do social no espaço da cidade e alimentou um novo ambiente de reflexão e denúncia.

O rap operou com uma dupla função no cotidiano de seus produtores e fruidores: a um só tempo foi discurso de revolta e denúncia da deplorável condição a que um sem-número de brasileiros é relegado e também veículo de catarse perante situações de opressão e controle social.

Ao aderir a essa prática, homens e mulheres criaram um espaço no qual puderam reaver e construir sua identidade, reconfigurar sua autoestima e propagar valores alternativos.

LEVAR O RAP E AS SUAS QUESTÕES PARA DENTRO DE SUA DE AULA É TANTO PROMISSOR QUANTO DESEJÁVEL.

É uma maneira de adentrar o campo de ideias e sentimentos que circulam socialmente – inclusive ou, sobretudo, entre os alunos – e entender como setores da sociedade brasileira atribuem significados para as experiências vividas e como narram o mundo do qual fazem parte.

Entre outras coisas, é possível adentrar o campo das relações étnicas, compreendendo diversas facetas do preconceito contra os negros na atualidade. Paralelamente, abre espaço para se considerar ações que visam o seu combate e, principalmente, a autoestima e afirmação da negritude. O professor que encarar o desafio poderá constatar que essa música é boa não somente para se ouvir, mas também para se pensar a sociedade e a história.

*Roberto Camargos é doutorando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia. Autor de Rap e Política, livro sobre o rap, e diretor de É o Fluxo, documentário sobre o funk.

Saiba Mais 

Livro Rap e Política: Percepções da vida social brasileira, de Roberto Camargos, Boitempo Editorial, 2015.

Artigo “O negro drama do rap: entre a lei do cão e a lei da selva”, de Bruno Zeni. Estudos Avançados, vol. 18, n. 50, pp. 225-241, 2004. 

Vídeos: Marco Zero do Hip-Hop, de Pedro Gomes, 2014.

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