Para além de Stonewall, a utopia brasileira

07/06/26
Enviado para o Portal Geledés, por Neon Cunha

Quando falamos de Stonewall, falamos de uma rebelião ocorrida em 28 de junho de 1969, em Nova York, quando uma batida policial no Stonewall Inn encontrou resistência de pessoas LGBT que já conheciam a violência do Estado muito antes daquela noite: mulheres cis e trans, lésbicas, bissexuais, travestis, negras, latinas, pobres e racializadas. Stormé DeLarverie, Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera, Miss Major Griffin-Gracy e Brenda Howard são nomes que hoje sustentam a memória desse levante mundial; mas, quando olhamos para o Brasil, a pergunta precisa mudar: não basta perguntar onde estava o nosso Stonewall, é preciso perguntar quem foram as nossas, onde estavam, quem viu, quem fingiu não ver, quem morreu sem nome e quem sobreviveu sem nunca ser chamada para contar.

Antes da Lei do Ventre Livre, antes da promessa incompleta de liberdade de 1871, antes mesmo de o Brasil se pensar como nação, Xica Manicongo, africana escravizada em Salvador, no século XVI, já aparecia nos registros da Inquisição como uma das primeiras travestis documentadas da nossa história. Seu nome nos chega por meio de um arquivo de violência, não de reconhecimento. Ela não aparece porque o poder colonial desejava preservar sua humanidade, mas porque sua existência desobedecia ao regime religioso, sexual, racial e político da época.

Xica é uma chave de transancestralidade. Sua presença lembra que existências que hoje chamamos de travestis, trans ou dissidentes de gênero não começaram com Stonewall, nem com os tribunais, nem com a linguagem contemporânea dos direitos. Elas permeiam a história, mesmo quando a história tentou registrá-las como desvio, pecado, crime ou escândalo.

Quando chegamos à Lei do Ventre Livre, de 1871, vemos que a disputa continuava sendo sobre quem podia nascer livre, quem podia ser reconhecido como pessoa e quem seguiria sob tutela. A lei prometia liberdade aos filhos e filhas de mulheres escravizadas, mas essa liberdade já nascia cercada, tutelada, adiada. O ventre negro continuava regulado pelo Estado, pela propriedade, pela branquidade e pelo interesse senhorial.

Essa contradição permeia o Brasil. O país sempre administrou a liberdade dos corpos que considerou perigosos. Regulou o ventre negro, a circulação negra nas ruas, a pobreza pela ideia de vadiagem, a dissidência sexual e de gênero pela moral, e o nome das pessoas trans pela medicina, pela psiquiatria e pela Justiça.
Por isso, quando uma travesti negra reivindica o direito ao nome, ela não pede apenas uma alteração documental. Ela enfrenta uma longa história brasileira de tutela sobre corpos negros, femininos, dissidentes e considerados inadequados à norma.

No Brasil, a violência contra travestis e pessoas trans nunca pode ser lida separada da raça. A travestilidade brasileira, especialmente quando negra, nasce dentro de uma sociedade marcada pela escravização, pelo colonialismo, pela violência policial, pela exclusão territorial e pela recusa histórica de reconhecer humanidade plena às pessoas negras.

Quando falamos das que vieram antes, falamos principalmente das anônimas. Das que não tiveram placa, rua, retrato ou homenagem. Das que morreram sem que alguém perguntasse como gostariam de ser chamadas. Das que sustentaram outras travestis, ensinaram caminho, avisaram sobre polícia, deram abrigo, dividiram comida e criaram família no improviso e na urgência.

O país não apenas matou muitas das nossas. Ele também administrou o esquecimento. Depois da morte, muitas tiveram o nome recusado, o registro civil imposto sobre a identidade vivida, a imprensa tratando suas vidas como caso policial e, quando havia lápide, muitas vezes ela não guardava a verdade daquela existência.

No fim dos anos 1970, Ópera do Malandro não ficou restrita ao palco. Geni e o Zepelim ganhou vida própria fora do teatro. Geni deixou de ser apenas uma personagem dramatúrgica e passou a circular como imagem popular. A canção nasce como crítica à hipocrisia moral de uma sociedade que apedreja aquilo que deseja. O problema é o que o Brasil fez com essa crítica.

