Anielle Franco: ‘Na Copa da exclusão, árbitro se sente à vontade para fazer gesto supremacista’

16/06/26
Por Fernanda Fiot
Para a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco, episódio demonstra que FIFA perdeu o controle

A escalada de episódios discriminatórios – e até criminosos –  na Copa do Mundo de Futebol nos Estados Unidos segue avançando. Nesta segunda-feira (15), o monitor de discriminação da FIFA (Fare network) solicitou o afastamento imediato do árbitro de vídeo australiano Shaun Evans. Durante a transmissão oficial da partida de estreia entre Alemanha e Curaçao, em Houston, o árbitro foi flagrado fazendo o gesto de “OK” invertido — símbolo globalmente associado ao movimento neonazista e ao “poder branco” (white power).

O caso se soma a uma série alarmante de abusos sob a influência da política migratória do governo de Donald Trump. Nos dias que antecederam o torneio, membros da delegação do Senegal foram submetidos a revistas aeroportuárias vexatórias, o Irã teve sua cota mínima de ingressos boicotada e o somali Omar Abdulkadir Artan, eleito o melhor árbitro africano de 2025, teve sua entrada negada no país. Até mesmo a imprensa brasileira foi alvo: a repórter Karine Alves, da TV Globo, denunciou em rede nacional ter sofrido uma abordagem ríspida e racista direcionada ao seu cabelo ao desembarcar em solo norte-americano.

Inadmissível e violento

Diante do novo escândalo envolvendo a arbitragem, a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco cobrou uma postura enérgica das autoridades esportivas e repudiou o silêncio complacente da Federação Internacional.

“Ver um árbitro de vídeo, que deveria ser quem garante as regras, fazendo um gesto supremacista em plena transmissão oficial, mostra o quanto ainda temos que avançar como humanidade. A FIFA precisa agir imediatamente para que esses espaços sejam democráticos”, afirmou Anielle.

A ex-ministra manifestou profunda preocupação com o impacto do ódio no ambiente que deveria promover a integração dos povos: “O esporte é feito para unir e emocionar. Esportes salvam vidas. Permitir ações como essa é violento, inadmissível e destrói o futebol.”

O silêncio da FIFA e o exemplo de Vini Jr.

A falta de um posicionamento firme por parte do presidente da FIFA, Gianni Infantino — cuja proximidade política com Donald Trump tem sido alvo de duras críticas internacionais —, foi classificada por Anielle como falta de vontade política.

“Continuaremos lutando para que o racismo seja combatido. Não importa onde estejamos. Por isso meu posicionamento como ministra, cidadã, professora será sempre o mesmo: lutar por um mundo mais justo e igualitário. Racismo é crime!”, disparou Anielle.

Em 2023, quando o atacante brasileiro Vini Jr. foi alvo de racismo na Espanha, a atuação da então ministra foi imediata. Ao lado dos ministérios das Relações Exteriores e da Justiça, ela acionou diretamente o governo espanhol, resultando na mudança de protocolos locais e nas primeiras prisões de torcedores criminosos. Sob sua gestão federal, a agenda “Esporte sem Racismo” tornou-se política de Estado através de acordos com a CBF para paralisar partidas e punir torcidas.


Fernanda Fiot é jornalista formada pela Universidade Metodista do Estado de São Paulo com mais de 30 anos de experiência em comunicação pública, com passagens pela Assembleia Legislativa de SP e pelas prefeituras de Diadema, Santo André e Guarulhos. Também atua na assessoria de imprensa de ONGs, sindicatos, mandatos parlamentares e campanhas eleitorais.

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