terça-feira, setembro 21, 2021
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Abdias do Nascimento: ‘O genocídio do povo negro foi uma constante em toda a construção do Brasil’

Abdias do Nascimento foi um gigante. Ator, escritor, artista plástico, professor universitário e parlamentar com mandatos na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o paulista nascido em Franca se tornou um dos maiores ativistas do movimento negro no Brasil. Seu trabalho de denunciar o preconceito racial no país pode ser considerado uma base para a luta por igualdade até hoje. Às vésperas de se completar uma década desde a morte deste cidadão, o Blog do Acervo resgata, neste post, uma entrevista publicada pelo GLOBO em 15 de agosto de 1978.

Naquela época, Abdias do Nascimento era professor de Culturas Africanas no Novo Mundo, na Universidade de Nova York, em Buffalo, nos Estados Unidos, mas estava no Rio para lançar o livro “o genocídio do negro brasileiro”. Criador de entidades como o Teatro Experimental Negro e o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO), o ativista tinha seu discurso marcado por críticas sociais hoje amplamente disseminadas nas redes sociais. Até porque os problemas ressaltados por ele há mais de 40 anos ainda moldam a realidade do Brasil.

Abdias do Nascimento morreu no dia 23 de maio de 2011, aos 97 anos de idade. Leia, abaixo, a entrevista, publicada na época quase como um depoimento, com apenas algumas indagações do jornalista Luiz de Miranda.

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Abdias do Nascimento: ‘Racismo foi institucionalizado desde a abolição’  (Foto de Paulo Moreira/Agência O GLOBO)

Em geral, quando se fala em genocídio, só se pensa que os judeus sofreram essa agressão. Esquecem o que foi cometido contra os índios e principalmente contra os africanos. Enquanto o número de judeus sacrificados foi calculado em cinco ou seis milhões, o de africanos chegou a 200 milhões. Nunca houve na humanidade uma chacina dessa natureza. Essa espécie de genocídio foi uma constante em todo o processo de construção do Brasil.

Um dos instrumentos usados nesse genocídio foi o da destruição das línguagens africanas, os assassínios diretos, a miscigenação, pela maneira como foi efetuada, como uma espécie de compulsão social; a situação que obriga o negro a  embranquecer para ter aceitação social e ascensão a qualquer nível em que deseje participar. Na medida em que se torna branco, ele tem mais chance de vencer. Eu não seria contra a miscigenação, se ela ocorresse em um plano de igualdade de condições. Mas ela começou com as violências sexuais praticadas contra a mulher negra pelo colonizador português. Essa linha de violentação da mulher negra continua até os dias dé hoje.

Nos tempos do Império, tínhamos muito mais negros nos círculos decisórios: Os irmãos Rebouças, deputados; o Visconde de Jequitinhonha, que foi ministro do Império. O Rebouças pedia, em certo momento, a impugnação de um determinado ministério do Imperador por não contar com negros.

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Abdias do Nascimento e Ruth de Souza na peça ‘Othelo’, em 1949 (Foto: Imagem retirada do site O Globo)

Hoje, como podemos ver, a situação é bem pior. O racismo íoi institucionalizado desde a abolição da escravatura, quando aconteceu apenas uma libertação formal e pudica. Em verdade, se passou de uma escravidão legal para uma escravidão de fato. Pois ao ex-escravo não foi dado nenhum apoio para reiniciar uma nova vida. Nem mora-dia, alimentação, ou condições econômicas adequadas. O emprego, que teoricamente lhe caberia, como operário livre, passou ao imigrantoe europeu. Então, desde o começo, ele não teve a solidariedade do seu meio social, pois o trabalhador estrangeiro, tão pobre quanto ele, era beneficiado pela segregação.

Esse fato mostra um dos aspectos da extinção da raça negra que denuncio ao longo desse livro. A maioria negra originária do campo continua, até hoje, como pária, e os que tentaram a sorte nas regiões urbanas foram segregados nas favelas, alagados, porões e nas “cabeças de porco”, aquelas casas coletivas. Isso constitui uma segregação residencial equivalente à dos “guetos” e do apartheid da África do Sul.

Com o abandono por parte das autoridades públicas, com a discriminação residencial e nos empregos, chegamos à discriminação nos níveis de educação. Então, a desculpa é que o negro não estuda porque não quer ou não tem meios econômicos. Mas não dizem que, para ter capacidade financeira para estudar, ele deveria ter nascido louro e de olhos azuis, de origem europeia.