Um país profundamente cissexista, racista e moralista muitas vezes não escutou Geni como denúncia da violência. Escutou como autorização simbólica para continuar rindo, desejando, culpando e apedrejando. Geni precisa aparecer não como centro da história travesti, mas como uma chave incômoda para entender a cultura brasileira. Ela revela como o país aprendeu a transformar a travesti em metáfora antes de reconhecê-la como sujeito. Mas a travesti brasileira não é só a personagem apedrejada. Geni é cicatriz, mas não pode ser destino.

No Brasil, a perseguição às travestis e mulheres trans foi social e institucional. Durante a ditadura e depois dela, operações policiais como Rondão, Arrastão, Richetti e Tarântula organizaram uma política de limpeza urbana. Limpeza mesmo. Tirar das ruas. Remover o incômodo. Fazer desaparecer aquilo que a moral pública não queria ver.

E eu não falo disso de fora.

Eu estava lá.

Em 1986, na esquina da Rua Princesa Isabel com a Avenida Amaral Gurgel, na República, muito próximo daqui, eu vi uma travesti negra ser executada por um policial. Ele parou a Veraneio vascaína, desceu, atirou contra a testa dela e, em seguida, voltou-se para mim e para minhas amigas. Não bastava ter matado. Era preciso nos ensinar o medo. Ele perguntou: “Vocês nunca viram o melado escorrendo?” Depois ordenou que corrêssemos enquanto ainda estávamos vivas.

Não era notícia de jornal, não era estatística. Era uma vida semelhante à minha sendo retirada do mundo diante dos meus olhos, dentro de uma política de extermínio que fazia das ruas um território de caça e das travestis negras corpos previamente condenados.

Eu era muito jovem. E, no dia seguinte, não tive o direito de desabar. Eu precisava ser a melhor filha, a melhor funcionária, a melhor aluna. Precisava continuar impecável, obediente, produtiva, silenciosa. Como se aquela violência não tivesse habitado meu corpo. Como se a cidade tivesse me mostrado, de forma brutal, qual era o destino reservado para quem se parecia comigo.

Ali, eu compreendi algo que nenhuma teoria, sozinha, daria conta de explicar: sobreviver, para uma travesti negra, muitas vezes significava carregar o horror sem poder demonstrar a ferida. Enquanto uma vida semelhante à minha era retirada do mundo, eu precisava seguir funcionando para provar que merecia continuar nele.

E quando digo “eu estava lá”, eu sei o peso dessa frase. Muitas estavam lá e nunca puderam dizer. Muitas morreram antes. Muitas foram desacreditadas. Muitas não deixaram documento. Muitas seguem sem lápide com o próprio nome. Durante muito tempo, a palavra de uma travesti não valeu como prova. Mas a memória de uma travesti sobrevivente também é arquivo. O corpo que chegou até aqui também é documento.

Por isso, minha conquista jurídica não pode ser lida apenas como vitória individual.

Quando, em 2016, reivindiquei o direito de retificar meu nome e gênero sem laudo, sem cirurgia, sem autorização psiquiátrica e sem aceitar a patologização da minha existência, eu não estava pedindo permissão para ser quem eu sou. Eu estava recusando que minha vida fosse traduzida como doença, erro, suspeita ou exceção.

Naquele momento, entendi que não se tratava apenas de um documento. Aquele papel carregava território, memória e reparação. O nome não era formalidade burocrática; era a possibilidade de o Estado reconhecer juridicamente aquilo que a vida já afirmava. E a autodeclaração não era detalhe jurídico, mas o reconhecimento de que a minha humanidade não precisava mais ser validada por laudo, perícia ou autorização externa.

Essa conquista carregava minha história, mas carregava também muitas outras: as que vieram antes, as que nunca puderam entrar num tribunal, as que não tinham advogado, as que foram enterradas com nomes que não eram seus, as que sobreviveram sem serem escutadas.

