segunda-feira, setembro 20, 2021
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A juventude negra evangélica tem algo a afirmar: Não somos modinha

Nos últimos anos, percebemos o crescimento da população evangélica no Brasil. Segundo o Censo de 2010, são 42 milhões de evangélicos no país, dos quais cerca de 23 milhões são pessoas negras.

Ou seja, a maioria dos evangélicos são negros, e, junto com o aumento da presença de jovens negros nas universidades, vivemos no Brasil um momento em que a juventude negra evangélica começa a tomar mais consciência racial.

Entretanto, esbarramos em um obstáculo: na igreja e nos seminários, as histórias e referências de negras e negros evangélicos que atuaram na luta antirracista do Brasil foram apagadas. Não existem muitos documentos ou produções de fácil acesso e didáticas para o jovem negro conseguir afirmar que não existe conflito entre sua cor, sua luta e sua fé.

Isso também não chega aos movimentos sociais. Então, quando a juventude negra evangélica começa a atuar dentro do movimento negro, ela começa a ter voz e relevância na sua cidade. Contudo, ela também passa a ser vista muitas vezes como “modinha”, como algo novo e passageiro.

Por isso, estou aqui como um jovem negro, nordestino e evangélico para afirmar que temos história, que muitos dos nossos desapareceram e morreram. Muitos negros evangélicos atuaram nos coletivos do movimento negro deste país e foram invisibilizados nas suas igrejas.

O movimento negro evangélico tem um histórico de comprometimento com as lutas progressistas que buscam a emancipação da população negra. O segmento social surgiu no país em 1841, quando Agostinho José Pereira, filho de uma ex-escravizada, conseguiu reunir mais de 300 negras e negros, todos livres ou libertos, nas ruas de Recife.

Agostinho atuava no campo da educação. Ele alfabetizou os integrantes da Igreja do Divino Mestre, uma comunidade de fé negra da qual ele fazia parte. Em 1846, foi preso, e ninguém mais ouviu falar do pastor negro da primeira igreja evangélica do Brasil.

Além de Agostinho, ressaltamos a história da jovem Maria, da nação Nagô, uma mulher escravizada de confissão protestante que se tornou líder dos negros em 1860, n a colônia em que morava, na região Sul do país. Ela fazia reuniões com os escravizados, ensinando-os sobre os costumes, as danças e as histórias da cultura nagô.

Após o período da escravização de pessoas negras no Brasil, ocorreu a Revolta da Chibata, em 1910, liderada por João Cândido Felisberto, um homem negro que foi membro da igreja metodista de São João de Meriti. Já em 1918 surge o presbiteriano João Pedro Teixeira, que ajudou na fundação da liga camponesa de Sapé, na Paraíba.

A igreja também é atravessada pela sociedade, ela é totalmente atingida pela conjuntura política. A década de 1980 foi muito importante para a história da luta antirracista no país. O surgimento do Movimento Negro Unificado, em 1978, reverberou por anos na sociedade brasileira.

Instituições negras evangélicas começaram a surgir nesse período, como a Comunidade Martin Luther King, em 1985. Nesse mesmo ano, a Igreja Metodista do Brasil criou a Pastoral de Combate ao Racismo e a Comissão Nacional de Combate ao Racismo e, em 1987, surgiu a Associação Evangélica Palmares. Ainda nos anos 1980, surgiram o Grupo Evangélico Afro-Brasileiro, o Coral de Resistência de Negros Evangélicos e a Sociedade Cultural Missões Quilombo.

Nesse contexto, havia uma grande onda de redemocratização do país. Em 1982, o pastor metodista Antônio Olímpio de Santana escreveu um texto —que se encontra até hoje no Plano Nacional de Educação da Igreja Metodista do Brasil— intitulado “Clamor de um pastor metodista negro aos metodistas brasileiros e latino-americanos de todas as raças”, que diz o seguinte:

“Nós, participantes da comunidade negra, cristãos ou não, que lutamos diariamente pelos nossos direitos há séculos negados[…] podemos confiar e encontrar apoio na igreja metodista e no seu plano?”

