Tempo Um: Quando a Professora “Celinha” nos ensinou sobre globalização

19/06/26
Por Kauê Lopes dos Santos

O ano era 2000 e havíamos todos sobrevivido ao bug do milênio. Havia uma espécie de euforia naquela virada de século. A internet começava a entrar cada vez mais no cotidiano por meio dos computadores que, junto aos celulares, se tornavam os grandes signos de um novo tempo e pareciam anunciar um mundo finalmente conectado. Associada às promessas de modernização e integração planetária, a palavra “globalização” aparecia com frequência crescente. Nesse mesmo ano, eu cursava a oitava série do ginásio e, durante praticamente todo o segundo semestre, a globalização foi o grande tema debatido nas aulas de Geografia. Foi provavelmente em agosto ou setembro, se não me falha a memória, que escutei, pela primeira vez, o nome de Milton Santos, apresentado por minha querida Professora Regina Célia Noffs, a “Celinha”, como “um dos maiores geógrafos do Brasil e do mundo”.

Houve algo de inédito naquele momento: eu e meus amigos e colegas de sala de aula víamos um intelectual negro ser apresentado como uma referência central para interpretar o mundo contemporâneo. Milton Santos aparecia ali como alguém fundamental para pensar a globalização, as articulações entre técnica e política, as transformações recentes do capitalismo e, portanto, do próprio espaço geográfico. Para mim, em particular, que era o único aluno negro da sala, aquilo teve um impacto difícil de medir, mas certamente decisivo. Até então, eu jamais havia visto uma referência negra ser colocada no lugar da excelência acadêmica e da produção de conhecimento sobre o mundo.

Nos meses que seguiram, lemos trechos de Por uma Outra Globalização, publicado naquele mesmo ano. Talvez fosse uma leitura prematura para alunos da oitava série. Talvez não. Hoje penso que toda leitura encontra, em algum momento, seu próprio tempo dentro de nossa cabeça. Lembro que não compreendi plenamente muitas das ideias que estavam ali, mas elas produziam imagens difíceis de esquecer. A noção da globalização como fábula, perversidade e possibilidade permanecia presente, mesmo quando os conceitos escapavam completamente da nossa compreensão. Havia ali uma crítica profunda à maneira como as tecnologias do período contemporâneo eram apropriadas pelos grupos mais poderosos do mundo capitalista, produzindo simultaneamente integração e exclusão, riqueza e pobreza, velocidade e lentidão. O aprofundamento das desigualdades aparecia, portanto, como a manifestação mais deletéria da realidade na qual vivíamos. Ao mesmo tempo, no entanto, naquele livro existia também uma compreensão esperançosa de que outro mundo poderia ser construído.

Tempo Dois: Quando a Professora María Laura Silveira nos ensinou sobre a economia urbana

Em 2004, ingressei no curso de Geografia da Universidade de São Paulo, a última instituição pela qual Milton Santos passou depois de um longo périplo intelectual por universidades africanas, europeias e americanas. Entrar naquele curso, no começo dos anos 2000, era estar diante de uma enorme diversidade temática: Fundamentos Naturais da Geografia com o Professor Colângelo às segundas-feiras; Fundamentos Econômicos, Sociais e Políticos da Geografia com o Professor Scarlato às terças; Introdução à Cartografia com o Professor Di Biasi às quintas; e, minha disciplina preferida, História do Pensamento Geográfico, com a Professora María Laura Silveira às sextas.

A maneira como a Professora María Laura conduzia aquelas aulas fascinava todos nós, calouros. Era um verdadeiro elogio ao conhecimento geográfico e um grande debate sobre as múltiplas maneiras de compreender o mundo nas diferentes épocas atravessadas pela humanidade. Mesmo ainda sem conhecer toda a dimensão de sua trajetória intelectual, era impossível não perceber a envergadura daquela professora argentina de português impecável, que falava com uma precisão conceitual singular e, ao mesmo tempo, com uma calma rara. Só mais tarde fui entendendo que, além de professora extraordinária de História do Pensamento Geográfico, ela também desenvolvia uma das leituras mais profundas da obra de Milton Santos, especialmente da teoria dos circuitos da economia urbana.

Em 2005 comecei a ser orientado pela Professora María Laura e passei a integrar sua equipe de pesquisa. Foi ali que Milton Santos reapareceu para mim, mas de outra maneira. Já não era somente o intelectual que havia desenvolvido uma análise crítica – e única – da globalização triunfante da virada do século. Aos poucos, fui descobrindo o autor de O Espaço Dividido, livro publicado originalmente na França em 1975 e lançado no Brasil em 1979, uma das formulações mais sofisticadas produzidas no campo da Geografia urbana do Sul Global. Gradualmente, a teoria dos circuitos da economia urbana começava a ganhar concretude para mim nas reuniões de orientação, nas leituras coletivas, nas leituras individuais e, sobretudo, nos trabalhos de campo organizados pela Professora em cidades como São Paulo, Campinas, Goiânia e Porto Alegre. Estudar a cidade significava caminhar por ela, observar suas materialidades, conversar com trabalhadores e consumidores, entender como as pessoas organizavam suas vidas cotidianas.