Em 2018, o Supremo Tribunal Federal reconheceu que pessoas trans poderiam retificar nome e gênero diretamente em cartório, sem cirurgia, sem laudos e sem processo judicial. Foi uma vitória imensa. Mas nenhuma decisão nasce sozinha. Antes dela houve luta, movimento social, corpo na rua, denúncia, gente colocando a própria vida em risco para abrir caminho.

Eu sou parte dessa história. Não como exceção. Como continuidade. Uma continuidade que passa por Xica Manicongo, pelas travestis anônimas, pelas mulheres cis e trans que enfrentaram a polícia, pelas que fugiram das operações, pelas que morreram sem nome em lápide, pelas que sobreviveram à ditadura que, para nós, nunca terminou completamente.

A democracia brasileira deveria ser travesti porque a travesti revela a distância entre a lei e a vida. Revela a violência de um país que fala em liberdade, mas regula corpos; que fala em cidadania, mas nega nome; que fala em futuro, mas naturaliza que algumas vidas sejam interrompidas cedo demais.

Uma democracia que não enfrenta racismo, cissexismo e misoginia não é democracia plena. É acordo parcial entre os que sempre puderam ser reconhecidos. É administração seletiva de direitos. É promessa incompleta.

É aqui que a palavra utopia precisa ser recuperada com dignidade. A humanidade é capaz de ter utopias. Pode sonhar, imaginar, sustentar uma visão de mundo que ainda não existe plenamente. Não devemos menosprezar essa capacidade diante de uma sociedade pragmática que pensa que tudo se resolve na conta exata. A vida é mais funda que o cálculo.

Utopia, aqui, não é fantasia vazia. É a capacidade de continuar criando quando tudo ao redor tentou produzir desistência. É a recusa de aceitar que o mundo imposto seja o único possível.

E talvez seja exatamente isso que o afrotransfuturismo nos oferece. Afrotransfuturismo não é promessa abstrata de futuro. É utopia encarnada. Uma utopia com corpo, raça, gênero, memória, ferida e projeto político. É a recusa de aceitar que travestis negras pertençam apenas ao arquivo da violência, às estatísticas de morte, aos boletins policiais ou às lápides que muitas vezes nem trouxeram seus nomes.

Futuro, aqui, não é ficção distante. É política concreta. Futuro é uma criança trans não aprender primeiro o medo antes de aprender o próprio nome. Futuro é uma travesti negra envelhecer sem que isso seja tratado como milagre. Futuro é o Estado reconhecer nossas identidades sem perícia, laudo, desconfiança ou tutela. Futuro é escola que não expulsa, saúde que não patologiza, trabalho que não exige invisibilidade, cidade que não trata nossa presença como sujeira.

É aqui que utopia, transancestralidade e afrotransfuturismo se encontram: na coragem de imaginar sem abandonar a memória, na capacidade de criar mundo sem negar a violência, na recusa de transformar nossas mortas em estatística e nossas sobreviventes em exceção.

Nós não somos novidade. Somos continuidade. Não somos exceção. Somos transancestralidade. Não somos apenas sobreviventes. Somos projeto de futuro.

A história não começa em Stonewall e não termina em Geni. Ela passa por Xica Manicongo, pela escravidão, pela Lei do Ventre Livre, pelas ruas do Centro de São Paulo, pelas operações policiais, pelas travestis sem nome nos registros oficiais, pela conquista do direito ao nome, pela luta coletiva, pela transancestralidade e pelo afrotransfuturismo como utopia concreta de continuidade.

Porque nossa existência não é resto da democracia. É a prova de que ela ainda precisa se tornar plena e inteira.
E talvez seja essa a nossa utopia mais radical: não apenas sobreviver ao Brasil que tentou nos negar, mas obrigar o Brasil a se refazer a partir das vidas que ele insistiu, e ainda insiste, em não reconhecer.

Como aprendi nos terreiros de matriz africana, Alafia é confirmação, harmonia e caminho aberto. Que a Alafia de Xica Manicongo nos encontre inteiras, porque afrotransfuturismo é isso: fazer da transancestralidade uma estrada viva, onde nossas ancestrais apagadas não sejam silêncio e nossas vidas não precisem pedir licença para existir no futuro.

Laroyê, Exu.

Exu é Mojuba.


** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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