Sair da Zona de Conforto

A Marcha das Mulheres Negras foi o fato mais importante e inspirador no campo das relações raciais neste ano que caminha para o seu final.

Por Helio Santos, do Brasil de Carne e Osso 

Ao longo desses meses de 2015, diversas foram as vezes em que o racismo escancarou as suas garras de forma explícita na terra brasilis. É importante reconhecer que no Brasil os impedimentos étnico-raciais (discriminação, perseguição, preterimento, abusos avulsos) costumam funcionar – e bem – com base na dissimulação, artefato básico do “racismo cordial”, subproduto tardio da “Democracia Racial”.

Não estou aqui sugerindo que prefiro as garras explícitas do racismo – eu batalho contra ele em quaisquer de suas “mil caras” que vêm como num calidoscópio; para cada contexto tem-se uma faceta nova. Sou do tempo em que os anúncios de emprego, ao requisitar uma simples datilógrafa – eu juro que havia essa especialização –, exigiam “Boa Aparência”. Todo mundo, sobretudo os gestores de recursos humanos, sabia que essa era a senha para vetar negras e negros à vaga.

Nos tempos atuais, além da explicitação do racismo contra figuras conhecidas e reconhecidas, houve diversos casos de agressão nas universidades a alunos/as e educadores/as. Evidente que não se contam aqui os 63 jovens negros que morrem a cada 24 horas por homicídio (dados de 2012). Junto com as formas mais agudas dos diferentes tipos de discriminação racial, continuou-se a ter o tempo todo o tradicional racismo institucional brasileiro – sua idade é a do País: 515 anos; está em nosso DNA.

No dia 20 – precisamente no Dia Nacional da Consciência Negra – três trabalhadores negros foram agraciados com uma agressão recorrente a negros: bananas. Bem, a história do bar Garota da Tijuca já virou meme. A virulência dos casos recentes de racismo tem a ver em grande medida com a “zona de conforto” em que o Movimento Negro estacionou há algum tempo. Rigorosamente, não existe “conforto” para a população negra em situação alguma, sobretudo no presente momento de aumento do desemprego e precarização do trabalho (desempregados fazendo bicos ou reempregados com salários aviltados). A precarização do trabalho no Brasil tem cor e também gênero. Portanto, não há motivo para a baixa pro-atividade atual do ativismo negro. Não há brindes no particular campo da cidadania: ou se conquista ou não se tem. Passou – sim – da hora da reação.

Garota da Tijuca/ Foto divulgação: Bar no qual dois entregadores negros receberam duas bananas no Dia Internacional da Consciência Negra.
Garota da Tijuca/ Foto divulgação: Bar no qual dois entregadores negros receberam duas bananas no Dia Internacional da Consciência Negra.

Nesse ano, a SEPPIR, resultado de uma luta antiga para que o Estado brasileiro reconhecesse a necessidade de políticas específicas para a questão racial, perdeu o status de ministério – um pesado retrocesso particularmente doloroso para os ativistas de minha geração. O movimento que até 2011 induziu por sua conta e risco mais de 100 universidades públicas a adotarem as ações afirmativas (cotas) e que alimentou o STF com argumentos para vencer por unanimidade iniciativa do DEM (2012) contra as cotas raciais, se quedou inexplicavelmente ao conservadorismo reacionário que se amplificou no País a partir do congresso nacional.

A vida flui é no cotidiano; constatação que fiz nos anos 1990, quando decidimos captar dados da mídia impressa – jornais e revistas, sobretudo – para analisar como se materializava no Brasil a subcidadania imposta à população negra. Ao catalogar e classificar o farto material coletado ao longo de quase 10 anos, constatamos que observar os fatos do dia a dia permitia decifrar o bicho de duas cabeças que caracteriza o que denominei: trilha do círculo vicioso.

As duas cabeças da centopeia são óbvias: de um lado, a sociedade secularmente racista e dissimulada, e de outro a própria pessoa negra com o racismo introjetado em sua cabeça. Claro, que a introjeção é ocasionada por motivos operados pela sociedade, mas não se discute isso aqui agora. No Brasil, a reação negra vem com dificuldades em virtude de causas que explicamos na trilha do círculo vicioso – uma ideia em aberto.

A fraqueza da população negra na sociedade brasileira é aparente, pois ela é maioria. Os negros compram, veem TV, votam, têm conta bancária e podem se mobilizar para constranger, convencer, seduzir e vencer obstáculos – democraticamente.

Já falei da estratégia de produzirmos boicotes bem engendrados. Ações que podem atrair também a adesão de não-negros. Estabelecimentos públicos, como o bar do Rio, redes de TV (ou determinados programas específicos da rede), marcas, bancos etc. A última propaganda da OI para a TV, traz uma multidão de consumidores, mas esconde o principal cliente da campanha. Trata-se de uma campanha que anuncia um produto de 10 reais!

As empresas que invisibilizam os negros não merece tê-los como clientes – simples assim. A emoção e força ancestral trazidas pela Marcha das Mulheres Negras no último dia 18 estão a inspirar as/os ativistas a iniciar um novo momento que exige ousadia, organização, unidade e força – tudo o que se viu naquele monumental encontro.

Brasília - Manifestantes acampados no gramado do Congresso Nacional entraram em confronto com integrantes da Marcha das Mulheres Negras durante passeata contra o racismo e a violência (Antonio Cruz/Agência Brasil)
Brasília – Marcha das Mulheres Negras – Foto: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil

 

+ sobre o tema

‘O racismo deixa marcas na alma’

Belo-horizontina e médica, Júlia Rocha tem sido alvo de xingamentos...

Homenageada com poemas e cantos, Conceição Evaristo lança sexto livro

Premiada e traduzida, Conceição Evaristo virou referência para autoras negras, mas...

“Navio Atavos” sugere reflexão sobre a ancestralidade afro-descendente

Exposição gratuita pode ser conferida até 22 de setembro. Do...

para lembrar

Jovem preta é afastada de bebê após nascimento em maternidade de Florianópolis

Manifestantes fizeram um ato na tarde desta sexta-feira (30),...

Pelourinho recebe Festival de Afoxés em homenagem a mulher negra

Um desfile de cores e ritmos marcou a noite...

Primeira prefeita negra eleita, Tânia Terezinha quebra preconceitos

O município de Dois Irmãos, no Vale do Sinos,...
spot_imgspot_img

Ela me largou

Dia de feira. Feita a pesquisa simbólica de preços, compraria nas bancas costumeiras. Escolhi as raríssimas que tinham mulheres negras trabalhando, depois as de...

“Dispositivo de Racialidade”: O trabalho imensurável de Sueli Carneiro

Sueli Carneiro é um nome que deveria dispensar apresentações. Filósofa e ativista do movimento negro — tendo cofundado o Geledés – Instituto da Mulher Negra,...

Comida mofada e banana de presente: diretora de escola denuncia caso de racismo após colegas pedirem saída dela sem justificativa em MG

Gladys Roberta Silva Evangelista alega ter sido vítima de racismo na escola municipal onde atua como diretora, em Uberaba. Segundo a servidora, ela está...
-+=