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Abdias do Nascimento em seu primeiro ano como deputado federal, em 1983  (Foto de Jamil Bittar/Agência O GLOBO)

Houve vários movimentos, vários quilombos, movimentos de resistência cultural. Não adianta tentar livrar a pele, é necessário salvar a integridade do corpo e da alma, a cultura, a religião, a dignidade do negro como um ser completo e não apenas como uma besta de carga.

Hoje continuamos as velhas lutas dos africanos e dos negros do passado e criamos o Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial. As bases desse movimento sãos os “centros de luta”, que, por sua vez, existem em todo o lugar onde estejam negros trabalhando e atuando: numa fábrica, num templo de candomblé, numa escola de samba, numa favela, num afoxé, numa universidade. Onde houver três negros que se reúnam para não aceitar a discriminação racial. Já existe uma coordenação nacional que se organizou no Rio, Minas, Bahia, São Paulo, estando

Esse trabalho é uma proposição que não tem uma liderança ou figura carismática, é um movimento que não visa atender às bases da realidade negra brasileira — ou seja, um movimento que vem de baixo para cima.

É o negro que está saindo do torpor, da aparente passividade imposta pelo sistema. A diferença entre o momento atual e a época do Teatro Experímerital do Negro e da Frente Negra é que os negros já estão procurando se encontrar uns com os outros dentro de um espirito de espontaneidade. Isso é fácil de entender, pois são séculos de exploração. No momento atual, é muito bom salientar a participação da mulher negra com uma lucidez e uma grande determinação para mudar a situação da sua coletividade racial. Uma dessas pessoas extraordinárias é a professora Lélia Gonzalez.

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O ator Érico Bras beija a mão de Abdias do Nascimento, em evento de 2010  (Foto de Marcos Ramos/Agência O GLOBO)

A luta do negro brasileiro é vista por Abdias corno uma luta em defesa dos direitos humanos, transcendendo os limites da nação, para situar-se no plano internacional. E a sua situação deve ser comparada á de outros países.

Os negros brasileiros estão em condições flagrantemente inferiores àquelas condições desfrutadas pelos negros norte-americanos, No Brasil se fala muito do racismo norte-americano, mas não se menciona que o negro de lá tem sua própria universidade desde o século passado, e, desde as lutas de 1960, em todas as universidades brancas há, de modo geral, de cinco a dez por cento de negros.

Aqui, a população de origem africana é de mais de 60 por cento, e lá de dez a 15 por cento. E não temos nem dois por cento de estudantes universitários. Há estados, como a Bahia e o Maranhão, onde os negros estão completamente marginalizados de qualquer nível de poder. No entanto, são 80 por cento da população. Aqui se usa um racismo sutil ou mascarado, que impossibilita a sua identificação e, automaticamente, o seu combate. Lá, eles têm alta participação nos escalões da República.

O negro no Brasil é visto, de maneira geral, como uma figura pitoresca, folclórica, bom de samba e bom de bola, e também um representante de uma malandragem que nasce quase sempre da marginalização social. Como você vê essa situação?

O papel de protagonista na área do futebol é um pouco enganoso, vem mais do grande número de negros que nela atuam. O Paulo César, que denuncia a discriminação, foi violentamente barrado na última Copa do Mundo. Ele é um tipo de cara que não pede licença ao branco para falar. Por isso, foi humílhado quando da sua não convocação. Esse não é o caso do Pelé, que sempre foi bem comportado.

Na música, o negro é o criador, o artista, mas o grande negócio quem faz são os outros, que usam e exploram o seu talento. As escolas de samba se tornaram mercadoria do turismo, perderam o caráter de criação popular dos negros. A única que está combatendo este estado de coisas é a Escola Quilombos. O racismo contra o negro vem desde que começou a colonização. É claro que o movimento internacional atual de ascensão dos negros pressiona os nossos dirigentes, que jamais quiseram admitir a existência dos negros num plano legítimo de participação na sociedade brasileira. Eles querem o negro como um cidadão de segunda classe ou desclassificado.

O Interesse nos mercados africanos, atualmente, faz com que essas pessoas tenham de enfrentar a realidade de nossa existência, mesmo a contragosto. E, assim, já se fala na entrada de negros na diplomacia. Mas nós estamos atentos a esse fenômeno, pois não estamos reinvidicando a ascensão apenas de aiguns superdotados. Não queremos flguras simbólicas, mas verdadeiras condições para a afirmação de pessoas negras.

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