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Aparecida é a Nossa Senhora negra

Fonte: A Tarde –

O  Dia de Nossa Senhora Aparecida, proclamada pela Igreja Católica como padroeira do Brasil. Uma das características que mais chamam a atenção neste culto é a cor negra que caracteriza a imagem. A explicação de especialistas para este fenômeno é o tipo de argila com que ela foi fabricada, mas a simbologia do culto mariano, como é chamada a devoção a Maria, mostra que ela costuma assumir, em algumas situações, a face de um determinado povo que vive em estado de opressão.

“Podemos dizer que ela assume os muitos rostos dos seus filhos e nos faz lembrar daquela passagem do evangelho em que Jesus já na cruz diz ao seu discípulo João que ali está sua mãe e se virando para ela o aponta como seu filho. É um símbolo da importância que Maria teria na Igreja, pois João representa todos aqueles que formam a comunidade cristã”, explica o padre Marcos Studart, titular da Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, localizada no bairro do Imbuí em Salvador.

Foi assim em Lourdes, França, quando ela assumiu características de camponesa e no México, onde Nossa Senhora de Guadalupe apresenta traços indígenas. No caso de Nossa Senhora Aparecida, que tem este nome porque a imagem foi encontrada nas águas por pescadores, um dos seus milagres, inclusive, é a   libertação de um escravo.

Conta-se que em 1850, um escravo chamado Zacarias passou em frente ao santuário de Nossa Senhora Aparecida. Ele seguia escoltado por um feitor e com os  pulsos atados por grossas correntes. O escravo pediu permissão para rezar diante de  Nossa Senhora Aparecida e, milagrosamente, as correntes caíram deixando-o  livre.

Por conta da sua cor, Nossa Senhora Aparecida,  costuma ser saudada como a “santa negra” ou “a santa morena”.  Esta devoção a Maria faz, todos os anos, com que milhões de pessoas se dirijam ao templo dedicado a ela, localizado em Aparecida, São Paulo, que é o maior centro mariano do mundo.

Esta face de Maria tão próxima do povo brasileiro foi bem destacada nas décadas de 70 e 80 quando a Igreja Católica da América Latina vivia os tempos da Teologia da Libertação. A “opção preferencial pelos pobres”, que incluía dentre os muitos listados, negros e indígenas, da Conferência Episcopal (reunião dos bispos) em Puebla, México, em 1979, promoveu ações de aproximação maior da Igreja com os movimentos populares.

Fruto desta Igreja Católica mais renovada são organismos como a Pastoral Afro, que tem conquistado vitórias como o diálogo com as religiões afro-brasileiras, uma ação importante para o combate à intolerância religiosa. Esta abertura católica começou com o Concílio Vaticano II, realizado de 1962 a 1965. Os concílios são reuniões da alta cúpula católica para discutir e tomar decisões sobre diversos temas incusive os que envolvem doutrina. Um dos resultados deste concílio foi a realização das missas nas línguas nacionais e não mais em latim e com o sacerdote com as costas viradas para o povo, como acontecia anteriormente.

Esta festa de Nossa Senhora Aparecida é, a meu ver, extremamente rica em simbologia. Lembro de uma música de Padre Zezinho, pioneiro como padre-cantor, que, ao falar de Nossa Aparecida, usava versos como estes:

“Virgem tão serena/Senhora destes povos tão sofridos/Patrona dos pequenos e oprimidos/Derrama sobre nós as tuas graças/’.

Para quem quiser acompanhar a festa católica em Salvador  têm missas no Imbuí às 9 horas, 12 horas, 15 horas, 17 horas e 18 horas. Esta última será seguida de procissão. Na edição de amanhã de A TARDE tem uma reportagem assinada por mim sobre estas  muitas faces de Nossa Senhora.

Foto: Fernando Vivas| AG. A TARDE

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