terça-feira, maio 24, 2022
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Antirracistas atacam obra que critica preconceito usando negros em jaulas

Breyten Breytenbach, sul-africano de nascimento e francês de coração, disse no dia 28 de novembro que “se a França se tornou isso, é triste”. O escritor, que passou nove anos nos cárceres do regime do apartheid, falava sobre os atos de violência da véspera durante uma apresentação de Exhibit B no teatro Gérard Philipe, em Saint-Denis.

Por Michel Guerrin no UOL

Com esse espetáculo, o sul-africano Brett Bailey pretendia denunciar o sofrimento infligido aos negros no século 19, quando eles eram exibidos em zoológicos humanos.  Dentro das jaulas há atores, alguns deles nus, mudos, mas com um olhar fuzilante para o espectador que se vê remetido à sua culpabilidade e sua animalidade. Foi desconcertante para uns e escandaloso para outros, o que causou algo inédito na França: ativistas antirracistas atacando um espetáculo antirracista. E eles não o fizeram só brandindo cartazes, mas com as armas da intimidação, do insulto, do soco. E essa também foi uma degringolada inédita.

Essa rejeição é menos uma questão de estética do que de identidade. Um cansaço de ver negros reduzidos a seus papéis de vítimas e de ocultar sua revolta. Cansaço de que o tomador de decisões (o diretor) seja branco e aqueles que as executam (os atores) sejam negros. Cansaço de que os negros sejam sub-representados na cultura na França. Cansaço de que o poder branco colonial não seja figurado. Não vimos o espetáculo. Não tivemos vontade.

Para alguns, não é mais uma questão de escolha, mas sim uma luta esquecer o Exhibit B. É grave proibir uma obra, e há leis e tribunais para isso. Não foi o caminho escolhido pelos anti-Exhibit B. Lento demais, árduo demais, porque somente uma associação constituída há cinco anos pode entrar na Justiça. Aliás, as recentes proibições vêm dos poderes públicos, e não quanto ao conteúdo, mas devido à perturbação à ordem pública – que foi o caso de Dieudonné. Então o protesto não passa pelo tribunal, mas sim pelas ruas e pelas redes sociais: escrever, questionar, peticionar, boicotar, manifestar, bater.

Comissária do povo

Os negros na França têm razões para se sentirem excluídos, humilhados, despossuídos. Mas não concordo com aqueles que exigem do artista que ele se alinhe a seus pontos de vista. O artista não tem que se colocar na pele do outro. Ele não é historiador ou sociólogo. Ele não deve ser representativo. “Vamos descolonizar o imaginário!”, era possível ler em uma faixa dos anti-Exhibit B. Não mesmo. Se cada comunidade se eleger como comissária do povo, milhares de livros poderiam ser queimados, exposições seriam fechadas. Não estamos longe disso, se considerarmos a reportagem do “Le Monde” (22 de outubro) sobre o uso do véu nas universidades: quando uma professora de sociologia de Nanterre disse que os párias na Índia aprenderam a ler graças a colonos ingleses, estudantes de véu “à la saudita” se levantaram juntas dizendo: “Você está justificando a colonização!”

Ou ainda o filme “Django Livre”, de Quentin Tarantino, lançado em 2012. O cineasta negro Spike Lee, indignado de ver a escravidão reduzida a um “bangue-bangue”, o considerou “desrespeitoso” para com seus ancestrais. Já os conservadores se queixaram de que o filme veicularia um “racismo contra brancos”. E ninguém ouviu os anti-Exhibit B falarem sobre as longas cenas do filme “12 Anos de Escravidão” (2013) de Steve McQueen, vencedor do Oscar de melhor filme em Hollywood, que mostram escravos nus, humilhados e chicoteados. É verdade que McQueen é negro.

Falta de ironia

Quando Claude Lanzmann, autor do imenso “Shoah”, ataca com virulência os filmes que tratam do assunto através da ficção ou recorrendo a imagens de arquivo, seus argumentos não são os de um judeu, mas sim de um cineasta: as imagens seriam inúteis para traduzir a monstruosidade do extermínio. Mas hoje o debate estético muitas vezes é desprezado.

Poderíamos, por exemplo, questionar a postura, digamos naturalista, de Brett Bailey para o Exhibit B, que consiste em mostrar cruamente um horror para sensibilizar o público. É uma postura arriscada, pois do horror até a obra é só um pulo. São incontáveis, por exemplo, as exposições de arte contemporânea que pretendem criticar a sociedade de consumo, mas se limitam a mostrá-la de forma alegre. É uma questão de tom, de forma.

E também de ironia, algo que falta um pouco a uma comunidade que se sente vitimada. Em 1978, o artista Jean-Paul Goude fez uma foto de sua companheira, a cantora negra Grace Jones, nua dentro de uma jaula, com a seguinte inscrição: “Do not feed the animal”. Não alimente o animal. É uma imagem indefensável se lida literalmente e se esquecemos de que a obra de Goude, impregnada de códigos da história colonial, teve seu papel em prol da mestiçagem negra, branca e árabe.

Ele explica: “Toda decisão artística deve estar situada em um contexto. Eu imaginei essa foto durante uma performance no Roseland Ballroom, sala mítica de Nova York apreciada pela comunidade gay. Grace queria posar como animal selvagem, pois ela se via assim. Fui criticado, mas continuava sendo no nível do debate. Hoje, tudo está cada vez mais tenso, e isso é assustador. Todo artista está agora à mercê de um aiatolá do politicamente correto.”

Para o advogado Emmanuel Pierrat, “podem-se mostrar muito menos obras audaciosas do que trinta anos atrás. Porque essas obras são vistas na internet por um público a quem elas não eram destinadas”. A internet teve sucesso onde trinta anos de políticas culturais fracassaram: atrair um público que pensa que tal espetáculo não é para ele. Com o seguinte efeito bumerangue: esse público procura destruir uma oferta na qual ele não se encontra. “As paredes do teatro se tornaram muros de vidro”, conclui Pierrat. O Exhibit B foi exibido no Centquatre, em Paris. Com que clima?

Tradutor: UOL

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