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A incomoda imagem “branca” de Michael Jackson e o racismo

por Sérgio Martins

O talento inquestionável do rei da música pop, Michael Jackson, nos brindou com obras de arte musicais e mega shows, que arrebataram milhares de multidões pelo mundo afora; além do seu marcante carisma pessoal e dedicação profissional. No entanto, sua condição de homem negro nascido no berço do capitalismo mundial e as transformações que operou em sua imagem, com certeza incomodaram racistas e não racista.  Sua ousadia ou patologia imprimiu em um jovem negro a imagem de um homem caucasiano de nariz fino e pele branca. Algumas questões brotam em nossas cabeças: será que Michael quis embranquecer para negar seu sofrimento como negro  ou desejou mudar sua imagem por liberdade para ser feliz ao seu modo. Nunca ouvir dizer de um branco que desejou  ter imagem de negro, para além do bronzeado tropical, em nossas terras tão  homenageado como sinônimo de saúde e beleza. Mas, é de se supor que Michael sabia que não deixaria de ser tratado como negro, apenas porque mudou sua face, em uma sociedade onde as margens do racismo possui um contorno de hereditariedade. Então, mudou para o seu conforto, para seu olhar no espelho.

Por aqui, alguns negros acreditam  que o status social e a ascensão, para além do conforto material, produziriam um certo “salvo conduto” nas relações sociais e no acesso as redes entrelaçadas  de poder e privilégio. Diferente da experiência pessoal de Michael, que não lhe retirou a condição de negro, alguns acreditam, entre nos,  que o verniz socioeconômico produz mudança na forma de tratamento de uma sociedade conservadora e hierarquizada em seus papeis sociais.  A experiência que conhecemos fala em outra direção.

O negro que ascende continua isolado, cumprindo, apenas seu papel funcional, sendo confundido com  segurança do hotel ou quando não, lhe tratam como negro alienígena, digo de outro país, quase sempre africano. De forma interessante, ao menos do ponto de vista analítico, no Brasil, os racistas adoram a ideia perversa da exceção, afinal, reforça o principio meritocrático, tão bem criticado por Rawls, como a naturalização da desigualdade do ponto de partida,  por isso odiaram e achincalharam as políticas de ações afirmativas.          

Mas não quero ir mais além da dicotomia entre cidadania e condição racial das pessoas, aqui ou acolá. As pessoas comuns querem uma vida comum com oportunidade de crescimento humano e profissional, segundo o  talento de cada um, que vai desenhando as historias individuais.  Porém a quetização e estigmatizarão racista produz uma distorção da realidade, trazendo frustrações e complicações psíquicas de todas as ordens para pessoas. O racismo, seja sob quaisquer vestes que se apresente,  nos faz doente, usurpa nossa condição humana,  muita vezes, dando origem a um ser social estranho ao princípio da alegria de viver, um individuo vigilante, regido sobre a regra do espanto: corre senão a polícia lhe espanca ou lhe mata. Polícia aqui dito, como o próprio órgão de segurança pública ou utilizada como metáfora das praticas de exclusão, as quais os negros estão submetidos cotidianamente.

 Ainda estamos muito distante de um modelo de sociedade, que conviva e respeite a diversidade como uma riqueza da condição humana, se Michael errou ou acertou em redesenhar sua imagem e sua percepção sobre si mesmo, o fez porque era um ser humano construído em uma sociedade racializada. 

 

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