Com o tempo, fui entendendo também a dimensão da inflexão intelectual produzida por Milton Santos nos anos 1970. Enquanto boa parte das ciências sociais ainda insistia em explicar as cidades africanas, asiáticas e latino-americanas a partir de categorias importadas do Norte Global, Milton Santos procurava construir instrumentos analíticos enraizados na própria experiência histórica e territorial dos países do Sul. Talvez essa tenha sido uma das descobertas mais impactantes daquele período: perceber que um intelectual negro brasileiro havia produzido uma teoria com circulação internacional, capaz de reorganizar profundamente o modo de pensar a urbanização. Mas naquele período compreendi também outra coisa: para a Professora María Laura e para Milton Santos, a teoria nunca aparecia separada do mundo concreto. Ela exigia presença no território. 

Tempo Três: Quando o Professor Armen Mamigonian nos ensinou sobre a formação socioespacial

O Professor Armen Mamigonian é uma dessas figuras únicas da Geografia brasileira. Intelectual de enorme erudição, manteve, ao contrário de muitos professores consagrados, um compromisso profundo com a graduação até sua aposentadoria. Ele gostava genuinamente de dar aula, gostava – e gosta ainda hoje – do debate, das perguntas inesperadas e das longas digressões teóricas que, de repente, se conectavam aos grandes processos históricos. Foi com ele que ouvi, pela primeira vez, discussões mais sistemáticas sobre desenvolvimento desigual e combinado e sobre a formação das economias nacionais. Mas talvez a contribuição mais decisiva dele para nós estudantes, naquele segundo semestre de 2004, no curso de Geografia Econômica, tenha sido sua defesa em torno de um conceito elaborado por Milton Santos nos anos 1970: o conceito de formação socioespacial.

O Professor Armen dizia frequentemente que aquela era uma das contribuições mais sofisticadas de Milton Santos para a Geografia mundial e, ao mesmo tempo, uma das menos difundidas. O Professor Armen nos explicava que a formulação do conceito de formação socioespacial de Milton Santos portava um esforço fundamental de incorporar a dimensão espacial à tradição marxista de análise das formações sociais. O espaço deixava então de aparecer apenas como palco ou consequência dos processos econômicos e passava a assumir papel ativo na compreensão das maneiras como os modos de produção se desenvolvem historicamente em cada país.

Muito tempo depois, já no doutorado, voltaria novamente a Milton Santos pelas mãos do Professor Armen Mamigonian, agora meu orientador. Foi utilizando o mesmo conceito de formação socioespacial que organizei minhas perguntas de pesquisa sobre Gana, país da África Ocidental que estava analisando, atentando aos seus atores econômicos e suas dinâmicas territoriais. Mais do que uma categoria analítica, a formação socioespacial acabou se tornando também um princípio metodológico fundamental, uma maneira de organizar o próprio olhar sobre a realidade. Mais uma vez, Milton Santos reaparecia como um intelectual que oferecia ferramentas para pensar as realidades do Sul Global a partir de suas próprias histórias. E, novamente, isso acontecia mediado pela generosidade intelectual de um professor.

O tempo restante: o exercício de autonomia que Milton Santos nos autoriza

Em seus livros e artigos, Milton Santos nos fornece um instrumental historicamente fundamentado para formular perguntas mais sofisticadas sobre o mundo. Fazer justiça à magnitude intelectual desse geógrafo exige menos repetição automática de conceitos e maior disposição para enfrentar a realidade em sua complexidade. Exige sair para o campo, analisar os territórios em transformação, conversar com as pessoas e compreender os processos históricos em movimento. No fundo, Milton Santos permanece sendo uma dessas grandes figuras intelectuais que não organizam as nossas respostas, mas sim as nossas perguntas.

Sobre a série especial 100 anos de Milton Santo, exclusiva no Portal Geledés

Neste ano de 2026, celebramos 100 anos do nascimento de Milton Santos, um dos maiores intelectuais negros do país. Geógrafo, escritor e professor, sua obra aprofunda conceitos fundamentais para compreender o espaço geográfico, discute a globalização e antecipa reflexões críticas sobre tecnologia, bem como expõe a urbanização desigual e o protagonismo das periferias na produção de conhecimento.

A grandeza de suas contribuições foi reconhecida nacional e internacionalmente. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e Titular do Departamento de Geografia na Universidade de São Paulo, Milton Santos recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades no Brasil, na França e na Espanha. Em 1994, foi condecorado com o Prêmio Internacional Vautrin Lud, grande honraria da geografia mundial, e um ano depois, em 1995, recebeu o Prêmio Jabuti pela obra “A Natureza do Espaço”.

Em homenagem ao seu legado, o Portal Geledés apresenta uma série semanal de artigos inéditos, escritos por pessoas que o estudam, desenvolvem pesquisas a partir de sua obra ou se relacionam politicamente com suas posições e falas. Ao final, os textos farão parte de um dossiê que celebra Milton Santos. Agradecemos a cada autor e autora que aceitou fazer parte desta celebração.


Kauê Lopes dos Santos é Professor do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da Unicamp. Doutor em geografia humana pela FFLCH-USP, mestre em habitat pela FAU-USP e bacharel em geografia pela FFLCH-USP. Foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, Berkeley (UC Berkeley) e na London School of Economics. Pesquisa economia urbana dos países do Sul Global.

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