Perceba que em 1982 já existia um líder negro evangélico que questionava o papel da igreja dentro da militância por justiça racial no país, e o quanto ela de fato estava disposta a caminhar com o povo negro. O pastor continua:

“E no caso específico da igreja metodista, nós, da comunidade negra, contamos com a sua participação efetiva: incentivando a presença participativa de seus membros nos movimentos populares. E no caso específico dos negros metodistas, orientando-os a militarem nos diferentes movimentos negros existentes por toda a América Latina.”

Negros de confissão evangélica no contexto brasileiro também têm uma história e referências importantes que podem ajudar a comunidade evangélica a ser atuante na luta de combate ao racismo. Não podemos deixar que pessoas negras não se sintam parte da luta por causa de uma estrutura que apaga as nossas histórias e que elimina as nossas referências.

Como fruto de uma favela da região metropolitana do Recife, eu sei o quanto, como militantes no movimento negro, temos que chegar aos jovens negros evangélicos e afirmar a responsabilidade da igreja —e que não é modismo ser negro, evangélico e militante. Precisamos contar essa história nas periferias, nas igrejas da favela, nos movimentos sociais. Afinal, 23 milhões de pessoas negras são evangélicas no Brasil. A construção de uma sociedade antirracista, que supera as estruturas que reproduzem colonialidade, passa pela experiência negra evangélica e sua história.

A pergunta não é se é possível ser negro e evangélico, pois desde 1841 isso ocorre no país, as perguntas devem ser: Qual o papel da religião, a partir da experiência dos negros, na luta antirracista? O que a fé de uma mulher negra que chora o extermínio do seu filho pelas mãos do Estado tem a ver com a fé de um governador branco que diz para mirar na cabeça dos favelados e atirar para matar? Qual o papel dos negros evangélicos diante do racismo religioso?

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Participantes do Encontro do Movimento Negro Evangélico de Pernambuco, em 2019, em Recife – Gustavo Germano

Hoje, a juventude negra evangélica organizada tem tentado responder essas perguntas, construir esses caminhos na luta política e resgatar essas memórias para outros negros evangélicos e atores da sociedade. Esse trabalho é feito através das pastorais de negritude em suas igrejas locais, das instituições como a Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil, da Rede de Mulheres Negras Evangélicas do Brasil, dos coletivos Zaurildas (SP) e Pérolas Negras (ES) —que são formados por mulheres negras cristãs— e também dos núcleos do Movimento Negro Evangélico do Brasil que estão situados em Pernambuco, Minas Gerais, Bahia, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de Janeiro.

Uma grande parcela de jovens nesses espaços são produtos da história de outros evangélicos negros que se levantaram na história da igreja brasileira. A juventude negra dentro das igrejas quer falar sobre as violências que sofre, sobre as opressões que passa, sobre a própria negritude e sobre a história não contada. Temos que nos comprometer com a verdade. Muitos jovens negros não têm referências negras evangélicas por uma escolha política das instituições, precisamos cobrar da igreja brasileira a história em sua totalidade, precisamos revisitar os livros, os seminários e a memória.

Essa mesma juventude sabe que essa luta não é algo novo, que não estão inventando uma trajetória. Eles têm uma responsabilidade com a história dos que vieram antes, dos que passaram pela fé evangélica neste país e tentaram transformá-la em ferramenta de libertação e justiça racial, que afirmaram a negritude de Cristo e da fé cristã. Devemos contar a história para não deixar a branquitude apagar quem nos trouxe até aqui.

Jackson Augusto tem 25 anos, é articulador social no Usina de Valores, membro do Movimento Negro Evangélico em Pernambuco, Produtor de Conteúdo no projeto AfroCrente e aluno da escola de fé e política Martin Luther King Jr.

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