sexta-feira, agosto 12, 2022
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A guerra das estatísticas, por Sueli Carneiros

Demorou, mas enfim aconteceu e deve se transformar numa verdadeira enxurrada. São as novas fornadas de pesquisas que ameaçam proliferar em contraposição aos estudos, pesquisas e evidências empíricas sobre as desigualdades raciais no Brasil. Elas nos trazem novos números, que revelam realidades sociais inusitadas. A primeira, realizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), e divulgada pela revista Veja (23/3/05), apresenta os seguintes números sobre a composição racial dos alunos das universidades federais: 59,4% de brancos. 5,9% de negros, 28,3% de pardos e 6,4% de outros (indígenas e amarelos). Na sociedade brasileira, a proporção é de 52,1% de brancos, 5,9% de pretos, 41,4% de pardos e 0,6% de outros (indígenas e amarelos)

por Sueli Carneiro

A primeira conclusão desse estudo, a partir dos dados acima, é que o número de negros nas universidades federais corresponde exatamente à sua participação na população brasileira, que é de 5,9%.

Qualquer neófito nos estudos das desigualdades raciais sabe que as categorias utilizadas para a auto-classificação das pessoas pelo IBGE são: branco, preto, pardo, indígena e amarelos. E que a categoria negro é resultante da agregação dos auto-declarados pretos e pardos. São categorias e critérios adotados e consagrados pelos recenseamentos populacionais, pelos estudos sociológicos e demográficos há três décadas. Não é crível, portanto, que pesquisadores sérios os desconheçam. A hipótese que se coloca é a de intencionalidade. Até porque o título da matéria já adianta o sentido dos resultados: “Cotas para quê? Pesquisa financiada pelo MEC derruba tese de que negros não têm acesso às universidade federais”.

A mágica realizada pelos pesquisadores para sustentar que negros estão representados nas universidades federais na exata proporção em que se encontram percentualmente na população consistiu em tratar os dados coletados relativos aos pretos como sinônimo de negros, reduzindo-os a 5,9% da população contra os 47,3% oficiais (pretos + pardos). E, com certeza, os 5,9% encontrados referem-se a pretos e pardos e, ainda assim, não é plausível haver no Brasil em torno de 10 milhões de negros universitários, os ditos 5,9% que não são perceptíveis a olho nu nos campi universitários, nem nas séries históricas sobre o tema.

Mas esses números nos trazem outras realidades raciais até então insuspeitadas. O subterfúgio de tratar pretos como negros, invisibilizando neles os pardos, faz surgir uma nova e específica desigualdade racial que torna urgente a constituição de um novo ator social no Brasil, o Movimento Bege! Pois os dados dizem que eles, os pardos, estão subrepresentados em 13,1% a menos nas universidades federais em relação à sua presença percentual na população. E mais: que essa diferença só poder ser devida a processos de exclusão promovidos por brancos, indígenas e amarelos, posto que os negros da pesquisa não roubam vagas de ninguém, já que estariam representados exatamente na proporção que lhes caberia. Ao contrário deles, os brancos estariam acima do que lhes seria devido em 7,3% nas universidades federais; e índios e amarelos deteriam dez vezes mais vagas do que deveriam nesses latifúndios. É preciso avisar aos índios. A nova realidade racial apresentada pela pesquisa quanto ao acesso ao ensino superior exige a imediata adoção de cotas específicas para pardos, como forma de equalizar as diferenças encontradas nesse segmento.

Outro importante achado dessa pesquisa é que “quase metade dos estudantes universitários, sejam eles brancos ou negros, pertence a famílias das classes C, D e E”. Ou seja, essas classes estariam perto de consumir universidade como consomem sabonetes. Daí que esse bando de malucos que organizam cursinhos comunitários para negros e carentes, como forma de ampliar a presença desses setores no ensino universitário, são Quixotes lutando contra moinhos de vento. E a última informação é a de que “46,2% dos estudantes de universidades federais estudaram integralmente ou cursaram a maior parte do ensino médio em colégios públicos”. Então, há uma indústria de cursinhos e de escolas particulares que sobrevive de enganar as incautas classes médias e superiores que os pagam a preço de ouro, já que o ensino médio em colégios públicos tem excelência suficiente para assegurar a entrada de alunos das classes sociais menos desfavorecidas, e em larga escala, nas universidades federais.

Alguns articulistas têm se empenhado em mostrar que as cotas raciais viriam a promover conflitos raciais inéditos entre negros e brancos pobres. Erraram. Os números da pesquisa evidenciam a iminência de um conflito racial grave a ser travado por pardos contra brancos, índios e asiáticos. E, nessa, nós negros estamos numa boa!

Diz a matéria de Veja que a reação do MEC à divulgação dessa pesquisa foi: “Essa pesquisa não podia sair desse jeito”. Nós entendemos perfeitamente que não. E não é porque ela contradiga a política de cotas do ministério. Fosse só isso, seria melhor.

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