sexta-feira, novembro 26, 2021
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Afropunk e Back2Black celebram a cultura negra em SP e no Rio

Matthew Morgan organizou a primeira edição do festival Afropunk em 2005. Nova York recebeu o que atualmente é um dos principais eventos de cultura negra do mundo. Quinze anos depois da estreia nos EUA, chega ao Brasil: em Salvador, em novembro de 2020.

Por Amon Borges, da Folha de São Paulo

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Erykah Badu (Foto: Bennett Raglin/Getty Images)

“Minha primeira pergunta antes de começar a vir para o Brasil foi ‘Onde estão todos os negros?’. Me disseram Bahia. Então minha reação foi ‘é para onde estamos indo’”, afirma Morgan.

Segundo ele, houve um aviso de que a capital baiana não tinha infraestrutura nem dinheiro e que ele deveria ir a São Paulo, mas isso não o intimidou. “É óbvio para quem me conhece que o mais importante para o Afropunk é servir a nossa comunidade”, diz o fundador, nascido na Inglaterra, mas atualmente morador de Nova York.

Ainda não há datas nem atrações definidas, mas a expectativa é de receber um público de até 20 mil pessoas em cada um dos dois dias do Carnaval da Consciência na capital baiana. Esse foi o mote definido após uma visita de Morgan ao estado. “No ano passado, o Carnaval na Bahia me inspirou e mudou minha vida.”

A ideia da organização também é ter encontros, painéis, concursos de bandas e shows de março a novembro em Salvador, São Paulo e no Rio, sempre dando mais atenção a pessoas negras.

Como aquecimento, Morgan já está no país e promove, em parceria com a Feira Preta, o festival Black to the Future, nesta terça (19) e quarta (20), Dia da Consciência Negra.

Entre os artistas que vão se apresentar na Audio (zona oeste de São Paulo) estão nomes como BaianaSystem, Karol Conka, Rincon Sapiência, Baco Exu do Blues e o Aya Bass, projeto composto pelas cantoras Xenia França, Luedji Luna e Larissa Luz.

Os músicos se mostram empolgados com os shows desta semana e com a vinda do Afropunk em 2020. “A comunidade preta, principalmente aqui do Brasil, sempre teve esse desejo de comparecer em qualquer lugar que aconteça o Afropunk”, diz o rapper paulistano Rincon Sapiência.

“A cultura preta tem uma abrangência enorme de música, moda, comportamento. Fomentarmos isso por meio de um festival com diversas atrações se torna muito especial”, afirma ele.

Xenia França destaca a seleção do lineup para a festa na capital paulista. “Muito massa esse esquenta com artistas da nova cena brasileira, que são tão significativos e que vêm promovendo a atualização do discurso e da estética na cultura nesse momento.”

“Sou feliz de ser artista neste momento em que a cultura negra mais uma vez se renova e atualiza a própria linguagem”, diz a baiana.

Já Russo Passapusso, vocalista do BaianaSystem, ressalta a importância da vinda de artistas e festivais estrangeiros. “Sempre que vêm parcerias de fora, festivais de fora, bandas de fora, serve para unificar a mensagem, para mostrar que isso [combate ao racismo] não cabe a um país ou outro, mas cabe mesmo a todos.”

O Brasil será o quinto país a receber o Afropunk, que já é realizado, além de Nova York e Atlanta (Estados Unidos), em Paris (França), Londres (Inglaterra), Joanesburgo (África do Sul).

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Seal e Xenia França no palco Sunset do Rock in Rio 2019 (Diego Padilha/Divulgação)

Outro evento que movimenta o mês de celebração da cultura negra é o Back2Black, no Armazém da Utopia (centro do Rio), no sábado (23). O festival nasceu em 2009 e traz como destaque neste ano a americana Erykah Badu, ícone do soul —que também se apresenta no Espaço das Américas (zona oeste de São Paulo), na quinta (21),.

Fenômeno em Portugal, o rapper lusitano com ascendência moçambicana Plutónio também está na programação do evento caropca. Ele vem ao Brasil pela primeira vez para uma apresentação que terá Malía, Xamã e Cacá Magalhães como convidados. A baiana Luedji Luna ainda recebe a moçambicana Selma Uamusse.

Para a organizadora Connie Lopes, a escolha das atrações é a parte mais prazerosa, conta. Como portuguesa e branca, ela pesquisa e fica atenta a artistas que fazem sucesso em sua terra natal. “Em Portugal percebi que existe atualmente um grande movimento de música urbana negra”, diz.

“A essência do festival sempre foi um apelo às raízes, às origens”, diz a fundadora, que espera receber 5.000 pessoas na nona edição do festival na capital fluminense.

No início, ela afirma que havia a crítica de que era um festival de negro para branco, mas “aos poucos passou a ser respeitada”. “Não quero competir com ninguém, quero contribuir para o enriquecimento da cultura negra.”

A luta contra o racismo é uma das bandeiras desses festivais e dos artistas escalados.

“Enquanto viajo pelo mundo, vejo governos discriminarem suas populações negras. Nós somos a maioria do planeta e não a minoria. Tudo o que pedimos é que as coisas sejam iguais e depois vamos ver como é justo”, afirma Matthew Morgan, do Afropunk, que indica saber como é a questão no Brasil.

Sobre a ascensão de políticos de extrema-direita, ele é enfático: “Nada mudou. O que não nos quebra só nos fortalece! Nossa força está enraizada em nossa luta. O racismo e a supremacia branca sempre foram algo com o qual tivemos que lidar diariamente.”

Black to the Future
Audio – av. Francisco Matarazzo, 694, Barra Funda, zona oeste, São Paulo. Dias: 19 e 20/11. Abertura dos portões: 21h. Preço: R$ 50 a R$ 100. Ingr.: ticket360.com.br

Erykah Badu
Espaço das Américas – r. Tagipuru, 795, Barra Funda, zona oeste, São Paulo. Dias: 21/11. Abertura dos portões: 20h. Preço: R$ 130 a R$ 360. Ingr.: ticket360.com.br

Back2Black
Armazém da Utopia – av. Rodrigues Alves, 299, Gamboa, centro, Rio de Janeiro. Dia: 23/11. Abertura dos portões: 20h. Preço: R$ 150 a R$ 250. Ingr.: ingressorapido.com.br

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